25 agosto 2013

SOBRE A LEITURA ( PELA ENÉSIMA VEZ! )



Sobre a Leitura ( Pela Enésima Vez )

    "Não Cansemos de Ler! Jamais Desistamos de Falar Sobre a Leitura!"
   A impressão que tenho, a cada livro cuja leitura termino, não é a de que me torno mais intelectualizado, mas sim a de que me torno mais gente. Na verdade não se trata de impressão; sensação é a palavra exata, visto que, quando se tem impressão a respeito de algo, entende-se que algo incerto ou provável pode vir a ocorrer ou não. É assim que se tem a impressão de que vai chover ou de que se conhece alguém com quem se tenha deparado inadvertidamente. Já quando se tem a sensação referente a qualquer situação, não se trata mais de uma questão de dúvida nem de probabilidade. Significa, indubitavelmente, uma certeza, uma comprovação porque não se pode negar quando se sente algo, e o sentir algo nada mais é do que "a sensação de". Então, burilando a frase inicial, posso dizer que, a cada livro cuja leitura termino, tenho a sensação de que me torno mais gente. Sinto que, de alguma forma, algo que estava contido no livro, agora, faz parte de mim. Posso evocar algumas partes do que li; posso esquecer tantas outras, porém tudo o que eu vier a pensar, refletir, divagar, sonhar daí por diante, estará imbricado a esse fato ( ou ato?) recente: a mais um livro lido. 
   Quanto ao sentido da expressão "tornar-se mais gente" quem leu até aqui já obteve resposta a ela, posto que o único caminho que se pode palmilhar quando o objetivo é o de "se tornar mais gente" é precisamente o da abstração. Todo ser humano carece, e deve sentir que carece, de maiores estímulos a seus pensamentos, a suas reflexões, a suas divagações, a suas descargas oníricas. Carece de ser ̶  a cada livro lido  ̶  mais gente!

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(Maurício Palmeira)

CALCULADORA DO TEMPO

                     




                         Calculadora Do Tempo

    Rio de Janeiro, 02 de Janeiro de 2010. Nesse, que parecia ser mais um dia como outro qualquer, eu caminhava pela praia, quando, de repente, avisto um objeto parcialmente enterrado na areia. Parecia uma calculadora. Era uma calculadora! Peguei o artefato e o levei para casa a fim de analisá-lo melhor. Ao chegar a minha residência, resolvi algumas pendências, e só então fui verificar o que tinha achado. Após dias estudando-o, vi que não era uma calculadora normal mas sim uma calculadora que poderia transportar-me ao passado. No começo, pensei em não fazer nada que pudesse alterar o curso dos acontecimentos pretéritos, mas depois resolvi arrumar alguns erros por mim cometidos.
    São Paulo, 13 de Dezembro de 1995. O dia em que recebi a notícia de que tinha reprovado no primeiro ano escolar. Nesta ocasião, entrei em desespero. Mandei a professora às favas, agredi o coordenador e tentei o suicídio, no que fracassei, como já se supõe . Agora estava eu, mais uma vez, frente a frente com a situação, dessa vez peguei o boletim e fui diretamente para casa. Sem o consequente escândalo  seguido pelos dois anos de serviço comunitário como pena a mim imputada.
     Fortaleza, 31 de Dezembro de 2000. Era virada de ano, dia para esquecer os problemas de um ano inteiro, e pensar no próximo. Contudo, ninguém gosta de começar um ano com problemas, ainda mais financeiros. Naquele Réveillon gastei o que tinha e o que não tinha. As bebidas mais caras, o quarto mais caro do hotel mais caro e as mais caras e encantadoras mulheres. Tudo isso resultou em um ano de empréstimos no banco. Agora era hora de reverter isso. Calculadora programada e peguei o quarto mais barato do hotel, assisti aos fogos e fui dormir.
     Rio de Janeiro, 02 de Junho de 2002. Havia acabado de chegar à Cidade Maravilhosa. Foi aí que conheci uma jovem atraente, dona de magníficos olhos azuis. Passamos a noite juntos, e dois meses depois ela me apareceu grávida. Casei com alguém que mal conhecia, tive um filho no auge dos meus 20 anos, e nem sequer  havia terminado a faculdade. Calculadora programada e mais uma noite que passei na maior calma e na mais completa solidão.
     Rio de Janeiro, 02 de Janeiro de 2010. Nesse dia, vejo um objeto enterrado na areia, um objeto que resultou no maior erro da minha vida. Pois com ele poderia voltar ao passado. Porém, o que seríamos sem as besteiras cometidas, os erros dramáticos e as lições tiradas disso tudo. Calculadora programada. Caminhava na praia, vejo um objeto enterrado na areia. Passo reto. Era mais um dia normal e monótono em minha vida, do jeito que sempre deveria ter sido!



      (Gustavo Schil -  Aluno do primeiro Ano B,  Ensino Médio do Colégio dos Santos Anjos). 

15 agosto 2013

O HIPOCONDRÍACO



Em tempo de remédios falsificados e laboratórios incompetentes, vale lembrar deste consumidor compulsivo que faz da bula Bíblia: o hipocondríaco. Ele padece do mal de ter mania de doenças e adora tomar remédios. Ao passar à porta da farmácia não resiste e pergunta: "O que tem de novidade?"

Nada mais ofensivo ao hipocondríaco do que erguer um brinde e desejar-lhe "saúde!". Ele só frequenta coquetel de vitaminas. Encara sempre o interlocutor com aquele olhar de quem diz: "ando sentindo coisas que você nem imagina". No telefone, faz voz de vítima. Cara a cara, suplica, silente, a compaixão alheia.

Está sempre entrando ou saindo de uma gripe; já tomou todas as vacinas; sofre da coluna; padece de insônia; e trata médico como faz com motorista de táxi: "Tá livre?"

O hipocondríaco entra na Justiça exigindo mandado de prisão contra os radicais livres e duvida que alguém possa imaginar o tamanho da enxaqueca que teve ontem. Enquanto outros fazem shopping, o prazer do hipocondríaco é visitar drogarias de vitaminas importadas. Ingere pela manhã o abecedário em drágeas e nunca se deita sem antes tomar um chá de ervas.

Hipocondríaco não tem plano de saúde; prefere cota de cemitério. Gosta de se separar da família para morrer de saudades. E fica doente de raiva quando alguém diz que ele aparenta boa saúde.

O autêntico hipocondríaco carrega sempre uma dorzinha de lado, uma unha encravada, uma afta na boca, uma irritação na garganta, uma dor na coluna e umas tonturas estranhas.

Para o hipocondríaco, esposa ideal é a que banca a enfermeira; cadeira confortável é a de rodas; e cama macia, a de hospital.

O hipocondríaco é a única pessoa que, pelo som, distingue sirene de ambulância da de viatura de polícia e de bombeiro.

O guru do hipocondríaco é Hipócrates, e sua filosofia se resume nesta questão metafísica: "Se a gente nasce deitado e morre deitado, por que não viver deitado?"

O hipocondríaco morre de medo da vida saudável. Está convencido de que a diferença entre o médico e ele é que o primeiro conhece a teoria e, o segundo, a prática. Nunca pergunte a ele: "Vai bem?" É preferível: "Melhorou?"

O hipocondríaco só assina revistas médicas e, nos jornais, lê primeiro o obituário. Mas, ao contrário do que se pensa, o hipocondríaco não quer morrer — isto o curaria de sua loucura.

Nunca convide um hipocondríaco a matricular-se numa academia de ginástica. Ofereça-lhe um check-up. Os únicos exames que ele aceita fazer são os clínicos e adora ser reprovado. Se faz cooper, a perna dói; se pratica natação, fica resfriado; se flexiona o abdome, sente dor nas cadeiras.

O hipocondríaco escuta o médico com a mesma atenção que o bêbado ouve os conselhos do abstêmio. A turma do hipocondríaco se reúne em porta de farmácia e tira férias em clínicas de repouso.

O hipocondríaco é o único paciente que consegue decifrar letra de médico. Ele não se recolhe para dormir, e sim para repousar. Nunca deseje "bom-dia" a um hipocondríaco; pergunte: "Levantou melhor?" Aliás, ele não se levanta; tem alta. No aniversário, dê a ele um vidro de remédios. Todo hipocondríaco é viciado em aspirina, vitamina C e melatonina.

O hipocondríaco sabe dar nó nas tripas e acredita que o melhor lazer é curtir uma diverticulite. Considera incompetente todo médico que diz que ele não tem nada.

O hipocondríaco acredita em tudo que a mídia fala sobre cuidados com a saúde.

Quando viaja, não se hospeda; se interna. No bolso de dentro do paletó ele não carrega caneta, mas termômetro. E é a única pessoa capaz de enxergar vírus e bactérias em talheres de restaurantes.

Sonho de hipocondríaco é ser socorrido por um daqueles helicópteros UTI que aparecem na TV. E sempre reclama de que já existem telessexo, telepiada, telepizza, telessorteio, só falta o teledoença: você liga, descreve os sintomas e, do outro lado da linha, uma voz de médico prescreve a medicação.

Deve ter sido um hipocondríaco quem deu ao remédio que combate infecções o nome de antibiótico — que significa "contra a vida".

O hipocondríaco não tem remédio. Ele só se cura quando morre e, paradoxalmente, a morte é o sintoma mais óbvio de que ele tinha razão. Pena que não possa levantar-se do caixão e enfiar o dedo na cara de quem o tratava pejorativamente como hipocondríaco. De qualquer modo, repare como ele, defunto, traz um sorrisinho de vitória nos lábios.

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Frei Betto (Carlos Alberto Libânio Christo),(1945) quando jovem frade dominicano esteve envolvido com as lutas revolucionárias de seu tempo, com a política e a arte. Militante de esquerda, simpatizante da luta armada, se dividia entre os estudos de filosofia, o jornalismo e a assistência de direção de José Celso Martinez Corrêa na histórica montagem de "O rei da vela", pelos idos de 1967. É escritor consagrado, com inúmeros livros de sucesso, dentre eles "Fidel e a Religião", coletânea de entrevistas com o líder cubano. O texto acima foi publicado no jornal "O Globo", em 08/98.