28 setembro 2017

AS MARIAS - DALTON TREVISAN




   Maria, filha de Maria, a filha de Maria, tem trinta e um desgostos. Lava a roupa, lava a louça, varre que varre, e a patroa - Jesus Maria José! - a patroa ralhando.

Aos sete anos, foi esquecida pela mãe na primeira esquina.

Mulher cheia de filhos, não podia com mais um: deu a pobre da Maria.

    Sempre em casa estranha, dormindo em cama-de-vento, comendo em pé ao lado do fogão. Trabalhadeira, era de confiança e não tinha boca para pedir. Pálida, vivia debaixo de chá de ervas. Sonhando, rilhava os dentes, com as bichas alvoraçadas. Maria, ai dela, nunca soube qual o gosto de uma pêra-d'água! O guarda-comida trancado a chave, ela roía com fome um naco de rapadura, escondida sob o travesseiro.

    Lenço amarrado na bochecha, usava cera milagrosa para dor de dente - até que perdia o dente. Vagarosa por culpa de unha encravada. De lidar na potassa, partiam-se os dedos e sofria de panarício. Nunca se despedia, foi despachada pela patroa, aborrecida de suas aflições e sua cara de pamonha. Ao rolar de uma para outra casa, engordava com os anos, gemia de dor nas cadeiras e enleava-se no serviço. Sua alegria era lavar o cueiro do bebê. Ah, mas beijar a criancinha...

    _ Está proibida, ouviu, Maria?

   Criada não conhece o seu lugar, podia ter alguma doença.

   Menina séria, não ia ao baile com as outras. No carão anêmico esfregava papel de seda escarlate molhado na língua e, mal surgia à janela, a espiar um soldadinho verde, a patroa ralhava.

   - Maria, já escolheu o arroz?

   - Maria, já passou a roupa?

   - Já encerou a casa, ó Maria?

   Areada a chapa do fogão, guardada a louça, varria a cozinha, chegava-se medrosa à porta. O soldado rondava, parava, batia continência. Tinha pressa como soldado era de guerra: queria pegar na mão e cobrir de beijos.

   - Deus me livre, podia ter alguma doença!

   Maria faz o sinal-da-cruz: a boca só o marido é que iria beijar.

   Onde estão os praças da cavalaria, o tinir das esporas na calçada? Trinta e um anos de Maria! Até proibida de passear com Marta.

   - Pois vá chorar no quarto - ordena-lhe a patroa - Não suporto cena de gentinha!

   -Essa Maria, um objeto da casa, o capacho da porta, a vassoura no prego:

   Maria não vai ao circo, o palhaço é tão gozado.

   Maria não vai ao Passeio Público ver macaquinho comer banana.

   Maria não vai ao cineminha na Sexta-feira assistir a Vida , Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo.

   Maria, a filha de Maria, distraída no Domingo com a Marta, viu seu coração rolar do peito e, prato que lhe escapou dos dedos gordurosos (a patroa vai ralhar?) , partir-se em sete pedaços de sangue pelo chão.

   Era um cabo? Maria nunca soube de que arma. Falava lindo e tão difícil, puxando no xis visto, mocinha? - que ela, a saltitar ora numa perna ora noutra, esganada roía as unhas.

   - Tem gente, cabo. Você me respeita," Ô cabo!

   Ele a levou ao circo e Maria entrou soberba como uma patroa entre a gentinha que fazia cena; no pescoço a velha pele de coelho mordendo a causa. A charanga, o peludo de cara pintada, o cabo das grandes botas de general . Um palhaço xinga outro de "Gigolô! " o circo vem abaixo de tanta gargalhada. Maria sorri, o cabo lhe tira o sangue do peito.

   - Ocê me deixa louco, Maria.

    Sob o espanto do baleiro, anunciando "Ói a bala oi...". ela beijou a mão do cabo.

   Em nove meses Maria, filha de Maria, vai ser mãe de Maria.



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