27 outubro 2011

QUARTETO PARANOMÁSICO




"A DIVA QUE PARTE LINDA EM SEU PORTE.
 A VIDA, QUE TARDE FINDA, É SORTE.
 A IDA  QUE ARDE  AINDA  EM FEL FORTE.  
 A LIDA,  DE  MARTE VINDA, É MORTE."



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O Pagador de Promessas (Dias Gomes)



RESUMO DA OBRA


Trata-se de um texto escrito para teatro, ou seja, para ser levado ao palco, ser encenado. A peça é dividida em três atos, sendo que os dois primeiros ainda são subdivididos em dois quadros cada um. Após a apresentação dos personagens, o primeiro ato mostra a chegada do protagonista Zé do Burro e sua mulher Rosa, vindos do interior, a uma igreja de Salvador e termina com a negativa do padre em permitir o cumprimento da promessa feita. O segundo ato traz o aparecimento de diversos novos personagens, todos envolvidos na questão do cumprimento ou não da promessa e vai até uma nova negativa do padre, o que ocasiona, desta vez, explosão colérica em Zé do Burro. O terceiro ato é onde as ações recrudescem, as incompreensões vão ao limite e se verifica o dramático desfecho.
A ação da peça tem início nas primeiras horas da manhã (4 e meia), numa praça, em frente a uma igreja, em Salvador. O personagem denominado Zé do Burro carrega uma cruz e se aloja na frente da igreja. A seu lado Rosa, sua mulher, apresentada como tendo "sangue quente" e insatisfação sexual.
Zé espera a igreja abrir para cumprir sua promessa, feita a Santa Bárbara. Aparecem no lugar, algum tempo depois, Marli e Bonitão: ela prostituta; ele, gigolô. Há uma clara relação de exploração e dependência entre eles. Encontrando Zé, Bonitão dirige-se a ele e percebe ser alguém ingênuo. Rosa, por sua vez, conversando com o gigolô, queixa-se de Zé, contando que ele, na sua promessa, dividiu suas terras com lavradores pobres. Percebendo a ingenuidade, Bonitão propõe-se a providenciar um local para Rosa descansar. Zé não só aceita, como incentiva. Saem os dois, Bonitão e Rosa, de cena.
Aos poucos, começa o movimento ao redor da praça. Aparecem a Beata, o sacristão e o Padre Olavo, titular da igreja. Zé explica a promessa: Nicolau foi ferido com a queda de uma árvore; estando para morrer, Zé fez a promessa. O burro - Nicolau é um burro! - salva-se. Ingenuamente, Zé revela ter usado as rezas de Preto Zeferino e feito a promessa num terreiro de candomblé, a Iansã, equivalente afro de Santa Bárbara. O padre fica escandalizado. Estabelece-se o conflito. O sincretismo Iansã-Santa Bárbara, natural para Zé do burro, é um grandioso pecado para o padre. A situação agrava-se com a revelação da divisão de terras. Impasse. O padre manda fechar a igreja e proíbe o cumprimento da promessa. Zé do burro fica atônico.
Duas horas mais tarde, já a movimentação no lugar é intensa. O Galego, dono do bar, abriu seu estabelecimento. Surgem Minha Tia, vendedora de acarajés, carurus e outras comidas típicas, Dedé Cospe-Rima, poeta popular, ao estilo repentista e o Guarda. Zé do burro quer cumprir a promessa. O Guarda tenta intervir. Rosa reaparece com "ar culpado".
Chega o Repórter. Seguindo a linha do oportunismo sensacionalista, o repórter quer tirar vantagens da história de Zé do Burro. Quer torná-lo um mártir, para virar notícia. Enquanto isso descobre-se que Rosa trai Zé do Burro com Bonitão. Marli faz um pequeno escândalo, denunciando a história Rosa-Bonitão. Depois disso às três da tarde, Dedé oferece poemas para Zé, a fim de
derrotar o Padre. Aparecem, em momentos subsequentes, o capoeirista Mestre Coca e o policial, o Secreta, chamado por Bonitão, ficando ambos, por enquanto, nas cercanias. Zé começa a perder a paciência e arma uma gritaria. O padre reage. Chega o Monsenhor, autoridade da igreja, propondo a Zé uma solução: ele, Monsenhor, na qualidade de representante da Igreja, pode liberar Zé da promessa, dando-a por cumprida. Zé não aceita, dizendo que promessa foi feita à Santa e só ela poderia liberá-lo. Segue o impasse. Zé explode novamente e avança com a cruz sobre a Igreja. O padre fecha a porta. Zé, já desesperado, bate com a cruz na porta. O drama é total.
Ao entardecer. Muita gente na praça e nos arredores da Igreja. Há uma roda de capoeira. O Galego, oportunista, oferece comida grátis a Zé, pois a história está trazendo movimento ao seu bar. O Secreta, no bar, avisa que a polícia prenderá Zé, ameaçando os capoeiristas, caso eles interfiram. Marli volta. Ofende Rosa, ofende Zé. O protagonista parece mudar de atitude. Resolve ir embora "à noite". Rosa quer ir embora “já”. Conta que Bonitão avisou a polícia. O repórter retorna, tentando montar um verdadeiro circo em torno do Zé, com o objetivo de vender o jornal. Chega Bonitão e convida Rosa para ir com ele. Zé pede a ela para ficar. Rosa hesita, a princípio, mas, em seguida, vai com Bonitão. Mestre Coca avisa Zé sobre a chegada da polícia. Zé está perplexo: "Santa Bárbara me abandonou". Da igreja saem o Sacristão, o Guarda, o Padre e o Delegado. Tensão da cena acentua-se. Zé ainda tenta, ingênua e inutilmente, explicar alguma coisa. Ao ser cercado, puxa uma faca. As autoridades reagem. Os capoeiristas também.
Em meio à briga e confusão, de repente, um tiro espalha gente para todos os lados. Zé é mortalmente ferido. Mestre Coca olha para os companheiros, que entendem a mensagem. Os capoeiristas tomam o corpo do
Zé, colocam-no sobre a cruz e, ignorando padre e polícia, entram na igreja, carregando a cruz.
A peça de Dias Gomes tem nítidos propósitos de evidenciar certas questões socioculturais da vida brasileira. Assim, ganha força no drama a visão crítica quanto:
a) à intolerância da Igreja Católica, personificada no autoritarismo do Padre Olavo, e na insensibilidade do Monsenhor convocado a resolver o problema;
b) à incapacidade das autoridades que representam o Estado - no episódio, a polícia - de lidar com questões multiculturais, transformando um caso de diferença cultural em um caso policial;
c) à imoralidade da imprensa, simbolizada no Repórter, um mau-caráter,
completamente alheio ao drama de Zé do Burro, mas muito interessado na repercussão que a história pode ter;
d) ao grande fosso que separa, ainda, o Brasil urbano do Brasil rural: Zé do Burro não consegue compreender por que lhe tentam impedir de cumprir sua promessa; os padres, a polícia, a imprensa não conseguem compreender quem é Zé do Burro, sua origem ingênua, com outros códigos culturais, outras posturas. Além disso, a peça mostra as variadas facetas populares: o gigolô esperto, a vendedora de quitutes, o poeta improvisador, os capoeiristas.
O final simbólico aponta em duas direções. Em primeiro lugar a morte do Zé do Burro mostra-se com fim inevitável para o choque cultural violento que se opera na peça: ninguém, entre as autoridades da cidade grande, é capaz de assimilar o sincretismo religioso tão característico de grandes camadas sociais no Brasil, especialmente no interior nordestino. Em segundo lugar, a entrada dos capoeiristas na igreja, carregando a cruz com o corpo, sinaliza para rechaçar a inutilidade daquela morte: os populares compreenderam o gesto de Zé do Burro.


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23 outubro 2011

Memórias de um Sargento de Milícias - Manuel Antônio de Almeida
























      Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida, é obra que se destaca do contexto literário romântico brasileiro. Publicado em folhetim de junho de 1852 até julho de 1853, depois em dois volumes, um em dezembro de 1854, outro em janeiro de 1855, esse romance sofre o silêncio da crítica. A primeira justificativa para tal atitude está no fato de sua narrativa não apresentar elementos que atendam ao gosto do público burguês da época, não só no tom, que é escrachado, irônico, mas também na história apresentada e no tipo de personagem que a interpreta.
     O desvio aos padrões românticos já se percebe pela origem do protagonista, filho de uma pisadela e de um beliscão – estranha forma de cortejo entre seu pai (Leonardo Pataca) e sua mãe (Maria Saloia) que garantiu a atribulada união do casal. Nasce daí Leonardinho, que já de bebê mostra-se um tormento, com sua capacidade de chorar uma oitava acima do normal. Na infância, a melhor definição para seu comportamento é “flagelo”, tal o terror que causa aos que o rodeiam.
    Uma importante mudança efetiva-se ainda na meninice. Seu pai flagrou Maria Saloia em flagrante de adultério, o que provoca a separação (espalhafatosa, por sinal) do casal e o abandono da criança nas mãos do padrinho, o Barbeiro.
     Na realidade, deve-se lembrar que Leonardo Pataca é figura pândega que por muito tempo sofrerá nas mãos do Amor. Pouco depois da separação, apaixona-se por uma cigana, que o abandonará. Na esperança de reconquistá-la, chega a participar de um ritual de magia negra, o que o faz ser humilhantemente preso pelo temido chefe da polícia do Rio de Janeiro da época, o Major Vidigal. Ainda assim, ao descobrir que o motivo do desprezo é a presença de um outro homem, um padre (Mestre de Cerimônias), apronta vingança extremamente maquiavélica: com a ajuda de um amigo, Chico-Juca (tremendo arruaceiro), consegue causar imensa confusão na festa de aniversário da cigana, provocando a prisão de vários presentes, inclusive do sacerdote, que estava, em roupa íntima, no quarto da cigana. Por esses elementos percebe-se o tom do romance, em que predomina a  movimentação constante, intensa. Parafraseando um importante crítico, Antônio Cândido, há a impressão de uma intensa sarabanda.
     Complicações também vão existir do lado de Leonardinho. Seu padrinho entrega-se todo ao menino, estragando-o com tanto mimo, tal qual o protagonista de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Seu projeto é transformá-lo em padre, mas o garoto é um completo desastre na escola. Nem mesmo sua atividade como coroinha é perfeita, pois, tão mais preocupado em brincar e aprontar do que em exercer sua função corretamente, acaba sendo expulso.
Assim, de fracasso em fracasso, Leonardo acaba-se tornando um exemplo perfeito da vadiagem. Até que surge uma interessante oportunidade: casar-se com a abastada Luisinha, sobrinha da rica D. Maria. Porém, Leonardo precisa vencer dois obstáculos para conquistar o coração de sua amada: o caráter desligado de Luisinha e a concorrência do esperto José Manuel. A Comadre, sempre protetora do afilhado, consegue eliminar o rival, atribuindo-lhe falsamente a responsabilidade do rapto de uma moça.
     No entanto, o romance passa a impressão de que as personagens das classes baixas não são donas de sua vida, como se estivessem nas mãos do acaso – o que as deixa numa posição extremamente injusta. Dessa forma, a vida de Leonardo sofre um desajuste extremo. Com a morte do Barbeiro, o rapaz volta a ficar sob a guarda do seu pai, num ambiente mergulhado de desentendimentos, o que provoca sua fuga – é o momento em que reencontra o amigo de traquinagens dos tempos de coroinha e, morando agora com este, conhece Vidinha, por quem se apaixona. O projeto de casamento é esquecido, o que é vantagem para José Manuel, que, com a ajuda do Mestre de Rezas, tem seu lugar garantido na casa de D. Maria e, consequentemente, alcança o casamento.
     Ainda assim, a dança da narrativa não para. A situação em que Leonardo está não é estável. Seu enlace amoroso com Vidinha irrita dois primos dela, que já a disputavam. Dessa forma, tramam contra o intruso invocando a autoridade legal: Leonardo quase é preso por crime de vadiagem. Sua sorte é conseguir fugir, num lance que deixa Vidigal extremamente irritado com a afronta. Só escapa da vingança do poderoso porque a Comadre arranja-lhe um emprego na Ucharia (espécie de almoxarifado) Real, o que o afasta do crime de vadiagem.
No entanto, num episódio muito engraçado, Leonardo é flagrado em situação inadequada (“tomando caldinho”) com a esposa de um funcionário da Ucharia, o Toma-Largura. Tal escândalo tem consequências complicadas. A primeira é a perda do emprego. A segunda é a explosão de ciúme de Vidinha que, ao saber do motivo da demissão, vai tomar satisfações na Ucharia. Leonardo segue-a, na tentativa de impedi-la de levantar mais escândalo, mas, antes que entre no antigo local de trabalho, acaba preso por Vidigal.
     O encarceramento provoca a aproximação entre Vidinha e Toma-Largura e a elevação de Leonardo a soldado (granadeiro). Ainda assim, nosso protagonista não se acerta, pois acaba detido quando é flagrado participando de uma brincadeira em que se ironizava o Major (Papai Lelê Seculorum) e novamente quando se descobre que ajudou na fuga de um procurado pela polícia, o Teotônio. Na realidade, essas faltas revelam uma fraqueza de caráter motivada mais pela bondade de Leonardo do que por uma suposta malignidade.
     Por infringir demais a ordem, o castigo de Leonardo pode incluir algo mais grave do que o encarceramento: chibata. A Comadre e D. Maria vão, então, interceder junto a Vidigal e, para tanto, utilizarão uma pessoa bastante influente: Maria Regalada, caso antigo do policial. Com a intervenção delas e principalmente com a promessa de que, em troca, finalmente iria morar com Maria Regalada, Vidigal não só liberta Leonardo, mas também o promove a sargento de milícias.
     A partir de então a narrativa assume estabilidade. Morre José Manuel, Luisinha fica viúva para pouco depois se casar com Leonardo, que, tendo dado baixa de seu cargo, pode garantir uma situação tranquila para sua esposa.
     O enredo acima é elemento suficiente para mostrar o caráter sui generis da obra. Não há aqui a visão idealizada da realidade, mas uma inversão escrachada desses padrões. No lugar de heróis perfeitos, há anti-heróis, como Leonardo, que é vadio, e Luisinha, que é destituída de beleza e força de caráter. Tais elementos fazem com que alguns considerem a obra uma antecipação do Realismo, o que constitui um exagero, pois falta aqui o cientificismo, além da visão pessimista da existência humana.
     Aliás, a classificação desse romance é um tanto problemática. Se ao menos enxergar nela uma antecipação do Realismo é inadequado, é também impróprio considerá-lo um romance de costumes, em especial os do Rio de Janeiro do início do século XIX. Seria argumento favorável a essa classificação o expediente comum de quase todos os capítulos iniciarem-se com a descrição de um costume, como a festa dos ciganos, a procissão dos ourives, o desfile das baianas. Outro argumento seria a pobreza de nomes, o que faria suas personagens tornaram-se tipos, ou seja, representantes das diferentes classes sociais fluminenses da época (o Barbeiro, o Mestre de Cerimônias, o Tenente-Coronel, o Mestre de Rezas). No entanto, há como derrubar tal tese lembrando que esse simples fato pode ser na realidade creditado à fidelidade ao comportamento das classes baixas. Outro contra-argumento é a ausência na obra de muitos costumes da época.
     Pode-se lembrar, também, que Memórias de um Sargento de Milícias seria um romance picaresco. É, porém, outra classificação problemática, pois esse termo refere-se a um tipo de narrativa espanhola que apresentava personagens dos baixos estratos sociais e que praticavam crimes para driblar as dificuldades, principalmente fome. Não se deve esquecer que Leonardo não é um autêntico pícaro, pois está fixo ao Rio de Janeiro, não passa por dificuldades, nem sequer é personagem carregada de malignidade. Aceita-se, no entanto, tal rótulo se se adaptar a ele a ideia de malandragem. Assim, Leonardo seria o representante do malandro carioca. Até essa identificação merece ressalva, pois suas características não se prendem ao Rio de Janeiro, podendo ser encontradas em várias partes do país. Aceitando-se tais restrições, percebe-se que a obra cumpre um postulado romântico ao exibir um tipo brasileiro, apesar de bem diferente do índio, do sertanejo ou do burguês dos outros romances contemporâneos.
     Na realidade, para compreender Memórias de um Sargento de Milícias, deve-se aceitar todos essas classificações com cuidado e buscar outro aspecto marcante: a capacidade de descrever formas de comportamento social que espantosamente ainda são comuns hoje. O primeiro deles está nas constantes relações de apadrinhamento. As leis são sempre rígidas, mas com uma relação subterrânea, com os contatos certos, muito se consegue. Basta lembrar como a Comadre arranja emprego para Leonardinho, a possibilidade de D. Maria também lhe arranjar um emprego de rábula em algum cartório e até a maneira como Leonardo Pataca sai da prisão graças ao Tenente-Coronel. O outro aspecto está na confusão fácil que se faz entre Ordem e Desordem. Basta lembrar em que condições o Mestre de Cerimônias foi preso (de roupa íntima), ou mesmo como Major Vidigal recebeu as três advogadas do protagonista – meio formal (farda), meio informal (camisolão e tamancos). Mas o principal exemplo disso seria Vidigal, representante da ordem, ceder a impulso carnais e (passando para a desordem) soltar Leonardinho, que, representante da desordem, é promovido a sargento de milícias (passando para a ordem).

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Resumo do livro Inocência - Visconde de Taunay


























1 - O REGIONALISMO DE VISCONDE DE TAUNAY
         Foi um dos primeiros prosadores brasileiros a emprestar a linguagem coloquial regional em suas obras.
         Taunay tinha um agudo senso de observação e análise, aliado a uma vivência riquíssima da paisagem e da História do Brasil.
         Foi um ator não denominado pelo sentimentalismo, que soube conjugar as características fundamentais da estética romântica com grande acuidade na construção de tipos e na descrição das paisagens brasileiras. Focalizou os usos e costumes do interior do pais, em narrativas pitorescas.
         É notável como o narrador nos apresenta o choque de duas concepções de mundo extremamente diversas. Pereira, homem do sertão, preso a padrões estritos de comportamento, mantém sua bela filha Inocência reclusa. 

2. EM INOCÊNCIA:

         1. Taunay conta com franqueza seu relacionamento com uma jovem que conheceu no Mato Grosso, a partir dai percebemos a origem mais íntima da personagem-título de lnocência, protótipo da mulher sertaneja imaginada pelo autor.
         2. Taunay foi um autor além da maioria dos romancistas, entre os quais se incluíam alguns que, embora também usassem temas sertanistas, não tinham realmente muita experiência do interior brasileiro. Taunay, ao contrário, escrevia sobre o que conhecera. Aliás o próprio Taunay se manifestou sobre isso, embora não diminuísse de modo algum a importância e o valor dos outros romancistas.
         3. Nesse romance, o rigor do observador militar que percorreu os sertões mistura-se à capacidade imaginativa do ficcionista. O resultado é um belo equilíbrio entre a ficção e a realidade, raramente alcançado na literatura brasileira até então.
         4. Elabora diálogos com a coloquialidade graciosa e natural do novo sertanejo "Nocência", "Por que se tocou assim no quarto", "é bom não se canhar assim", "sestiando", "Nhor-sim", "quer mecê", mas também utiliza a linguagem culta.
         5. Reforça-se uma das principais características do Romantismo europeu: a concepção de um único e idealizado amor, cuja impossibilidade de realização leva os protagonistas à morte. (Inocência, era fiel ao seu princípio amoroso, foi capaz de morrer de tristeza em face da ausência definitiva do amado.
         6. Faz um retrato acurado de usos e hábitos do sertão mato-grossense, que são identificados desde elementos do vocabulário até a indicação dos hábitos que o texto apresenta, na paisagem, nos tipos humanos e na linguagem.
         7. Deixa claro que considera "injuriosa" a opinião que os sertanejos têm sobre as mulheres.
         8. Deixa bem claro que Cirino não era um homem do sertão, o que nos faz perceber a diferença marcante entre o noivo e o homem por quem Inocência morre.
         9. No período da obra, o romantismo brasileiro entrava em declínio e o Realismo se aproximava, portanto, esta obra é de transição para o Naturalismo por causa de uma grande e infalível característica o homem é produto do meio ou seja, as pessoas agem de acordo com o tipo de vida que levam.
         10. Predomina a emoção sobre a razão, além da supervalorização do amor.

3. ANÁLISE PSICOLÓGICA DOS PERSONAGENS

· INOCÊNCIA
         Tem uma grande beleza e delicadeza de traços, nem parece moça do sertão. Isso vai ser fundamental no despertar da paixão entre ela e Cirino e também na compreensão da atitude que ela irá tomar posteriormente, afinal, de alguma forma, ela não era uma típica moça do sertão. Essas características são importantes para a compreensão do desenrolar da história.

· MANECÃO
         Homem rude, mas decente, trabalhador, sério e acumulou fortuna, era dotado também de uma certa macheza.

· PEREIRA
         Condensa em si desconfiança e ingenuidade, além de ser durão e conservador.

· TICO
         Anão que vivia na fazenda, mudo, mas que foi capaz de entregar lnocência ao pai. Ele a vigiava e detinha profundo respeito e admiração pela mesma.

· MEYER
         Um naturalista, que teve a sinceridade de elogiar Inocência, acabou por ser vigiado por Pereira, mas era muito dedicado a profissão que exercia, portanto viajava muito.

· PADRINHO
         Aparece no romance com a desculpa de ajudar, mas não chega a tempo de salvar Cirino, era a única pessoa que poderia ter feito algo para ajudar o casal de apaixonados.

5. RESUMO

         "Pensando por vezes e sempre com saudades daquela época, quer parecer-me que essa ingênua índia foi das mulheres a quem mais amei." Visconde de Taunay
O romance é ambientado na confluência dos Estados de Mato Grosso, Minas Gerais, Goiás e São Paulo. Órfã de mãe desde o nascimento, Inocência é criada pelo pai, Pereira, um mineiro afetuoso, um sujeito conservador, durão, para quem os valores da palavra, da honra estão acima de tudo, até da felicidade da filha que ele ama.
         Pereira decide casar Inocência com Manecão Doca, homem honrado, trabalhador, rude e que acumulou fortuna. A história é sobre Cirino, um prático de enfermagem que se apresentava como médico (curandeiro) que errava pelo sertão e acaba na casa de Pereira. 
         Ele cura Inocência, filha deste, de malária e apaixona-se. Cirino foi o primeiro homem a despertar realmente as emoções do amor, criando nela uma grande perturbação íntima, pois estava prometida a Manecão. Aparece depois Meyer, um naturalista alemão, que viajava em busca de insetos, que após inocentemente elogiar a beleza de Inocência, passa a ser vigiado incessantemente por Pereira, dando oportunidade a Cirino de comunicar-se mais facilmente com a moça.
         Meyer fica por lá por que trazia uma carta de recomendação de Francisco (Chico) irmão de Pereira e sai mais tarde de volta a Saxônia para apresentar uma nova espécie de rara beleza que encontrou, à qual dá o nome de Papilio lnnocentia (uma borboleta).  O anão Tico era uma espécie de cão de guarda de Inocência.
         Com a partida de Meyer, as coisas se complicam, aumentando o medo de Inocência, que teme uma reação violenta do pai caso venha a saber do romance. A jovem instrui Cirino a procurar seu padrinho para que ele convença Pereira a concordar com o rompimento do compromisso com Manecão.
         Inocência herdeira da teimosia do pai, não abre mão de seu amor, então comunica ao pai a intenção de não se casar, inventa que sonhou com a mãe e esta lhe disse que o casamento não deveria se realizar. A jovem quase consegue atingir seus objetivos, quando derruba sua história. Ela, não conheceu a mãe, portanto não sabia que ela tinha um sinal no rosto, então ela pede desculpas ao pai, que declara que prefere vê-la morta a vê-la desonrada.
         Na ausência de Cirino, porém, o romance é descoberto através de Tico.
         Enquanto Cirino está fora Inocência e Manecão, se encontram e ela se recusa a viver com ele. A suposta desonra leva Manecão a perseguir e matar Cirino, que morrendo encontra o padrinho de Inocência que vinha lhe ajudar. Inocência também morre, só que de tristeza em face da ausência definitiva do amado.


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Livros exigidos nos vestibulares






























UFSC 2012

 
Inocência
Visconde de Taunay
Memórias de um Sargento de Milícias  
Manuel Antônio de Almeida.
O Pagador de Promessas  
Dias Gomes
AMRIK
Ana Miranda
Jorge, um brasileiro  
Oswaldo França Júnior.  
Viagem & Vaga Música  
Cecília Meireles
A Cidade Ilhada  
Milton Hatoun
Treze Cascaes  
Adolfo Boss e Outros  


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ACAFE 2012


 Obras
 Autor
 Inocência
 Visconde de Taunay
 O Pagador de Promessas
 Dias Gomes
 A Cidade Ilhada
 Milton Hatoun
 Jorge, um brasileiro
 Oswaldo França Júnior
 AMRIK
 Ana Miranda



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 UDESC 2012

Memórias de um Sargento de Milícias
Manuel Antônio de Almeida
Ao som do realejo
Péricles Prade
Jorge, um brasileiro
Oswaldo França Júnior
Treze Cascaes
Adolfo Boss e Outros


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UFPR  (Universidade Federal do Paraná)  -  2012


 Anjo Negro
 Nelson Rodrigues
 Inocência
 Visconde de Taunay
 Felicidade clandestina
 Clarice Lispector
 José de Alencar
 Novas diretrizes em tempos de paz
 Bosco Brasil
 Adolfo Caminha
 Poemas escolhidos
 Gregório de Matos
 O Romanceiro da Inconfidência
 Cecília Meireles
 Graciliano Ramos
 Monteiro Lobato


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POESIA CONTEMPORÂNEA
























Adélia Prado

Adélia Luzia Prado Freitas nasceu em Divinópolis, Minas Gerais, no dia 13 de dezembro de 1935, Sua estréia individual acontece em 1976, com Bagagem, livro que chama a atenção da crítica pela originalidade e pelo estilo. Em 1978 escreve O Coração Disparado, com o qual conquista o Prêmio Jabuti de Literatura, conferido pela Câmara Brasileira do Livro, de São Paulo. Nos dois anos seguintes, dedica-se à prosa, com Solte os Cachorros (1979) e Cacos para um Vitral (1980). Volta à poesia em 1981, com Terra de Santa Cruz. Em seguida, publica Componentes da Banda (1984), O Pelicano (1987) e O Homem da Mão Seca (1994) . Seus dois últimos livros, lançados em 1999, são o romance Manuscrito de Felipa e o livro de poemas Oráculos de Maio.

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Com Licença Poética



Quando eu nasci, um anjo esbelto,

desses que tocam trombeta, anunciou:

_ Vai carregar bandeira!

Cargo muito pesado pra mulher,

esta espécie ainda envergonhada.

Aceito os subterfúgios que me cabem,

sem precisar mentir.

Não sou tão feia que não possa casar,

Acho o Rio de Janeiro uma beleza e,

ora sim, ora não,

Creio em parto sem dor.

Mas o que eu sinto, escrevo; cumpro a sina.

Inauguro linhagens, fundo reinos:

_ dor não é amargura.

Minha tristeza não tem pedigree;

já a minha vontade de alegria,

Sua raiz vai até o meu mil-avô...

Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.

Mulher é desdobrável. Eu sou.



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Ensinamento



Minha mãe achava estudo a coisa mais fina

do mundo. Não é. A coisa mais fina do

mundo é o sentimento. Aquele dia de noite,

o pai fazendo serão, ela falou comigo:

 "Coitado, até essa hora no serviço pesado".

Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo

com água quente. Não me falou em amor.

Essa palavra de luxo.




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POESIA CONTEMPORÂNEA



















Poesia marginal

Paulo Leminski

Paulo Leminski Filho, nascido em Curitiba, Paraná, em 1944 (34 de agosto, Virgo). Mestiço de polaca com negro, sempre viveu no Paraná (infância no interior de Santa Catarina).
Publicou: Catatau (prosa experimental;, em 1976, Curitiba, ed. do autor. Não Fosse Isso e Era Menos / Não Fosse Tanto e Era Quase e Polonaise (poemas,1980).
Faixa-preta e professor de judô, viveu em Curitiba com a poeta Alice Ruiz, com a qual teve duas filhas.
Morreu no dia 7 de junho de 1989.

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DISTÂNCIAS MÍNIMAS

um texto morcego
se guia por ecos
um texto texto cego
um eco anti anti anti antigo
um grito na parede rede rede
volta verde verde verde
com mim com com consigo
ouvir é ver se se se se se
ou se se me lhe te sigo?

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DESENCONTRÁRIOS

Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.
Mandei a frase sonhar,
e ela se foi num labirinto.
Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
Dar ordens a um exército,
para conquistar um império extinto.

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INCENSO FOSSE MÚSICA

Isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além


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DESARRANJOS FLORAIS

Abrindo um antigo caderno
foi que eu descobri
antigamente eu era eterno


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Eu

Quando olho nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro
ou está por fora
quem está por fora
não segura
um olhar que demora

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POLONAISES

Aqui
nesta pedra
alguém sentou
olhando o mar
o mar
não parou
pra ser olhado
foi mar
pra tudo quanto é lado

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Amor

Amor, então,
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.


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10 outubro 2011

FÁBULA MODERNA



O ratinho estava na toca, encurralado pelo gato, que, do lado de fora, miava:
- MIAU, MIAU, MIAU.
O tempo passava e ele ouvia:
- MIAU, MIAU, MIAU.
Depois de várias horas e já com muita fome o rato ouviu:
- AU! AU! AU!
Então deduziu: Se há cão lá fora, o gato foi embora.
Saiu disparado em busca de comida.
Nem
bem saiu da toca, o gato NHAC!
Inconformado, já na boca do gato perguntou:
- Maldição, gato! Que droga é esta?
E o gato respondeu:
- Meu filho, neste mundo globalizado de hoje, quem não fala pelo menos dois idiomas morre à fome!


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