Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de Janeiro, 2013

SE EU FOSSE UM PADRE

Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
— muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,

não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições...
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,

Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!

Porque a poesia purifica a alma
...e um belo poema — ainda que de Deus se aparte —
um belo poema sempre leva a Deus!

*********************************
                            (MÁRIO QUINTANA)

As Mãos Do Meu Pai

As tuas mãos tem grossas veias como cordas  azuis
sobre um fundo de manchas já cor de terra
— como são belas as tuas  mãos —
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram
na nobre cólera dos  justos…
Porque há nas tuas mãos, meu velho pai,
essa beleza que se  chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam
nos braços  da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas…
Virá  dessa chama que pouco a pouco, longamente,
vieste alimentando na terrível  solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los  contra o  vento?
Ah, Como os fizeste arder, fulgir,
com o milagre das tuas  mãos.
E é, ainda, a vida
que transfigura das tuas mãos  nodosas…
essa chama de vida — que transcende a própria vida… e que os  Anjos, um dia, chamarão de alma…
  **************************************************** (Mário Quintana)

AMAR

AMAR

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

   **************************************************** 
                                                                    (Carlos Dr…

EU SOU TREZENTOS

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
 As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
 Ôh espelhos, ôh Pireneus! Ôh caiçaras!
 Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!

 Abraço no meu leito as milhores palavras,
 E os suspiros que dou são violinos alheios;
 Eu piso a terra como quem descobre a furto
 Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios        beijos!

 Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
 Mas um dia afinal eu toparei comigo…
 Tenhamos paciência, andorinhas curtas,                                                 Só o esquecimento é que condensa,
 E então minha alma servirá de abrigo.
                                                 (Mário de Andrade)
    ***********************************************

Ensinamento

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.

A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:

“Coitado, até essa hora no serviço pesado”.

Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.

                 (ADÉLIA PRADO)
















 ***************************************************************************


















A HORA E A VEZ DE AUGUSTO MATRAGA

Matraga não é Matraga, não é nada. Matraga é Esteves. Augusto Esteves, filho do Coronel Afonsão Esteves, das Pindaíbas e do Saco-da-Embíra. Ou Nhô Augusto - o homem - nessa noitinha de novena, num leilão de atrás de igreja, no arraial da Virgem Nossa Senhora das Dores do Córrego do Murici.             Procissão entrou, reza acabou. E o leilão andou depressa e se extinguiu, sem graça, porque a gente direita foi saindo embora, quase toda de uma vez.             Mas o leiloeiro ficara na barraca, comendo amêndoas de cartucho e pigarreando de rouco, bloqueado por uma multidão encachaçada de fim de festa.             E, na primeira fila, apertadas contra o balcãozinho, bem iluminadas pelas candeias de meia-laranja, as duas mulheresà-toa estavam achando em tudo um espírito enorme, porque eram só duas e pois muito disputadas, todo-o-mundo com elas querendo ficar.             Beleza não tinham: Angélica era preta e mais ou menos capenga, e só a outra servia. Mas, perto, encostado nela outra…