29 janeiro 2013

EU SOU TREZENTOS





 Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
 As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
 Ôh espelhos, ôh Pireneus! Ôh caiçaras!
 Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!

 Abraço no meu leito as milhores palavras,
 E os suspiros que dou são violinos alheios;
 Eu piso a terra como quem descobre a furto
 Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios      
 beijos!

 Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
 Mas um dia afinal eu toparei comigo…
 Tenhamos paciência, andorinhas curtas,                                               
 Só o esquecimento é que condensa,
 E então minha alma servirá de abrigo.

                                                 (Mário de Andrade)

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