20 agosto 2017

O PUPILO QUE QUERIA SER MESTRE

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O primeiro ensinamento dado pelo Mestre nasceu de suas primeiras palavras, a voz rouca e pausada, assim que o Menino apareceu a sua frente, vindo pelo único caminho que levava até a montanha onde, segundo diziam, ele habitava há mais de cem anos.                                      
O Menino encontrou o Mestre sentado sobre uma pedra com as pernas entrelaçadas diante do corpo e lhe disse com muita resolução:
 ̶  Quero ser um mestre! Quero aprender com você tudo sobre todas as coisas!         ̶  Ah?! Então, o Menino quer ser meu Pupilo?  ̶  O Mestre falou sem olhar diretamente para ele, mas fixando os olhos um pouco acima de sua cabeça de cabelos castanhos e encaracolados, onde duas nuvens flutuavam na imensidão azul do céu.
̶  Pupilo? O que quer dizer pupilo?  ̶  O Menino pôs as mãos ao lado da cintura para enfatizar sua pergunta.
O Mestre lhe respondeu como se estivesse lendo em um dicionário que a palavra se referia a alguém que tinha uma relação de aprendizado constante com outra pessoa, um discípulo ou aluno.
̶  Isso mesmo! É isso que eu quero!  ̶  exclamou o Menino, cruzando os braços à frente do corpo e acenando com a cabeça para cima e para baixo.
O Mestre não riu, mas achou graça e principalmente talento, que na voz pensada do Mestre dizia a si mesmo: ele tem muito potencial!
̶  O que é preciso para eu ser um ... pu-pi-lo?  ̶  o Menino pronunciou pela primeira vez a palavra recém-aprendida em uma voz lenta e categórica.
̶  O primeiro teste você já venceu, em parte. A subida até aqui exige muito esforço e já põe à prova a vontade de quem busca o conhecimento. Na verdade, buscar o conhecimento é subir a montanha. Quanto maior o conhecimento, maior será a montanha, meu Pupilo!
O Menino se encheu de orgulho ao ouvir o Mestre chamá-lo usando também a palavra nova, o que indicava que ele fora aceito pelo Mestre.
O Mestre descruzou as pernas e se pôs de pé, abandonando a pedra em que estivera sentado até então, e olhou diretamente nos olhos do Menino; por um instante parecia que ambos estavam brincando do jogo do sério, aquela brincadeira em que duas pessoas se põem frente a frente, uma encarando a outra, e, se alguém piscar ou rir, perde a disputa. Mas, logo depois, o Mestre ergueu os braços até a altura dos ombros do Menino e lhe perguntou:
̶  Por que você deseja aprender tudo sobre todas as coisas?
O Menino, ao que indicava, já tinha uma resposta pronta a dar, pois respondeu ao Mestre sem demora:
̶  Quero aprender para poder entender como é possível um homem que possui muito dinheiro não conseguir ser feliz nem perceber que quanto mais ele trabalha e enriquece, menos feliz ele se torna. Quero poder entender por que uma mulher muito bonita, talvez a mulher mais linda do mundo, passa a vida inteira atrás de todo tipo de recursos que a façam mais bela, mas ela também não consegue ser feliz.
O Mestre considerou as razões do menino e julgou-as apropriadas. O Menino não buscava riquezas materiais nem vaidades, mas, sem saber, buscava o que todas as pessoas queriam no mundo inteiro: a Felicidade. A diferença entre ele e seus pais era que ele estava no caminho certo.
̶  Só o conhecimento pode levá-lo à felicidade! ̶  concluiu ele, satisfeito, ainda com as mãos sobre os ombros do Pupilo.
O Mestre voltou a sua pedra e indicou ao Menino uma outra pedra achatada e um pouco mais baixa que a sua. Pediu ao Pupilo que o imitasse na forma de sentar e disse-lhe que aquela era a posição de lótus, a maneira ideal para iniciar a busca pelo conhecimento.
Um bom tempo se passou sem que nenhum dos dois falasse. O Menino, então, quebrou o silêncio e questionou:
̶  Mestre, como eu posso aprender sem falar nada?
O Mestre, mantendo os olhos fechados, a respiração pausada, respondeu-lhe:
̶  Há coisas que se aprende ouvindo, outras vendo, outras cheirando, outras em contato com as mãos. Lembre-se de que o conhecimento é subir a montanha, e há vários recursos para se chegar ao cume, não é?!
̶  Acho que sim  ̶  disse ele, sem muita convicção.
O Mestre sorriu com bondade, dizendo-lhe:
̶  Para chegar até mim, você teve que se segurar em galhos de árvore, equilibrar-se sobre o tronco de um pinheiro que lhe serviu de ponte, houve trechos mais íngremes onde você teve que gatinhar e se firmar em pontas de pedra que lhe ajudaram a escalar a trilha.
Por um momento passou pela cabeça do Menino um pensamento quase impossível: Será que ele me viu subindo a montanha? Ele afastou essa ideia e relatou ao Mestre:
̶  Tive medo quando segurei em uma pedra para subir a trilha e ela se soltou. Eu escorreguei e quase caí de uma boa altura.
̶  Mas não caiu!  ̶  declarou o Mestre.
̶  Não caí porque uma outra pedra mais abaixo me serviu de apoio para o pé e eu consegui me equilibrar. ̶  informou o Menino com um certo alívio, revivendo aquele momento de perigo.
̶  A pedra, meu Pupilo, faz parte da montanha. Uma pedra o derrubou, outra o livrou da queda. Assim também há o conhecimento que derruba e o conhecimento que salva. ̶  O Mestre finalmente abriu os olhos e encarou o Menino a fim de analisar sua reação e avaliar até que ponto ele havia compreendido suas palavras.
O Menino olhava para a frente no mesmo ponto onde o Mestre tinha percebido as duas nuvens no céu, elas agora formavam uma única massa branca com contornos de relevo. Ele balançava levemente a cabeça para cima e para baixo, atestando que entendera muito bem as palavras do Mestre.
         Novamente, fez-se um longo tempo de silêncio, mais uma vez foi o Menino que o rompeu:
̶  Mestre, qual o seu nome?
̶  Mestre! Ele respondeu, sem vacilar.
̶  Meu nome é... ̶  o Menino começou, mas não pôde terminar a frase, pois o Mestre o interrompeu, completando:
̶  Pupilo, apenas Pupilo!
O Mestre percebeu uma ligeira decepção no Menino e lhe explicou que o nome de batismo não importava nem a quem buscava o conhecimento nem a quem conduzia até ele, assim como para um alpinista inexperiente não importa saber o nome do guia e muito menos que o guia o chame pelo nome ao lhe estender a mão para que alcance o topo da montanha.
̶  Você pode se chamar Antônio ou Petrônio, mas isso não revelará a ninguém a sua essência; será apenas um nome, Pupilo! ̶  O Mestre deixou transparecer uma certa tristeza no modo como falava e terminou dizendo ao Menino que havia, na maioria das relações em sociedade: entre professor e aluno, empregado e patrão, médico e paciente, comerciante e freguês, e mesmo entre vizinhos, tão somente a preocupação em saber o nome uns dos outros, sem nenhum interesse real em se conhecerem de verdade, sem jamais fazerem ideia da essência dessas pessoas cujos nomes estão gravados na memória deles.
̶  Mestre é bem melhor que Petrônio! ̶  O Menino exclamou com o humor inicialmente   revelado na voz, seguido de duas boas gargalhadas. Os lábios do Mestre não se moveram, mas seus olhos denunciavam que ele, de alguma forma, também achara aquele comentário engraçado.
Foi em meio a essa conversa que o Menino sentiu suas pernas dormentes e demonstrou um desconforto por estar sentado há tanto tempo com as pernas dobradas naquela posição que não parecia incomodar ao Mestre. Novamente, os olhos do Mestre esboçavam um ar de quem está achando algo divertido e sua voz calma e bondosa sentenciou:                                                              
 ̶  Esse é o sinal que indica o fim da aula de hoje. Resta-nos algumas horas do dia para nos acomodarmos e esperar pela chegada da noite.
Mesmo dizendo isso, o Mestre ainda permaneceu na posição de lótus, e ainda mais imóvel, como se fosse uma estátua de cera. Já o Menino fora orientado a explorar e observar o topo da montanha.
Ao cair da noite, o Mestre havia preparado uma rede artesanal feita de cipós, próximo às pedras de meditação, onde o Menino dormiu profundamente durante toda a noite. Ao acordar, avistou o Mestre sentado na posição de lótus, de costas para ele, na mesma pedra de meditação. O Mestre não olhou para trás, mas percebeu sua chegada e disse-lhe:
̶  Sente-se, Pupilo! Diga-me o que você viu ontem em sua incursão pela montanha.
O Menino parecia ter esquecido suas descobertas sobre a morada do Mestre até aquele momento. Entretanto uma onda de entusiasmo surgia à medida que ele se recordava de cada detalhe registrado no dia anterior. Lembrava, por exemplo, da pequena horta cultivada a cem passos dali, havia também um tanque redondo de 4 ou 5 metros de diâmetro com água cristalina que abrigava duas pequenas tartarugas e muitos peixes. Vira ainda duas galinhas carijós e uma rocha de onde um filete de água pura e refrescante brotava como de uma torneira. O menino terminou sua descrição informando ao Mestre que contara 1215 passos de norte a sul do topo da montanha, e 856 passos de leste a oeste da superfície em que se podia caminhar sem descer da montanha.
O Mestre elogiou seu Pupilo pela descrição rica em detalhes, e disse-lhe que o primeiro passo para se saber tudo sobre todas as coisas era saber tudo sobre as coisas que estavam a seu alcance e que o contrário estaria sempre condenado ao fracasso.
̶  Veja, meu Pupilo, ̶  disse ele  ̶  há pessoas que sonham conhecer outros países, outros continentes, mas não percebem que desconhecem sua própria cidade. Chamam-na cidade natal por ser o lugar onde nasceram, e mesmo assim não sabem praticamente nada sobre ela. Essas pessoas nunca conhecerão outros países nem outros continentes, por mais que possam ir a esses lugares, não poderão conhecê-los.
A partir daí, o Mestre continuou seus ensinamentos e o Menino mais e mais aprendia e se encantava com o conhecimento que lhe era transmitido.
Passaram-se semanas, meses e anos. Muitos anos. O Menino tornou-se homem, mas o Mestre continuou a chamá-lo de Pupilo. Já o Mestre continuava tão velho quanto no primeiro encontro dos dois, e o Homem continuou a chamá-lo de Mestre.
O Sol se punha quando o Mestre e o Pupilo ainda se encontravam sobre suas respectivas pedras de meditação. Havia horas que não falavam. O Mestre se pôs de pé ainda sobre a pedra, em uma postura ereta e serena anunciou ao Homem:
̶  Muitas lendas são tomadas como verdades por pessoas simplórias e muitas verdades são tomadas como lendas por pessoas instruídas.
̶  Mestre, a ambos os grupos de pessoas falta o equilíbrio: há lendas com raízes na verdade, e há verdades que brotam de lendas, mas uma será sempre lenda, outra será sempre verdade.
̶  Sim, ̶  concordou o Mestre, satisfeito com as sábias palavras de seu Pupilo. Houve um longo silêncio entre os dois, o vento soprou de leve o rosto do Mestre; ele, então, perguntou ao Homem:
̶  Como podemos reconhecer um sábio?
̶  Ele mora em uma montanha de difícil acesso.  ̶  brincou o Pupilo, mas na sequência falou com seriedade na voz, ̶  O sábio é uma pessoa feliz e sua felicidade vem do equilíbrio entre sua mente, espírito e corpo!
̶  Muito bem dito, Pupilo! Houve um homem, segundo uma lenda, que, em uma praia deserta, teve um encontro com uma criatura de poder ilimitado a qual carregava uma maldição: vivia presa no interior de um diamante e só teria sua liberdade no dia em que satisfizesse o desejo de alguém que o invocasse ao tocar a joia onde ela estava trancafiada há séculos. Pois esse homem tocou no diamante e de dentro dele ouviu a voz poderosa do espírito que ecoava como trovoada distante. A voz vinha de um pequeno rosto esfumaçado, do tamanho de uma ameixa, e explicava ao homem sua triste história de prisão através dos séculos. A criatura mágica que habitava o diamante pediu ao homem que fizesse um pedido, qualquer pedido, pois seu poder era ilimitado, mas advertiu ao homem que tivesse muito cuidado ao escolher as palavras com revelaria seu desejo, pois fazia parte da maldição realizar completamente o desejo anunciado. Ele ainda avisara ao homem que centenas de outros fizeram seus pedidos, mas nenhum deles ficou contente em ser atendido pelo poder do diamante e por isso o espírito ainda se encontrava preso no interior da joia. A maldição só seria quebrada quando aquele que o invocasse ficasse satisfeito com o desejo realizado. 
Chegara a hora de o homem fazer seu pedido. O diamante assim o exigia. O jovem já estava decidido há um bom tempo.  De fato, pouco ouvira da narrativa da criatura, pois perdia--se em seus raciocínios em relação ao conteúdo de seu pedido. O homem suspirou e pronunciou de uma só vez o seu desejo: queria que o espirito do diamante lhe concedesse o maior poder que a humanidade já conhecera. Queria estar cercado, por todos os lados, da maior riqueza já produzida pelo homem. Queria possuir toda a inteligência de todos os povos civilizados. Queria ser admirado por todas as pessoas do planeta.
     Por fim, convenceu a criatura mágica de que, embora tivesse utilizado quatro frases para expressar seu desejo, o que ele pedia era uma coisa só. Apenas tinha dito o mesmo de formas diferentes, justamente, para evitar que a realização de seu desejo fracassasse. O espírito, ainda mais triste, usou algumas palavras de passe mágico; “Assim o pediu, assim o fiz!”. Não houve explosões nem fumaça, mas, quando o homem terminou de falar, percebeu que o espírito lhe oferecia uma cadeira de madeira escura, que apareceu instantaneamente e pedia-lhe para que se sentasse ali mesmo, no meio do nada arenoso, à beira da praia deserta. A criatura, então, repetiu pela última vez, a frase mística: “Assim o pediu, assim o fiz!”. Logo, o homem notou que o vento parara de soprar, já não ouvia também o marulho das ondas nem sentia o cheiro característico da praia. Na verdade, já sentia outro cheiro, bem menos agradável, o ar cheirava a mofo!
O homem abriu os olhos num suspense torturante. Não estava mais sentado à beira da praia. Tal qual a cadeira oferecida pelo ser mágico do diamante, agora havia dezenas de outras, agrupadas de quatro em quatro, à volta de pequenas mesas. Estava no interior de uma construção semelhante a um palácio, cujas paredes se revestiam de enormes prateleiras, todas repletas de livros, livros aos milhares. O homem estava em uma biblioteca! Sobre a mesa onde a criatura o transportara, em uma das páginas de um enorme livro aberto, lia-se: “Assim o pediu, assim o fiz!”. Quanto ao espírito do diamante... Ele continua cumprindo sua maldição, trancado no interior da joia através dos séculos!
O Pupilo sorriu agradavelmente ao final da narrativa do Mestre, perguntando-lhe em seguida:
  ̶  O que houve com o homem da biblioteca?
Antes de responder, o Mestre desceu da pedra de onde ainda se mantinha de pé, ficou então frente a frente com seu Pupilo e disse-lhe com naturalidade:
̶  O homem da biblioteca leu todos os livros que havia lá, e isso fazia parte do feitiço do diamante. Quanto tempo levou nessa tarefa, ninguém sabe, mas conta a lenda que depois de ler o último livro do acervo das prateleiras e estantes, ele deixou a biblioteca e subiu uma montanha. Os moradores das redondezas passaram a chamá-lo de Mestre.
̶  Há lendas com raízes na verdade, ̶  o Pupilo relembrou a frase ao Mestre, mas mesmo assim afastou uma ideia improvável que lhe passou pela mente.
O Mestre lhe devolveu o resto da mesma frase, repetindo:
̶  Há verdades que brotam de lendas.
Ambos sorriam, e talvez por tanto tempo de convívio, sorriam da mesma forma, um sorriso sincronizado.
O Mestre abraçou seu Pupilo que, sentado sobre a pedra de meditação, ficava na mesma altura dele. O Pupilo sabia que era um abraço de despedida. O mestre lhe disse com tranquilidade:
̶  Há muito tempo um garoto subiu a montanha desejando ser mestre, hoje ele alcançou seu objetivo. Devo descer a trilha, mas um mestre ficará na montanha. Para que você saiba tudo sobre todas as coisas, resta ainda saber meu nome. Chamavam-me desde o meu nascimento de... Petrônio!
O Novo Mestre da montanha só não caiu na gargalhada porque não ficaria bem a um mestre esse tipo de reação. Mas seu sorriso se alargou bem mais do que o normal. Ele achou que deveria também dizer seu nome:
̶  Meu nome é...
O Mestre do novo Mestre interrompeu-o e completou ele mesmo:
̶  Antônio, seu nome é Antônio!
̶  Meu nome é Antônio. ̶  O novo Mestre repetiu sozinho, achando graça na descoberta de que o Mestre sempre soubera seu nome, afinal o Mestre sabia tudo sobre todas as coisas!  Enquanto isso o Mestre descia a montanha e ambos sabiam que nunca mais se encontrariam.
Hoje, quem passar pela montanha avistará um homem sentado de pernas entrelaçadas sobre uma pedra e a seu lado outra pedra vazia aguarda a chegada de um novo Pupilo.
Se você, Leitor, subir essa montanha, poderá sentar-se ao lado do Mestre!


                                                                                 (PROFESSOR MAURÍCIO PALMEIRA)

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