24 fevereiro 2011

ESTRUTURA DAS PALAVRAS























As palavras são subdivididas em partes menores, chamadas de elementos mórficos.

Exemplo: gatinho – gat + inho
Infelizmente – in + feliz + mente

ELEMENTOS MÓRFICOS

Os elementos mórficos são:

Radical;
Vogal temática;
Tema;
Desinência;
Afixo;
Vogais e consoantes de ligação.

RADICAL

O significado básico da palavra está contido nesse elemento; a ele são acrescentados outros elementos.

Exemplo: pedra, pedreiro, pedrinha.

VOGAL TEMÁTICA

Tem como função preparar o radical para ser acrescido pelas desinências e também indicar a conjugação a que o verbo pertence.

Exemplo: cantar, vender, partir.

OBSERVAÇÃO:

Nem todas as formas verbais possuem a vogal temática.

Exemplo: parto (radical + desinência)

TEMA

É o radical com a presença da vogal temática.

Exemplo: choro, canta.

DESINÊNCIAS

São elementos que indicam as flexões que os nomes e os verbos podem apresentar. São subdivididas em:

DESINÊNCIAS NOMINAIS;
DESINÊNCIAS VERBAIS.

DESINÊNCIAS NOMINAIS – indicam o gênero e número. As desinências de gênero são a e o; as desinências de número são o s para o plural e o singular não tem desinência própria.

Exemplo: gat o
         Radical desinência nominal de gênero

      Gat o s
Radical d.n.g / d.n.n

d.n.g » desinência nominal de gênero
d.n.n » desinência nominal de número

DESINÊNCIAS VERBAIS – indicam o modo, número, pessoa e tempo dos verbos.
Exemplo: cant á va mos
      Radical  v.t  d.m.t / d.n.p

v.t » vogal temática
d.m.t » desinência modo-temporal
d.n.p » desinência número-pessoal

AFIXOS

São elementos que se juntam aos radicais para formação de novas palavras. Os afixos podem ser:

PREFIXOS – quando colocado antes do radical;
SUFIXOS – quando colocado depois do radical

Exemplo:

Pedrada.
Inviável.
Infelizmente

VOGAIS E CONSOANTES DE LIGAÇÃO

São elementos que são inseridos entre os morfemas (elementos mórficos), em geral, por motivos de eufonia, ou seja, para facilitar a pronúncia de certas palavras.

Exemplo: cafeicultura, gasômetro, paulada, furadeira.

SUJEITO



SUJEITO - Termo da oração a respeito do qual se diz algo. Seu núcleo (palavra mais importante) pode ser um substantivo, pronome ou palavra substantivada.

Ex.: Os pais da jovem relutaram ao ver seu namorado.
Sujeito  -  Os pai da jovem 
Núcleo do sujeito: pais (substantivo)


Tipos de sujeito

Simples
Composto
Oculto (elíptico ou desinencial)
Indeterminado
oração sem sujeito (inexistente)

Sujeito Simples

Aquele que possui apenas um núcleo.

Ex.: " A dúvida é o principio da sabedoria." 
Núcleo: dúvida

Sujeito Composto

Aquele que possui mais de um núcleo.

Ex.: O amor e a Lua, quando não crescem, minguam.
Núcleos: amor, Lua


Sujeito oculto, (elíptico ou desinencial)

Aquele que não vem expresso na oração, mas pode ser facilmente identificado pela desinência do verbo.

Ex.: "Só sei que nada sei"

Apesar de o sujeito não estar expresso, pode ser identificado nas duas orações: (eu).

Sujeito indeterminado

Aquele que não se quer ou não se pode identificar.

Ex.: Às vezes, vive-se melhor em situações piores.
       Saberão um dia sobre a verdade absoluta?
 
Portanto::

O sujeito pode ser indeterminado em duas situações:

- verbo na terceira pessoa do plural sem sujeito expresso.

Ex:  Saberão um dia sobre a verdade absoluta?

- Verbo na terceira pessoa do singular acompanhado do pronome SE (índice de indeterminação do sujeito).

Ex:  Às vezes, vive-se melhor em situações piores.

Oração sem sujeito (sujeito inexistente) 

A informação contida no predicado não se refere a sujeito algum.
Ocorre oração sem sujeito quando temos um verbo impessoal. O verbo é impessoal quando:

Indicar fenômenos da natureza (chover, nevar, amanhecer, etc.).
Ex.: Anoiteceu muito cedo.
Choveu muito em Joinville este mês.

Fazer, ser, estar indicarem tempo cronológico.
Ex.: Faz meses que ele não aparece.
Já é uma hora da tarde.
Está quente em São Paulo.

Haver indicar sentido de existir.
Ex.: Havia mulheres na sala.

Atenção:
Os verbos impessoais sempre ficarão na 3ª pessoa do singular (havia, faz...).

CRÔNICA

Outro você - Luís Fernando Veríssimo

     E dizem que rola um texto na internet com minha assinatura baixando o pau no “Big Brother Brasil”.

     Não fui eu que escrevi.

    Não poderia escrever nada sobre o “Big Brother Brasil”, a favor ou contra, porque sou um dos três ou quatro brasileiros que nunca o acompanharam. 

    O pouco que vi do programa, de passagem, zapeando entre canais, só me deixou perplexo: o que, afinal, atraía tanto as pessoas — além do voyeurismo natural da espécie — numa jaula de gente em exibição? 

   Falha minha, sem dúvida. Se prestasse mais atenção talvez descobrisse o valor sociológico que, como já ouvi dizerem, redime o programa e explica seu fascínio. Pode ser. Os “Big Brothers” e similares fazem sucesso no mundo todo. Provavelmente eu e os outros três ou quatro resistentes apenas não pegamos o espírito da coisa.  

   Também me dizem que, além de textos meus que nunca escrevi (como textos igualmente apócrifos do Jabor, da Martha Medeiros e até do Jorge Luís Borges), agora frequento a internet com um Twitter.  

    Aviso: não tenho tuiter, não recebo tuiter, não sei o que é tuiter. 

   E desautorizo qualquer frase de tuiter atribuída a mim a não ser que ela seja absolutamente genial. 

    Brincadeira, mas já fui obrigado a aceitar a autoria de mais de um texto apócrifo (e agradecer o elogio) para não causar desgosto, ou até revolta. Como a daquela senhora que reagiu com indignação quando eu inventei de dizer que um texto que ela lera não era meu:

     — É sim. 

    — Não, eu acho que...

    — É sim senhor! 

     Concordei que era, para não apanhar. O curioso, e o assustador, é que, em textos de outros com sua assinatura e em tuiters falsos, você passa a ter uma vida paralela dentro das fronteiras infinitas da internet. 

   É outro você, um fantasma eletrônico com opiniões próprias, muitas vezes antagônicas, sobre o qual você não tem nenhum controle, 

     — Olha, adorei o que você escreveu sobre o “Big Brother”. É isso aí!

    — Não fui eu que... 

    — Foi sim!

************************************************

CRÔNICA ATRIBUÍDA A LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO



      Que me perdoem os ávidos telespectadores do Big Brother Brasil (BBB), produzido e organizado pela nossa distinta Rede Globo, mas conseguimos chegar ao fundo do poço. A décima (está indo longe) edição do BBB é uma síntese do que há de pior na TV brasileira. Chega a ser difícil encontrar as palavras adequadas para qualificar tamanho atentado à nossa modesta inteligência. Dizem que Roma, um dos maiores impérios que o mundo conheceu, teve seu fim marcado pela depravação dos valores morais do seu povo, principalmente pela banalização do sexo. O BBB 10 é a pura e suprema banalização do sexo. Impossível assistir ver este programa ao lado dos filhos. Gays, lésbicas, heteros… todos na mesma casa, a casa dos “heróis”, como são chamados por Pedro Bial. Não tenho nada contra gays, acho que cada um faz da vida o que quer, mas sou contra safadeza ao vivo na TV, seja entre homossexuais ou heterosexuais. O BBB 10 é a realidade em busca do IBOPE. Veja como Pedro Bial tratou os participantes do BBB 10. Ele prometeu um “zoológico humano divertido” . Não sei se será divertido, mas parece bem variado na sua mistura de clichês e figuras típicas.
     Se entendi corretamente as apresentações, são 15 os “animais” do “zoológico”: o judeu tarado, o gay afeminado, a dentista gostosa, o negro com suingue, a nerd tímida, a gostosa com bundão, a “não sou piranha mas não sou santa”, o modelo Mr. Maringá, a lésbica convicta, a DJ intelectual, o carioca marrento, o maquiador drag-queen e a PM que gosta de apanhar (essa é para acabar!!!). Pergunto-me, por exemplo, como um jornalista, documentarista e escritor como Pedro Bial que, faça-se justiça, cobriu a Queda do Muro de Berlim, se submete a ser apresentador de um programa desse nível. Em um e-mail que recebi há pouco tempo, Bial escreve maravilhosamente bem sobre a perda do humorista Bussunda referindo-se à pena de se morrer tão cedo. Eu gostaria de perguntar se ele não pensa que esse programa é a morte da cultura, de valores e princípios, da moral, da ética e da dignidade.
       Outro dia, durante o intervalo de uma programação da Globo, um outro repórter acéfalo do BBB disse que, para ganhar o prêmio de um milhão e meio de reais, um Big Brother tem um caminho árduo pela frente, chamando-os de heróis. Caminho árduo? Heróis? São esses nossos exemplos de heróis?
      Caminho árduo para mim é aquele percorrido por milhões de brasileiros, profissionais da saúde, professores da rede pública (aliás, todos os professores), carteiros, lixeiros e tantos outros trabalhadores incansáveis que, diariamente, passam horas exercendo suas funções com dedicação, competência e amor e quase sempre são mal remunerados.. Heróis são milhares de brasileiros que sequer tem um prato de comida por dia e um colchão decente para dormir, e conseguem sobreviver a isso todo santo dia.
      Heróis são crianças e adultos que lutam contra doenças complicadíssimas porque não tiveram chance de ter uma vida mais saudável e digna.
Heróis são inúmeras pessoas, entidades sociais e beneficentes, ONGs, voluntários, igrejas e hospitais que se dedicam ao cuidado de carentes, doentes e necessitados (vamos lembrar de nossa eterna heroína Zilda Arns).
       Heróis são aqueles que, apesar de ganharem um salário mínimo, pagam suas contas, restando apenas dezesseis reais para alimentação, como mostrado em outra reportagem apresentada meses atrás pela própria Rede Globo.
    O Big Brother Brasil não é um programa cultural, nem educativo, não acrescenta informações e conhecimentos intelectuais aos telespectadores, nem aos participantes, e não há qualquer outro estímulo como, por exemplo, o incentivo ao esporte, à música, à criatividade ou ao ensino de conceitos como valor, ética, trabalho e moral. São apenas pessoas que se prestam a comer, beber, tomar sol, fofocar, dormir e agir estupidamente para que, ao final do programa, o “escolhido” receba um milhão e meio de reais. E ai vem algum psicólogo de vanguarda e me diz que o BBB ajuda a “entender o comportamento humano”. Ah, tenha dó!!!
         Veja o que está por de tra$$$$$$$$$$$$$$$$ do BBB: José Neumani da Rádio Jovem Pan, fez um cálculo de que se vinte e nove milhões de pessoas ligarem a cada paredão, com o custo da ligação a trinta centavos, a Rede Globo e a Telefônica arrecadam oito milhões e setecentos mil reais. Eu vou repetir: oito milhões e setecentos mil reais a cada paredão. Já imaginaram quanto poderia ser feito com essa quantia se fosse dedicada a programas de inclusão social, moradia, alimentação, ensino e saúde de muitos brasileiros? (Poderia ser feito mais de 520 casas populares; ou comprar mais de 5.000 computadores )
      Essas palavras não são de revolta ou protesto, mas de vergonha e indignação, por ver tamanha aberração ter milhões de telespectadores. Em vez de assistir ao BBB, que tal ler um livro, um poema de Mário Quintana ou de Neruda ou qualquer outra coisa…, ir ao cinema…, estudar… , ouvir boa música…, cuidar das flores e jardins… , telefonar para um amigo… , visitar os avós… , pescar…, brincar com as crianças… , namorar… ou simplesmente dormir. Assistir ao BBB é ajudar a Globo a ganhar rios de dinheiro e destruir o que ainda resta dos valores sobre os quais foi construído nossa sociedade.

17 fevereiro 2011

A IMPORTÂNCIA DA PONTUAÇÃO





O Mistério da Herança

     Um homem rico estava muito mal, agonizando. Dono de uma grande fortuna, não teve tempo de fazer o seu testamento. Lembrou, nos momentos finais, que precisava fazer isso. Pediu, então, papel e caneta. Só que, com a ansiedade em que estava para deixar tudo resolvido, acabou complicando ainda mais a situação, pois deixou um testamento sem nenhuma pontuação. Escreveu assim:
"Deixo meus bens a minha irmã não a meu sobrinho jamais será paga a conta do padeiro nada dou aos pobres."

Morreu, antes de fazer a pontuação.

O sobrinho, interessado na herança, fez a seguinte pontuação:

"Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho. Jamais será paga a conta do padeiro. Nada dou aos pobres."
 
A irmã, também de olho na herança, chegou em seguida. Pontuou assim o escrito :

"Deixo meus bens à minha irmã. Não a meu sobrinho. Jamais será paga a conta do padeiro. Nada dou aos pobres."
 
O padeiro, percebendo a oportunidade, aplicou a seguinte pontuação:

"Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho? Jamais! Será paga a conta do padeiro. Nada dou aos pobres."

Finalmente, chegaram os pobres da cidade. Esfaimados, fizeram a única pontuação possível:

"Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho? Jamais ! Será paga a conta do padeiro? Nada! Dou aos pobres."

A quem coube a herança é um mistério que perdura até hoje! 

************************************************************************

FÁBULA



























Fábulas Fabulosas

Tanto duvidaram dele, da teoria daquele jovem gênio musical, que ele resolveu provar pra si mesmo, empiricamente, a teoria de que não existem animais selvagens. Que os animais são tão ou mais sensíveis do que os seres humanos. E que são sensíveis sobretudo ao envolvimento da música, quando esta é competentemente interpretada. Por isso, uma noite, esgueirou-se sozinho pra dentro do Jardim Zoológico da cidade e, silenciosamente, se aproximou da jaula dos orangotangos. Começou a tocar baixinho, bem suave, a sua magnífica flauta doce, ao mesmo tempo em que abria a porta da jaula. Os macacões quase que não pestanejaram. Se moveram devagarinho, fascinados, apenas pra se aproximar mais do músico e do som. O músico continuou as volutas de sua fantasia musical enquanto abria a jaula dos leões. Os leões, também hipnotizados, foram saindo, pé ante pé, com respeito que só têm os grandes aficionados da música. E assim a flauta continuou soando no meio da noite, mágica e sedutora, enquanto o gênio ia abrindo jaula após jaula e os animais o acompanhavam, definitivamente seduzidos, como ele previra. Uma lua enorme, de prata e ouro, iluminava os jacarés, elefantes, cobras, onças, tudo quanto é animal de Deus ali reunido, envolvidos na sinfonia improvisada no meio das árvores.
Até que o músico, sempre tocando, abriu a última jaula do último animal – um tigre. Que, mal viu a porta aberta, saltou sobre ele, engolindo músico e música – e flauta doce de quebra. Os bichos todos deram um oh! De consternação. A onça, chocada, exprimiu o espanto e a revolta de todos:
– Mas, tigre, era um músico estupendo, uma música sublime! Por que fez isso?
E o tigre, colocando as patas em concha nas orelhas, perguntou:
–  Ahn? O quê, o quê? Fala mais alto, pô!

Moral: os animais também têm deficiências humanas.

(FERNANDES, Millôr. 100 fábulas fabulosas. Rio de Janeiro: Record, 2003. p. 127-1)



****************************************************************************************************


CRÔNICA






















   




A tribo que mais cresce entre nós

A nova tribo dos micreiros cresceu tanto que talvez já não seja apenas mais uma tribo, mas uma nação, embora a linguagem fechada e o fanatismo com que se dedicam ao seu objeto de culto sejam quase de uma seita. São adoradores que têm com o computador uma relação semelhante à do homem
primitivo com o totem e o fogo. Passam horas sentados, com o olhar fixo num espaço luminoso de algumas polegadas, trocando não só o dia pela noite, como o mundo pela realidade virtual.
Sua linguagem lembra a dos funkeiros em quantidade de importações vocabulares adulteradas, porém é mais ágil e rica, talvez a mais rápida das tribos urbanas modernas. Dança quem não souber o que é BBS, modem, interface, configuração, acessar e assim por diante. Alguns termos são neologismos e, outros, recriações semânticas de velhos significados, como
janela, sistema, ícone, maximizar.
No começo da informatização das redações de jornal, houve um divertido mal-entendido quando uma jovem repórter disse pela primeira vez: “Eu abortei!”. Ela acabava de rejeitar não um filho, mas uma matéria. Hoje, ninguém mais associa essa palavra ao ato pecaminoso. Aborta-se tão impune e frequentemente quanto se acessa.
Nada mais tem forma e sim “formatação”. Foi-se o tempo em que “fazer um programa” era uma aventura amorosa. O “vírus” que apavora os micreiros não é o HIV, mas uma intromissão indevida no “sistema”, outra palavra cujo sentido atual nada tem a ver com os significados anteriores. A geração de 68 lutou para derrubar o sistema; hoje o sistema cai a toda hora.
Alguns velhos homens de letras olham com preconceito essa tribo, como se ela fosse composta apenas de jovens, e ainda por cima iletrados. É um engano, porque há entre os micreiros respeitáveis senhoras e brilhantes intelectuais. Falar mal do computador é tão inútil e reacionário quanto foi quebrar máquinas no começo da primeira Revolução Industrial. Ele veio para ficar, como se diz, e seu sucesso é avassalador. Basta ver o entusiasmo das adesões.

                                             (Zuenir Ventura, Crônicas de um fim de século)

14 fevereiro 2011

PECADOS DA LÍNGUA


 O adjetivo “final” evoca a despedida no fim do expediente às sextas: “Bom final de semana!”. Melhor seria desejar “bom fim semana”. “Final” é originalmente adjetivo e acompanha substantivo. É algo que pertence à última parte, equivalente ao fim em várias situações. Na conclusão de um evento: “o caso teve final doloroso”. No desenrolar de uma obra: “o final da peça foi trágico”. E na última disputa em competições: “o jogo final foi empolgante”.
Segundo o dicionário Aurélio, a locução “fim de semana” é “o tempo decorrido, em geral, entre a noite de sexta-feira e a manhã de segunda, aproveitado para o descanso e o lazer”. Corresponde ao inglês weekend. Essa forma também é a recomendada por manuais de redação.
Alguns sábios lembrarão que o povo faz a língua e que o costume atropela normas e racionalidades estreitas. De modo que, se continuarem insistindo em dizer “bom final de semana”, como fazem, por exemplo, muitos âncoras de noticiosos, a expressão se firmará e, no fim, ninguém sofrerá por isso.

11 fevereiro 2011

CRÔNICA





A Regreção da Redassão

Semana passada recebi um telefonema de uma senhora que me deixou surpreso. Pedia encarecidamente que ensinasse seu filho a escrever.
─ Mas, minha senhora ─ desculpei-me ─, eu não sou professor.
─ Eu sei. Por isso mesmo. Os professores não têm conseguido muito.
─ A culpa não é deles. A falha é do ensino.
─ Pode ser, mas gostaria que o senhor ensinasse o menino. O senhor escreve muito bem.
─ Obrigado ─ agradeci ─, mas não acredite muito nisso. Não coloco vírgulas e nunca sei onde botar os acentos. A senhora precisa ver o trabalho que dou ao revisor.
─ Não faz mal ─ insistiu ─, o senhor vem e traz um revisor.
─ Não dá, minha senhora ─ tornei a me desculpar ─, eu não tenho o menor jeito com crianças.
─ E quem falou em crianças? Meu filho tem 17 anos.
Comentei o fato com um professor, meu amigo, que me respondeu: "Você não deve se assustar, o estudante brasileiro não sabe escrever". No dia seguinte, ouvi de outro educador: "O estudante brasileiro não sabe escrever". Depois li no jornal as declarações de um diretor da faculdade: "O estudante brasileiro escreve muito mal". Impressionado, saí à procura de outros educadores. Todos me disseram: acredite, o estudante brasileiro não sabe escrever. Passei a observar e notei que já não se escreve mais como antigamente.    
 Ninguém mais faz diário, ninguém escreve em portas de banheiros, em muros, em paredes. Não tenho visto nem aquelas inscrições, geralmente acompanhadas de um coração, feitas em casca de árvore. Bem, é verdade que não tenho visto nem árvore.
─ Quer dizer - disse a um amigo enquanto íamos pela rua ─ que o estudante brasileiro não sabe escrever? Isto é ótimo para mim. Pelo menos diminui a concorrência e me garante emprego por mais dez anos.
─ Engano seu ─ disse ele. ─ A continuar assim, dentro de cinco anos você terá que mudar de profissão.
─ Por quê? ─ espantei-me. ─ Quanto menos gente sabendo escrever, mais chance eu tenho de sobreviver.
─ E você sabe por que essa geração não sabe escrever?
─ Sei lá ─ dei com os ombros ─, vai ver que é porque não pega direito no lápis.
            ─ Não senhor. Não sabe escrever porque está perdendo o hábito da leitura. E quando o perder completamente, você vai escrever para quem?Taí um dado novo que eu não havia considerado.   
           Imediatamente pensei quais as utilidades que teria um jornal no futuro: embrulhar carne? Então vou trabalhar num açougue. Serviria para fazer barquinhos, para fazer fogueira nas arquibancadas do Maracanã, para forrar sapato furado ou para quebrar um galho em banheiro de estrada? Imaginei-me com uns textos na mão, correndo pelas ruas para oferecer às pessoas, assim como quem oferece hoje bilhete de loteria:
─ Por favor, amigo, leia ─ disse, puxando um cidadão pelo paletó.
─ Não, obrigado. Não estou interessado. Nos últimos cinco anos a única coisa que leio é a bula de remédio.
─ E a senhorita não quer ler? ─ perguntei, acompanhando os passos de uma universitária.─ A senhorita vai gostar. É um texto muito curioso.
─ O senhor só tem escrito? Então não quero. Por que o senhor não grava o texto? Fica mais fácil ouvi-lo no meu gravador.
─ E o senhor, não está interessado nuns textos?
─ É sobre o quê? Ensina como ganhar dinheiro?
─ E o senhor, vai? Leva três e paga um.
─ Deixa eu ver o tamanho ─ pediu ele.
Assustou-se com o tamanho do texto:
─ O quê? Tudo isso? O senhor está pensando que sou vagabundo? Que tenho tempo para ler tudo isso? Não dá para resumir tudo em cinco linhas?

                                                                                                                     (Carlos Eduardo Novaes)

CARTA

 


Apelo

Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa de esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho.
Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão ninguém os guardou debaixo da escada. Toda a casa era um corredor deserto, e até o canário ficou mudo. Para não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam e eu ficava só, sem o perdão de sua presença e todas as aflições do dia, como a última luz na varanda.
E comecei a sentir falta das pequenas brigas por causa do tempero na salada – o meu jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? As suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa, calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolhas? Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora, por favor.
                                                                             
(Dalton Trevisan)

*******************************************************

Dalton trevisan é um dos melhores contistas brasileiros contemporâneos, seus textos reproduzem um cotidiano angustioso numa linguagem direta e popular. Dalton Trevisan nasceu em Curitiba PR, em 14 de junho de 1925. Formado pela Faculdade de Direito do Paraná.


*******************************************************