17 fevereiro 2011

CRÔNICA






















   




A tribo que mais cresce entre nós

A nova tribo dos micreiros cresceu tanto que talvez já não seja apenas mais uma tribo, mas uma nação, embora a linguagem fechada e o fanatismo com que se dedicam ao seu objeto de culto sejam quase de uma seita. São adoradores que têm com o computador uma relação semelhante à do homem
primitivo com o totem e o fogo. Passam horas sentados, com o olhar fixo num espaço luminoso de algumas polegadas, trocando não só o dia pela noite, como o mundo pela realidade virtual.
Sua linguagem lembra a dos funkeiros em quantidade de importações vocabulares adulteradas, porém é mais ágil e rica, talvez a mais rápida das tribos urbanas modernas. Dança quem não souber o que é BBS, modem, interface, configuração, acessar e assim por diante. Alguns termos são neologismos e, outros, recriações semânticas de velhos significados, como
janela, sistema, ícone, maximizar.
No começo da informatização das redações de jornal, houve um divertido mal-entendido quando uma jovem repórter disse pela primeira vez: “Eu abortei!”. Ela acabava de rejeitar não um filho, mas uma matéria. Hoje, ninguém mais associa essa palavra ao ato pecaminoso. Aborta-se tão impune e frequentemente quanto se acessa.
Nada mais tem forma e sim “formatação”. Foi-se o tempo em que “fazer um programa” era uma aventura amorosa. O “vírus” que apavora os micreiros não é o HIV, mas uma intromissão indevida no “sistema”, outra palavra cujo sentido atual nada tem a ver com os significados anteriores. A geração de 68 lutou para derrubar o sistema; hoje o sistema cai a toda hora.
Alguns velhos homens de letras olham com preconceito essa tribo, como se ela fosse composta apenas de jovens, e ainda por cima iletrados. É um engano, porque há entre os micreiros respeitáveis senhoras e brilhantes intelectuais. Falar mal do computador é tão inútil e reacionário quanto foi quebrar máquinas no começo da primeira Revolução Industrial. Ele veio para ficar, como se diz, e seu sucesso é avassalador. Basta ver o entusiasmo das adesões.

                                             (Zuenir Ventura, Crônicas de um fim de século)

2 comentários: