17 abril 2015

IMAGO - CAPÍTULO lV

O DESCONHECIDO SE APRESENTA



Mesmo alguns transes suscetíveis à vida seguem padrões característicos. Guilherme voltava à casa do pai psicanalista, assim o rotulava enquanto abria a porta que dava entrada para a cozinha, após caminhar errante por ruas e avenidas, amaldiçoando, sempre que possível, as péssimas condições das calçadas e pavimentações.
            – Cidade dos Príncipes, uma ova !
            A tarde já prenunciava a noite, e Guilherme sabia que, àquela hora, o pai estaria em seu escritório debruçado sobre livros e anotações. Como sempre ocorria nas circunstâncias em que ele se encontrava, a raiva se dissipara, mas sentia cada vez mais alto o muro que se interpunha entre ele e seu pai. Abriu a geladeira, serviu-se de um copo de iogurte com cereal e seguiu para seu quarto e refúgio, não sem antes observar que o pai bebera bem mais de meio litro de seu uísque e companheiro de todo dia. Na verdade, de todos os dias depois do falecimento de sua mãe. Antes da trágica morte da esposa, Leandro jamais pusera uma gota de bebida alcoólica na boca.
            – A bebida entorpece os sentidos, meu amigo! – ouvia-o dizer aos esporádicos visitantes de sua casa, algo entre sarcástico e resignado – e eu preciso entorpecer o que sinto, do contrário, receio que vou estourar. Veias, artérias, peito, tudo pelos ares. – e tornava a se servir de uísque, o olhar derrotado mirava o copo, a bebida brotando nele.  Quando não havia ninguém, não falava, mas sua expressão era igualmente sarcástica e resignada. Entretanto, jamais perdia a lucidez, não se permitia essa violência ou covardia. Leandro recebera uma educação familiar rígida, mas sensata, pautada não na esterilidade das palavras, mas no exemplo vivo de cada ação paterna.
            – Guilherme? – alguém lhe chacoalhava o corpo, inerte por doze horas ininterruptas de sono. Seu pai, dificilmente, entraria em seu quarto sem chamá-lo do lado de fora e sem esperar sua permissão para entrar. Esse era um código sacrossanto para ele: não invadia a privacidade do filho como não tolerava o contrário. Guilherme deu um giro no corpo e se pôs de barriga para cima. Esfregou os olhos e viu um rosto que não lhe era estranho, porém era quase impossível acreditar naquela aparição, ainda mais estando ali, de pé, em seu quarto. Tornou a esfregar os olhos e se viu forçoso a crer.
             – Tia Cândida?! – Há mais de dois anos que Guilherme não a via. Ironicamente, desde sua vinda para a maior cidade de Santa Catarina, adotada como morada pela tia há mais de 10 anos, jamais a encontrara. Das poucas vezes em que ela fora  à casa do irmão, o jovem ou estava no GEMA ou se encontrava em suas aventuras errantes. Lembrava-se da tia no período da morte de sua mãe, consolando o pai que chorava em seu ombro de irmã mais velha. E tinha, ainda na lembrança, a última visita que ela fizera ao irmão há, aproximadamente, três anos, quando insistira veementemente para que Leandro viesse  com ela e fixasse residência, segundo a tia, na melhor cidade do país para se viver.
            Foi digerindo esses pensamentos que Guilherme chegou à constatação de que não nutria por tia Cândida os mais nobres sentimentos de ordem avuncular. Era-lhe quase impossível não associar sua figura a alguma grande e particular tragédia. E arrematou a sentença: A tia, definitivamente, era um arauto de calamidades. Por conta de tão débil efusão do sobrinho, Cândida limitou-se a um sorriso canhestro, sentou-se à beira da cama e, logo, fez jus à análise do rapaz.
              – Bom vê-lo, Guile! Como você cresceu! – A saudação vinha carregada de um tom de voz e expressão facial que pressagiavam desgraça. – Gostaria de reencontrá-lo em ocasião mais agradável, meu querido! Precisamos ir ao hospital. Seu pai sofreu um AVC ontem à tarde e está internado. – Cândida conhecia bem aquelas feições de espanto e dor estampados no rosto do rapaz. Os dentes superiores e inferiores a morderem-se, movimentando, fremente, o maxilar. As pálpebras imóveis. Guilherme era, naquele momento, um avatar da própria mãe – Recebi a notícia – continuou ela – assim que Leandro foi socorrido pelo médico-plantonista, que é também um amigo de trabalho de seu pai. Minha intenção era avisá-lo antes, mas eu não consegui encontrá-lo. Você precisa se vestir, Guilherme!
            Cândida sabia que o sobrinho não ouvia suas últimas palavras, mas nela, também, agia o germe psicanalítico, lições de Leandro assimiladas à força. O analista lança um tema cáustico e passa metodicamente a tergiversar, o que causa no paciente a impressão de banalidade deste tema, trazendo-lhe, assim certa tranquilidade e receptividade frente à matéria da sessão analítica.
            Mas como a psicanálise parece não ser uma ciência exata, e sendo Cândida uma pedagoga, Guilherme estava longe de se sentir tranquilo com a bombástica notícia. No fim da tarde de sábado, ao chegar à mais silenciosa  casa de toda a rua, Guilherme tinha consciência de um muro inexpugnável erguido entre seu pai e ele. Agora o muro fora demolido, ruíra por completo. Entretanto a dificuldade em estabelecer uma comunhão com o pai tornara-se ainda mais árdua. Talvez estivesse agora descartada qualquer  possibilidade de conexão entre ambos. O muro da discórdia tombara com todos os inúmeros tijolos de palavras ditas e malditas, colunas de concreto e ferragens de palavras não ditas. Tudo caíra sobre ele, esmagava seu corpo, tornava sua respiração pressurosa. Metaforizava as vítimas de terremotos que assolaram alguns países nos últimos meses. Sim, Guilherme fora atingido por um abalo sísmico de proporções avassaladoras. Um acidente vascular cerebral deixara-o soterrado, sem chão. Sobre ele, entulhos de incompreensão e intolerância. Levou ambas as mãos à cabeça, comprimindo os ouvidos.
             – Meu pai! meu pai!
            O pouco tato psicanalítico da tia desaparecera, provavelmente frustrado pela falta de préstimos. Cândida, o braço forte da família, era quem, sentada ao lado da cama, abraçava o sobrinho desolado. O choro copioso encontrou um ombro para dar vazão à dor. Para despeito de toda e qualquer ciência, nenhuma terapia pode suplantar o efeito analgésico das lágrimas.
            Às dez horas da manhã, Guilherme se encontrava à beira de um leito de uma UTI. O pai estava cercado por uma parafernália de aparelhos, entre oxímetro, ventilador mecânico, monitores cardíaco e de pressão arterial, fios fixados no peito, tubo na boca, com um cadarço, uma sonda fina fixada no nariz (e que Guilherme, posteriormente, veio a saber, ia até o estômago), uma considerável quantidade de soros e, também próximo à  cama, um desfibrilador automático. Leandro parecia dormir profundamente. De fato, era um  coma profundo. Cândida que acompanhara Guilherme até aquele momento, deu-lhe dois leves tapas no ombro e achou mais acertado para as circunstâncias, deixá-lo, por um tempo,  a sós com o pai. Próximo ao paciente, uma enfermeira fazia as averiguações de rotina.
            – Bom-dia, meu jovem! Sou a enfermeira Matilde e prometo que trataremos muito bem de seu pai. Se achar melhor você pode ficar junto à cabeceira do leito. O uso dos equipamentos não impede que você se aproxime, converse e toque no paciente, se for de sua vontade. Se tiver alguma dificuldade, peça ajuda, ok?! Ah, sim, quero deixá-lo a par do horário específico de visitas a partir de amanhã que deve ser entre as 15h e 16h, certo?! – A enfermeira saiu dali a instantes.          A ele restou olhar o pai, agora imerso na inconsciência. Ironicamente, pensava ele, o pai que sempre a teve como objeto de seus estudos, estava agora mergulhado no vazio da inconsciência.
            – Perdoe-me, pai! Guilherme tocava a face de Leandro, e em autopunição lembrava que há anos não tinha uma relação afetiva mais terna com o pai, há anos não o abraçava, muito menos lhe tocava o rosto como fazia nesse instante.
            Na verdade, a mortificação parece ser o único caminho para quem ama, mas, por não saber como proceder com esse sentimento, percebe que pôs tudo a perder. Tal qual a pessoa que encontra uma enorme e pesada arca, obviamente, cheia de riquezas imponderáveis, mas ainda desconhecidas, porque a tampa da arca resiste à pressão das mãos, braços e pernas que se esforçam por abri-la. Esta pessoa atormentada, então, na insistência por violar a caixa, lesiona os membros, fere as mãos, contunde a coluna vertebral, e, exangue, cai por terra, desmaia de exaustão. Não percebe ela que ao simples toque de um pequeno dispositivo, posto na borda inferior da tampa, mas não oculto,  a arca pode ser aberta com facilidade e seu conteúdo exposto para o regalo dos olhos e da alma. Assim sentia-se Guilherme vendo o pai, a quem conferia, agora, a identidade de uma arca hermeticamente fechada.
            – Pai, pai...
            Guilherme chorava, mas sem soluços nem convulsões, os quais, normalmente, acompanham o sofrimento humano. Caminhara de costas, como um autômato, até o limiar da porta e ali estacara inconsolável. Outra vez, dois leves tapas em seu ombro, depois a mão solidária repousa-lhe na nuca. Não se virara, pois deduzira tratar-se da tia que voltara ao quarto.
            – Você está bem? – a mesma voz aveludada da noite de sexta-feira. Porém era algo inconcebível, ele, o desconhecido, naquela UTI em que seu pai vagava entre a vida e a morte, oferecendo de novo sua caridade, fazendo-lhe a mesma pergunta da véspera.
            – Você aqui? Afinal, quem é você? – Guilherme já não tinha lágrimas nos olhos, seu estado emocional sofrera uma transformação abrupta e reflexiva. Continuava voltado para o leito do pai, mas girara o tronco para trás na direção do seu estranho protetor.
            – Meu nome é Rônalde, mas gosto de ser chamado de Rôni, por motivos óbvios, não?!  – Ele estendia a mão com a intenção de selar a apresentação, os lábios insinuavam um sorriso discreto e condolente.
            – Guilherme! Guilherme Siqueira! Este é meu pai, Leandro Siqueira. – A apresentação do pai tornou a comovê-lo, produzindo em seu lábio inferior um ligeiro tremor, contido com dificuldade.
            – Não se preocupe, tudo vai ficar bem! – Rôni pôs as mãos firmes sobre os ombros de Guilherme e agitou-o, em movimentos curtos e rápidos, para a frente e para trás, como se seu intento fosse expulsar do outro aquele estado de depressão e dor.
            – O que você faz aqui? – Guilherme lançou a pergunta, não acreditando na promessa do novo amigo.
            – Tenho um tio sexagenário que também está internado neste hospital. Problemas cardíacos. Quarenta cigarros diários, sedentarismo. Sabe como é! Posso chamá-lo de Guile? – desconversou ele – ouvi seu "amigo" chamando assim, ontem à noite.
            Novamente, ele usava a mesma mímica de sua primeira aparição, erguendo ambos os braços e  expondo os dedos médio e indicador em gancho, num movimento repetitivo, simbolizando as aspas da palavra amigo.
            – Claro! – disse, automaticamente, Guilherme. – Na verdade, prefiro ser chamado de Guile. Queria lhe agradecer o que fez por mim ontem à noite. Não é nenhum exagero dizer que lhe devo a vida. É uma pena que ele não pode vê-lo agora. – lamentou Guilherme voltando a olhar, inconformado, o pai imóvel no leito. – Ele não deu crédito a minha aventura noturna, menos ainda quando falei da sua aparição heroica. Fiquei furioso com ele, mas – Guilherme sorria enquanto falava – pensando bem, é realmente uma história difícil de se acreditar.
            – Pela minha experiência de vida, creio que você ainda testemunhará muita coisa difícil de se acreditar.
            – Você é realmente muito estranho, Rôni. Fala como se fosse um idoso. Afinal que idade você tem? 
            – Daqui a quatro meses, faço 17 anos, meu jovem. – Ele falava forçando a voz e arqueando à frente o corpo, em uma péssima imitação de um velho cansado pelo peso dos anos. Riram ambos, o quanto permitiam as circunstâncias.
            – Pois daqui a quatro meses, no dia 21 de novembro, para ser mais específico, eu também faço 17 anos de idade. Creio que chegarei às bodas graças a você. 
            – Como disse, tenho experiência de vida, sou bem mais velho que você, já que faço aniversário no dia 12. Quando você nasceu, eu já tinha nove dias e nove noites de vida plena e exaustiva.
            Olharam-se, satisfeitos com o conteúdo banal da conversa. Aos dois, a sensação que transparecia era a de serem amigos desde antes mesmo de nascerem. Era evidente que a afeição que tão rápido os uniu se prolongaria por um tempo indeterminado. Estavam, na verdade, intimamente ligados pelo mesmo súbito desejo de estender aquela amizade para sempre. De repente, Guilherme teve um sobressalto, pediu a Rôni que aguardasse um segundo, pois ele queria apresentar-lhe a tia. Não disse, mas, de fato, ele desejava que  outra pessoa o visse em carne e osso. Tão rápido saiu da sala, da mesma forma voltou, chamando insistentemente pela tia que seguia atrás dele. Ao chegarem à entrada do quarto da UTI, encontraram apenas Leandro, inerte e resguardado por todos os aparelhos já citados. Rôni saíra de novo sem se despedir e sem avisos. Se era nobre por ajudar estranhos a ponto de arriscar a própria vida, era também bastante deselegante no trato social e nas normas de etiqueta. Inexplicavelmente, voltaram-lhe a dor e a sensação de impotência frente ao estado clínico de Leandro, com a agravante do embaraço perante a irmã de seu pai que, em uma tentativa embaraçosa, improvisava uma teoria ao mal-entendido. Depois, desconversando, sentenciou:
– Você vai ficar alguns dias em minha casa. Certo, mocinho?
           






IMAGO CAPÍTULO lll

O ÚLTIMO EMBATE


 Eram sete horas da manhã de sábado, Leandro vira, sobre o cesto de roupas, a camisa de Guilherme, rasgada, manchada de sangue e sem dois dos sete botões com os quais saíra na noite anterior. Há apenas três semanas, ele fora chamado ao Grupo Educacional Magister por conta de um envolvimento do filho em uma briga em sala de aula. Segundo a direção do colégio, vários alunos viram Guilherme derrubar um colega de sala, sentado duas carteiras atrás da sua, sem motivo aparente, e bater-lhe, repetidamente, a cabeça contra o piso. O rapaz agredido tentando se defender, agitando os braços, instintivamente, feriu o lábio superior de Guilherme que, só então o largou. Quando o professor de literatura conseguiu furar a barreira de alunos que se formara no fundo da sala, encontrou seu filho sobre o outro estudante que parecia estar desmaiado, mas que, felizmente, logo voltara a si. Tanto Leandro quanto o filho firmaram, perante o diretor Marcondes, o compromisso de não mais meter-se em confusões, sob pena de exclusão em caso de reincidência. Na volta para casa, o pai ouvia uma versão bem diferente, contada entre lágrimas de raiva, de frustração e de mágoa. Atravessados, assim, esses sentimentos não só provocam o choro mas também embargam a voz, congestionam as faces, dilatam as pupilas e apertam as têmporas dos que deles padecem. O pai ouvia o filho e lembrava um de seus professores, quando era ainda um educando em psicologia. O mestre dizia sempre a seus alunos:
            – A verdade é o pico de uma montanha. Alguém se encontra de um lado, no sopé desse obelisco rochoso criado pelas forças telúricas; um outro alguém se põe do lado oposto. Ambos miram o pináculo do agigantado relevo e, para os dois, aquele é o cume da montanha, mas não é o mesmo cume que veem. Cada qual o vê conforme a circunscrição de sua óptica. O cume não os vê nem a um nem a outro. Dirão vocês, então, que não os vê por se tratar de um ser inanimado. Não, meus caros! Não os vê porque está acima deles; eis a verdade!
            Na versão de Guilherme, Alécio, o rapaz supostamente espancado, puxou-lhe pelos cabelos e o arrastou de costas até quase ao fundo da sala, aplicando-lhe, em seguida, uma bofetada no rosto, após o que, agarrou-o pela cintura, levando-o ao chão, simulando o que o professor Renaldo julgou ter visto, sugestionado, ainda pelos simpatizantes de Alécio.
            O pai, pela primeira vez, admitiu a hipótese de que o filho estivesse sofrendo de algum distúrbio de personalidade, pois percebera que ele estava sendo honesto consigo mesmo, não havia embuste nem falsidade em seu depoimento. Guilherme criara sua própria verdade, ignorando todas as evidências e testemunhos reais apontados contra ele. Eis aí a gravidade de seu estado psíquico: não só negava a verdade, mas renegava a realidade dos fatos.
            Agora, Leandro segurava com as duas mãos a camisa do filho, notara, surpreso, que algumas lágrimas vinham misturar-se às manchas de sangue espargidas no tecido. Desde a morte da esposa, há quatro anos, que ele não derramava uma lágrima sequer, não que tivesse feito promessa ou algo semelhante. Simplesmente, não conseguia mais chorar, embora nenhuma passagem anterior de sua vida fora tão sofrida e vazia quanto nesses últimos anos que lhe marcavam a amarga viuvez. Arrebentara-se nele, com a perda de Beatriz, toda a carne e toda a estrutura óssea do peito. O coração estava exposto, mas lhe batia ainda. O coração era Guilherme, e agora gravemente afetado, provavelmente, pela falta da figura materna e pela sua inépcia de pai viúvo, era normal que lhe reclamasse de novo as lágrimas do passado.
            Deixara no cesto de roupas a camisa e as lágrimas. Entrara, silenciosamente, no quarto do filho, quebrando o protocolo por eles estabelecido. Não lembrava, até então, a última vez que visitara os domínios particulares do filho. e assim, clandestinamente, sentia-se um intruso. Guilherme ressonava como sempre, como se nada estivesse errado, como se nada de grave tivesse acontecido na noite anterior. Mas havia a camisa manchada de sangue. Examinara o filho, deitado de bruços, os braços esgarçados, e tranquilizara-se ao ver que não apresentava nenhum ferimento. Subitamente, seu temor tornou-se ainda maior por vê-lo incólume sobre os lençóis de sua cama. A quem pertencia aquele sangue? O que fizera seu filho de errado?  Como protegê-lo? E, involuntariamente, disse, num sussurro:
            – Meu Deus!  – A frase era mais uma interjeição do que um apelo à fé em um Criador e Redentor. Se a Ciência lhe enfraquecera a fé e o nascimento de Guilherme a realimentara em seu espírito, a morte da esposa a extirpara de forma irreversível. Dois menores bateram à janela do carro da esposa, por volta das quatro horas da tarde e, sob um semáforo, deram dois tiros à queima-roupa em sua fé. A fé de Leandro foi morta com dois tiros, foram as mãos levantadas rápidas demais para o céu que a mataram. Do encontro dialético entre o susto dos favelados e sua fé de mãos erguidas para o firmamento, resultou o vazio solitário da viuvez e, para ele, angustiado, próximo ao leito do filho, Meu Deus significava apenas uma interjeição.
            – Pai? – Guilherme observava há quase dois minutos a figura de Leandro ao pé de sua cama, os olhos muito abertos do pai viam através dele, mas não o enxergaram, por exemplo, despertar, movimentando os braços para cima e estirando-os, num espreguiçar moroso e sincrônico com os membros inferiores. Seus pés tocaram, involuntariamente, um pouco abaixo dos joelhos paternos, que só então se dera conta de que o filho estava acordado.
            – Qual o problema? – continuou Guilherme, percebendo que o pai voltara à Terra. – Tudo bem com o senhor?
            A contribuição genética que coube à mãe acabara de acordar com Guilherme. Assim como Beatriz, o filho não só despertava de bom humor como também revelava uma inclinação benévola e pacífica. Seu estado de aflição abrandou-se um pouco ao ouvir a voz do filho. Servia-lhe de refrigério o tratamento formal com que o filho habitualmente se dirigia a ele: “Tudo bem com o senhor?” Urgia responder algo, mas precisava ser sensato e cauteloso.
            – Bom-dia, filho! Estava esperando você acordar para lhe fazer um pedido muito especial.
            – De que se trata? – Guilherme puxara o corpo mais para cima e apoiara as costas na cabeceira da cama que rangeu à  pressão de seu peso, as pernas dobradas e presas pelos braços cruzados.
            – Bem, hoje é sábado e eu queria muito encontrar você em casa para o almoço. Chegarei antes do meio-dia. Posso contar com a sua presença?
             – Pai, aos sábados é o senhor que nunca está presente para o almoço. – Guilherme esboçara um riso maroto e um tanto debochado, porém sem hostilidade ou amargura. Leandro, entretanto, rira por assentimento de culpa, era réu confesso.
            – Então, estamos combinados! – Fechou a mão em punho e bateu de cima para baixo sobre a mão do filho, também cerrada, que, depois de receber o leve golpe, repetiu o mesmo gesto. Riram-se de novo, ambos acanhados, e separaram-se. O pai tinha o consultório; o filho, a cama.
            Se da primeira vez, naquela manhã, o silêncio do pai o acordara, agora tinha sido literalmente arrancado de seu sono por um relinchar de pneus queimando asfalto, seguido por buzinas e insultos de baixo calão. Erguera-se, ainda entorpecido. O sono tem essa característica rigorosa; faz mal a quem dele se abstém, mas também a quem dele abusa. Passava das onze. O pai logo estaria em casa. Tomou um banho rápido, e, enquanto abria seus e-mails, ouviu a porta se abrindo e tornando a se fechar suavemente. Só o pai tinha a delicadeza e técnica necessárias para fazer isso. Aquela porta tinha um defeito irritante, mas que para o pai vinha a calhar. Havia um problema de engenharia nela que lhe conferia um peso e velocidade, em quando se queria fechá-la, que tornava impossível a qualquer um, à exceção de seu pai, realizar essa tarefa sem produzir um estrondo flagrante. Detalhe por que o pai sempre ficava sabendo de seu horário de chegada quando saía à noite. “À Noite”, só então Guilherme parava para pensar no que lhe havia ocorrido como, também, no que lhe poderia ter ocorrido. O pai chamava lá da cozinha:
            – Guilherme? Guilherme?
            Deixou o computador e foi atender o pai. Encontrou-o já preparando a macarronada e expondo sobre a mesa redonda, em que costumavam almoçar nos dias em que a harmonia familiar resistia às intempéries que obscuramente se formavam, um frango assado, quase torrado, comprado às pressas no shopping próximo de onde moravam.
            – Com fome? Vamos ao que interessa! – Novamente Fechou a mão em punho e bateu de cima para baixo sobre a mão também fechada de Guilherme que, mecanicamente, repetiu o movimento do pai, batendo, por sua vez sobre a mão fechada de Leandro.
            – Vamos comer e beber! Vinho do papai, refrigerante do filhão! – Ria enquanto servia os copos. Guilherme sabia que Leandro não estava sendo natural, mas reconhecia seu esforço e apreciava sua iniciativa. Cortando o pequeno frango assado, Guilherme mirava o pai para concluir em segredo:”O senhor é um bom pai!”
            Como é de regra na adolescência, o filho transgrediu toda norma de etiqueta à mesa: a coxa de frango entre os dedos em alicate, algo como um picolé de carne a se derreter em contato com a boca, deformada nas bochechas dilatadas, a refeição engolida em um só movimento de sucção, dispensando a mastigação, cinco ou seis garfadas e era uma vez a macarronada.
            A verdade é que Leandro tentava adiar a hora fatídica. Conhecia muito bem a fragilidade daqueles momentos de paz e harmonia familiar. Dispensara, mesmo, sua profunda perícia psicanalítica ao protelar a conversa para depois do lauto almoço; o produto de toda situação conflitante é mitigado por um estômago bem forrado. Essa particularidade científica aprendera com a mãe que sempre repetia a mesma frase em outras palavras. Por mais que se adie o que de odioso há, chegara o momento.
            – Filho, lembra da nossa conversa de ontem à noite? Eu lhe propus uma consulta com um psicanalista, minha sugestão foi o doutor Leocádio Lavorini...
              – E eu lhe perguntei se não estava em meu estado psíquico normal?! Lembro, sim! – Guilherme lhe respondeu com enfado.
            – Você deve se recordar dele! Apesar do afastamento após a – ia dizer após a morte da esposa, mas trocou rápido as palavras  – mudança de cidade que achamos por bem fazer, ele continua sendo um grande amigo nosso.
            – Pai, por favor! Mudança de cidade que o senhor achou melhor fazer, ele continua sendo um grande amigo seu. – Guilherme já estava visivelmente alterado, contrariando os conhecimentos consuetudinários da avó.
            – Ele chega de São Paulo daqui a alguns dias. Vem decidido a fixar morada e é provável que atendamos como sócios na minha clínica.
            – Pai, eu estou bem! Mentalmente bem! Não se preocupe!
            – Que droga, Guilherme! Eu não posso ser seu psicanalista porque sou seu pai!
            – E também não consegue ser meu pai porque é psicanalista!
            – Tudo bem, filho! – Leandro levantou-se, bruscamente, indo, a passos largos,  em direção à área de serviço, voltando em seguida, estacou de pé e encostado à mesa – Então, você pode me explicar o que significa isto? – nas mãos a camisa rasgada e manchada de sangue.
            Guilherme olhou da camisa para o pai e de novo para a peça de roupa em frangalhos. Reconheceu que foi imprudente em deixar a camisa à vista do pai. Agora, só lhe restava relatar a ele o episódio da noite passada.
            – Posso, sim! – começou em tom desafiador – Lembra do Alécio, aquele psicopata? Ele me perseguiu, ontem, quando fui assistir à apresentação de dança na praça. Corri o quanto pude, mas fui encurralado por ele e mais dois de seus amigos. Achei que eles iriam me matar. Um cara que eu nunca vi na vida apareceu do nada e deu uma surra nos três miseráveis, e adivinha... usou apenas dois pedaços de pau, pouco mais que duas réguas escolares de madeira para nocautear os doentes mentais. – Guilherme ria satisfeito e, novamente, revivendo a admiração pelo desconhecido.
            – Filho, pensa no absurdo que você está me falando! Você, realmente, crê nessa história fabulosa? É isso que você, de fato, acha que aconteceu com você ontem à noite?
            – Por que você sempre acha que eu estou mentindo? – Guilherme tinha já a voz ferida, os olhos faiscavam de raiva.
            – Eu acredito em você, mas não posso alimentar sua fantasia, filho!
            Guilherme, ainda sentado, pôs ambas as mãos sobre a mesa, os cotovelos levantados.
            – Já disse, pai, o senhor não consegue ser meu pai porque é psicanalista! O senhor é incapaz de deixar essa droga de psicanálise de lado, nem que seja por um minuto. – Guilherme se erguera enquanto as lágrimas rolavam de seu rosto, indo parar no vazio do prato, o peito também vazio. Empurrou a mesa e a cadeira em sentidos opostos. Buscava de novo, na rua, o alívio de toda a frustração causada pelo julgamento do pai psicanalista. Ouvia Leandro ainda lhe falando da porta.
            – Não fuja, Guilherme! Eu quero ajudá-lo, meu filho!
            Leandro voltara à mesa. Recolhera os pratos. O dele ainda cheio, o peito também cheio: de angústia, de impotência, de revolta. Suspirou, mentalmente: “Beatriz!”.




IMAGO - CAPÍTULO ll



O NOVO ENCONTRO





 Agora Alécio e seus dois amigos, já que o terceiro se contundira com a violenta queda e abandonara o campo de batalha, estavam a menos de dois metros de Guilherme. A tríade diabólica esboçava um sorriso ou esgar repugnante. Certamente iriam se divertir primeiro com a presa. Saborear os instantes que precedem o golpe de misericórdia. Ele, resignado, prostrou-se de joelhos por terra, ipsis litteris. Provavelmente, o mesmo sistema de defesa voltara à ativa, pois observara que no chão onde se curvara faltavam três ou quatro metros do concreto da calçada. Quem sabe a porção de cimento e ferro faltante, e de direito dos pedestres, fora abduzida por alienígenas cleptomaníacos.
            – Um raro momento da mais viva prova de valentia, hein, rapazes! – Era a mesma voz que ouvira há pouco, mas desta vez acompanhada de seu dono.
            – O que você tem a ver com isso, seu escroto?! – Alécio atirou o acinte, nada intimidado com a interrupção inesperada, afinal tratava-se de um rapaz entre 16 e 18 anos, se tanto, de um porte nada atlético ou corpulento. Enquanto alisava a arma branca, ajustada nos dedos da mão direita fechada em punho, Alécio não só observava isso como, também, a pouca estatura do jovem inoportuno, não o classificando de anão apenas porque, possivelmente, se equiparavam nesse quesito, e que deveria ter não mais do que setenta quilos de imprudência.
            – Sinceramente, não sei lhe responder com precisão o que “tenho a ver com isso” – ergueu ambos os braços e expondo os dedos médio e indicador em gancho, num movimento repetitivo, assinalava as aspas em uma mímica que demonstrava completa descontração e tranquilidade, embora despropositais. – mas é melhor vocês deixarem o garoto em paz!
             – Vá pro inferno, seu anormal! Ou melhor, dê o fora antes que eu lhe mostre o caminho até ele. – Alécio achara o dito espirituoso, soltara, em uma autoanálise isenta de modéstia, uma gargalhada desarmônica e seca, exibindo ao desconhecido o soco inglês à altura do próprio rosto.
            Guilherme permanecia de joelhos. Alécio e seus dois fantoches, Bruno e Thomas, formavam um triângulo ameaçador sobre ele. Ao ver a figura excêntrica que desafiava a tríade de desajustados, ele também fez uma rápida e pouco auspiciosa avaliação do rapaz que retardava o massacre. Desta vez não pensara em nenhuma frase de Murphy, mas balbuciara inconsolado:   
            – Só me faltava essa!
            O jovem vestia-se de forma elegante, mas pecava pela formalidade extrema da calça cinza de poliéster, sapatos pretos sumamente engraxados e camisa branca de algodão, rigorosa e zelosamente posta para dentro da calça, presa por um cinto de couro, também preto e de fivela dourada. Desde que chegara, encostara o ombro direito em uma armação de madeira que servia de proteção a uma pequena árvore que tentava crescer em ambiente tão hostil a qualquer vegetação. Com o corpo ligeiramente inclinado, apoiado apenas na perna direita, a esquerda cruzada por trás desta, batendo distraidamente com o bico do sapato no chão.
              Alécio girou nos calcanhares, voltou novamente sua atenção para Guilherme, caminhou decisivo em sua direção com a mão armada na mesma posição, Bruno e Thomas, num entendimento tácito, para não se dizer telepático, seguraram-no entre os braços e os ombros. “ Enfim o desfecho”, concluía, em pânico, o desamparado aluno do Grupo Educacional Magister, “GEMA”; a memória tornou a torturá-lo. “GEMER”. Alécio agarrou brutalmente a gola de sua camisa com a mão esquerda. Guilherme olhou em seus olhos, depois viu, por detrás de sua cabeça, as pontas metálicas e escuras do soco inglês, uma autêntica manopla medieval. “Este doente vai arrancar minha cabeça.” Sentiu nitidamente que iria desmaiar de pavor. Ouviu-se um estalar de algo se quebrando ou sendo arrancado. Todos se voltaram na direção do desconhecido que, agora, investia contra o grupo, cada uma das mãos armada com um sarrafo de quarenta ou cinquenta centímetros que foi tirado, num único puxão, da armação de madeira que até então lhe servira de espaldar.
            – Eu os avisei! – E sem mais dizer, cruzou os braços à frente do corpo, desferindo em seguida, com o braço esquerdo, um golpe horizontal certeiro que atingiu a garganta de Alécio, e, quase simultaneamente, o outro braço descrevia o mesmo movimento, produzindo um estampido breve e assustador que marcava de sangue sua têmpora esquerda. Fosse um quadro bíblico, qualquer um veria, encarnada ali, uma alusão a Davi e Golias.  E, tal qual, o gigante caíra. Para a sorte de Alécio, ainda que imerecida, não se tratava do duelo entre o israelita e o filisteu das Sagradas Escrituras, pois embora caísse nocauteado, dava sinais de vida, estremunhando e agitando as pernas desordenadamente. Dada a rapidez do inesperado ataque, os outros dois permaneciam na mesma posição, aparvalhados, segurando, um de cada lado, os braços de Guilherme.
             Infelizmente para ambos, o combate teve sequência igualmente instantânea e marcial. Novamente, o jovem recolhera os dois sarrafos, a princípio tão inofensivos, à frente do peito, formando um xis, e num repelão convulsivo, tornou a esticá-los horizontal e lateralmente, ferindo, ao mesmo tempo, o nariz de Bruno e o supercílio direito de Thomas, levando-os, também, a buscar o conforto e a segurança do chão, onde sempre se geme com maior comodidade.
            Em seguida, estendeu os braços à frente e para baixo, ainda com os dois pedaços de madeira na extremidade das mãos, nos quais Guilherme se segurou e foi, firmemente, içado, pondo-se de pé, mas sem condições de se recompor prontamente. Houve, então, um intervalo constrangedor. Guilherme continuava a segurar os pedaços de madeira, bem próximo das mãos de seu salvador misterioso. Se lhe surgisse, para resgatá-lo do perigo, um homem de músculos de aço, com uma cueca vermelha por cima de uma calça azul de lycra, envolto em uma capa vermelha, não lhe causaria o mesmo espanto e completa suspensão que experimentava agora. 
            – Você está bem? – A voz lhe parecera suave e terna, talvez já efeito da gratidão patente que Guilherme sentia pelo outro que lhe falava, olhando-o obsequioso, provavelmente, na esperança de ouvir qualquer frase que lhe confirmasse a integridade física e mental ou, quem sabe, desejando que ele, finalmente, largasse os dois sarrafos pelos quais os dois jovens estavam indissoluvelmente unidos.
            – E-e-e-eu, é...é.... – Não se pode exigir eloquência a alguém que passou por tão maus bocados. No entanto, o mais curioso de tudo é constatar que nada torna a criatura humana mais incapacitada, pondo-a mesmo em um estado de catalepsia, do que a salvação em uma situação em que ela própria já se considerava irremediavelmente perdida, quando ela já se julgava na mais completa danação. Era este o estado emocional de Guilherme que, petrificado, mantinha os olhos fixos nas esverdeadas íris de seu paladino noctívago.
            – Guile! Guile! – Guilherme se virara, bruscamente, despertado do transe. Só ela poderia fazê-lo voltar à realidade.
              Nádia! – na pressa com que caminhara até a jovem, nem percebera que levava, nas mãos firmemente fechadas, os bastões ensaguentados de madeira.
            – O que aconteceu, Guile? – Ela encontrou os três rapazes feridos. Alécio, no meio, estirado ao chão. Ao lado, seus amigos dos bons e maus momentos, sentados e sangrando muito, o trio compunha, entre ais e uis, uma fúnebre canção.
            – O que você fez? – reformulou a pergunta, incrédula.
            – Eu não fiz nada! Quem fez foi... e-le... – seu estranho salvador, também, salvador estranho, havia sumido. Guilherme ainda tentou procurá-lo, não poderia ter ido muito longe, mas  Nádia tomou-lhe pelos braços, tirou, com dificuldades, os pedaços de madeira de suas mãos, lançando-os fora, e correu dali em disparada, rebocando Guilherme, que insistia em olhar para trás, perturbado, ainda, com tudo que lhe ocorrera.  A última coisa que viu, claramente, foi Alécio se levantando com a ajuda dos outros rapazes, a imagem sumindo aos poucos,  pelo caminho da  esquerda, na escuridão  da rua.











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