30 outubro 2013

KIKI DO REBOLADO


    


































— Kátia Killer? — perguntou a irmã de caridade entrando no quarto, e Kiki bem percebeu que a freira nunca acreditara ser aquele seu nome verdadeiro.
   — Sou eu — disse em tom angustiante; e aprumou-se na cadeira.
   — Sempre resolvida a entregar o recém-nascido?
   — Sou mãe solteira, irmã — desculpou-se, agora os olhos baixos — há muito saí de casa.
   Na profissão que abracei...
   A freira persignou-se:
   — Em nome de Deus, fiz tudo que pude — olhou o alto, suspirou, olhou a moça.
   — Vou buscar o papel para você assinar; o casal que vai adotar a criança quer o preto no branco.
   Quando a irmã saiu, Kiki deslizou o olhar para as três camas já esticadas — a sua, a duma tal de Cida, que, em situação igual, partira na véspera, e a da moça sendo cesariada naquela hora: "Coita da! saíra há pouco, descorada de dor."
   Kiki levantou-se da cadeira onde estivera esperando; encaminhou-se para a grande janela de vidraças abertas. A luz da manhã favorecia e nelas pôde espelhar-se de corpo inteiro: os seios empinados marcando a malha preta, a minissaia vermelha oferecendo ancas certinhas, aquelas que, reboladas no palco, arrancavam mil exclamações. E assobios! Sorriu, na certeza de que em nada desmerecera.
   De repente, a irmã Dolores invadiu o quarto. Com aquele sorriso claro, entregou-lhe o bebê que carregava:
   — Trouxe o menino para você conhecer; pode contar lá fora do garotão forte que teve!
   Kiki, pega de surpresa, apanhara a criança. Agora estava ali, desajeitada, sem querer olhar:
   — Não adianta, irmã; sou firme nas minhas resoluções.
   Mas, irmã Dolores, como um pé-de-vento, entrara e saíra.     
   Desanimada, Kiki sentou-se, o bebê no colo.
   Na quietude, primeiro sentiu um calor desconhecido, não sabia se vindo da criança para ela ou dela para a criança.        
  Depois, o nenê resmungou, e Kiki baixou os olhos. Então, foi como se dali para trás nada mais importasse:
   — Que coisa mais linda, meu Deus! — exclamou apertando o filho de encontro ao coração, os olhos rasos d’água — Ah! queridinho.
   Ah!... — disse, e as lágrimas rolaram.
   Quando se sentiu lúcida, ergueu-se. Numa bem-aventurança abriu a porta, caminhou pelo corredor, alcançou a saída, fugiu para a rua, para a manhã vazada de sol, o filho aconchegado nos braços.

                                      (Lucília Junqueira de Almeida Prado)