03 maio 2011

Cara de um, focinho do outro




















Ele era um cara legal,
um cara que metia a cara.
Assim meio cara de pau, meio cara dura.
O tipo do cara
que não fica com cara de tacho
quando está cara a cara com o perigo.
Era um cara que acertava de cara.
Mas de vez em quando, quebrava a cara.
Dizem que era a cara do pai.
Tipo cara de um focinho do outro.
O pai do cara era um pouco careta,
mas o cara gostava do coroa.
Sabia que o coroa era um cara
que não ficava mudando de cara.
Nem com a cara amarrada.
Nem com cara de quem comeu e não gostou.
E o coroa gostava do cara,
da cara e da coragem do cara.
Mas nunca teve cara de lhe dizer tudo isso na cara.
Mas quem vê cara não vê coração.
E os dois nunca ficaram cara a cara.
O tempo foi passando e o cara foi ficando coroa.
E cada vez mais com cara de coroa.
Um dia ele ligou pro coroa e falou logo de cara:
−Tô o maior coroa e o meu filho é a sua cara!  
E o vovô viu a uva.
Aí os dois foram jogar dama na praça e jogar conversa fora.
E tirar na cara ou coroa... Se o carinha era a cara do cara ou a cara do coroa.
Eles nunca descobriram, mas a resposta estava na cara.
                                                                                                                                               

(LINS, Guto. Cara de um, focinho de outro. São Paulo: FTD)

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Guto Lins é escritor, ilustrador e designer gráfico. É professor do Departamento de Artes & Design da PUC-Rio, autor de vários livros infantis e de livros sobre design gráfico.


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