01 setembro 2013

MODULAÇÕES DO TEMPO

                








                 









               Estava eu escrevendo o último artigo para o jornal italiano “Roma Locuta”, com o intuito de, no fim da tarde, enviá-lo para edição. Lembro-me de que estava sozinho e que, em algum instante, ouvi um barulho. O relógio marcava dezessete e vinte e cinco. Conseguia enxergar as horas por minha janela em uma das torres da Basílica de São João de Latrão. A casa de edição e impressão ficava logo ao lado de meu escritório. O artigo que escrevia tratava de avanços tecnológicos no ramo da Física, como o Boson de Higgs, e eu deveria entregá-lo às dezessete e quarenta e cinco. Para concluir meu artigo, sentei-me novamente e dei continuidade ao meu trabalho. Os sinos da Basílica tocaram em horário impróprio, com certeza algum insigne da igreja teria morrido. Foi então que, repentinamente, entraram em minha sala três pessoas com roupas e jalecos brancos, juntamente com três oficiais de justiça.
                - Signore? Dirigiu-se a mulher que liderava o grupo.
                -Sí. Respondi.
                -Siamo qui perché devi venire con Il nostro gruppo.
                Sem chance de resposta, levaram-me, em um carro convencional, para uma usina de testes com partículas atômicas, cujo foco de estudos era o controle do tempo. Explicaram-me que necessitavam de alguém que conhecesse profundamente sobre este assunto. Eu não sabia por que um professor, físico aposentado, iria somar nesta pesquisa.
                -Come si chiama?
                - Io mi chiamo Pietro Giovanni.
                Soube que me encontraram mesmo sem saber meu nome, visto que meus companheiros de faculdade, antes de morrerem, deram a eles o meu endereço.
                Iniciavam no mesmo dia o último teste com o novo aparelho o “Times S3”. Não poderia acontecer nada de errado desta vez, pois, do contrário, colocaríamos em risco nossas vidas, como o fizeram meus infelizes amigos. Poderia até mesmo trazer risco a toda a cidade pois havia a possibilidade de uma explosão nuclear.
                Com uma tarde de estudos, finalmente, terminamos, e , para o teste de controle de tempo, uma pessoa se dispôs a sofrer as consequências do teste: eu.
                Entrei no compartimento para o primeiro teste, após um ano da tentativa funesta em que meus amigos morreram. Com equipamento avançado, tivemos a possibilidade de escolher por quanto tempo e aonde queríamos ir. Decidimos que entraríamos no período onde Galileu praticava seus experimentos e pelos quais sofrera as acusações que quase lhe custaram a vida. Tudo configurado e se deu início ao processo de fragmentação do tempo. Neste instante uma falha acontece e põe todos em grande risco, porque a tal falha iria fazer com que o reator explodisse, pois, para voltar tanto no tempo, foi preciso uma grande fragmentação. Para que eu não viesse a acabar tragicamente, como em um ano antes, tomo a decisão de  retroceder apenas cinco anos no tempo, uma capacidade de fragmentação possível para o reator e crucial para salvar nossas vidas.
               Assim,  quando este dia tornou a chegar, fiz o possível para não causarmos nenhuma catástrofe e, finalmente conseguimos retificar esta proeza. Nossos trabalhos não foram reconhecidos. Ainda dou aulas, e os pesquisadores nem sequer me conhecem. Apenas eu, inexplicavelmente, consigo lembrar o fato ocorrido, ou melhor, não ocorrido.


(Cristiano Gonçalves Alano, 1º ano C -  Colégio dos Santos Anjos)

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