20 março 2011

SOBRE OS POLÍTICOS





















     


     

      Os políticos são pessoas que verdadeiramente fazem algo a partir do nada. Pouco de concreto têm a oferecer. Não são engenheiros nem artistas; nada constroem. São manipuladores; oferecem seus serviços de manipulação. Como nada têm a oferecer, raramente sabem o que querem. Por vezes afirmar querer o poder. Mas o definem de modo vago e impreciso. O que é poder? A limusine com chofer e bancos forrados de fino linho branco, os agentes de segurança esperando no portão, os criados hábeis e respeitosos? Mas isto é apenas comodismo, coisa que pode ser adquirida por qualquer um a qualquer momento, num hotel de primeira. É o poder de intimidar, humilhar, vingar-se? Mas esta é a espécie mais efêmera de poder, que desaparece tão depressa quanto surge; e o verdadeiro político é aquele que quer jogar o jogo o resto da vida. O político é mais do que um homem imbuído de uma causa , mesmo quando a causa em questão é apenas subir na vida. Ele é impelido por alguma magoazinha, uma falhazinha. Ele tenta exercitar uma habilidade que, mesmo para ele, nunca é tão concreta quanto a do engenheiro; só se torna consciente da verdadeira natureza de sua habilidade quando começa a exercitá-la. É muito comum ocorrer de um homem, depois de anos de lutas e manipulações, chegar bem perto do posto que almeja, por vezes chegar a conquistá-lo, e então revelar-se um fracassado. Tais indivíduos não merecem piedade, pois, dentre os que aspiram ao poder, eles são homens completos; buscaram e conseguiram a autorrealização em outra área, foi necessária uma guerra mundial para salvar um Churchill do fracasso na política. Já o verdadeiro político só exerce sua habilidade e se completa quando tem sucesso. De repente, seus talentos se manifestam. O homem que antes era mesquinho, descontrolado e inseguro agora revela qualidades insuspeitas: generosidade, moderação e capacidade de agir com uma brutalidade rápida. Apenas o poder revela o político; é ingenuidade manifestar surpresa perante um fracasso inesperado ou um sucesso inesperado.
      O mais comum, porém, é vermos o verdadeiro político em decadência. Os talentos, jamais manifestos, as habilidades, jamais descobertas, azedam dentro dele; e o homem que começou sábio e generoso, lutando por uma causa nobre, termina se revelando fraco e vacilante. Abandona seus princípios; a cada derrota torna-se mais desesperado; perde seu senso de oportunidade e muda de posição cedo demais ou tarde demais; chega  até a perder sua dignidade. Recorre à bebida, à gastronomia, às mulheres, vulgares ou refinadíssimas; torna-se um bufão, algo que até mesmo ele considera desprezível, menos nas horas tranquilas do cair da tarde, quando sua plateia se reduz a ele próprio e sua esposa, que, embora cheia de rancor, permanece fiel, porque só ela o conhece de verdade. E  aconteça o que acontecer, ele jamais desiste. Este é o líder. Este é o verdadeiro político, o homem versado numa nebulosa arte. Ofereça-lhe o poder. O poder o reanimará, fará com que ele volte a ser o que era antes.

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    Vidiadhar Surajprasad Naipaul (Chaguanas, 17 de agosto de 1932) é um escritor britânico nascido em Trinidad e Tobago.
    Foi agraciado com o Nobel de Literatura de 2001. De família indiana, assina seus livros como V. S. Naipaul.
    Radicou-se na Inglaterra onde foi estudar em 1950, aos dezoito anos.


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