05 novembro 2010

LUTADORES SEM CAUSA




As pessoas costumam aglomerar-se em praça pública para assistir, ordinariamente, a espetáculos convencionais.
Aconteceu, entretanto, dias atrás, um caso atípico. Um sem-número de pessoas formava um círculo humano em grande celeuma. A multidão crescia continuamente, numa gritaria desordenada e surpreendente,haja vista que nesse tipo de encontro social todos se limitam ao papel de espectadores
A surpresa pela mudança no comportamento daquela plateia correspondia à mudança do espetáculo: Dois homens engalfinhavam-se, rosnavam e sangravam numa luta de vida e morte.
No tumulto, vozes perdidas diziam que  o combate já durava uma hora. Um homem baixo e idoso afirmava que o loiro já estava desmaiado e que, portanto, era covardia do outro bater-lhe ainda.
Surgiu, de repente, uma pergunta que percorreu e estremeceu toda a multidão: Por que brigavam aqueles dois? E qualquer um  que fosse submetido àquela pergunta respondia com um meneio de ombros:”— Não sei!”
Finalmente, quando todos ali presentes foram interrogados, constatou-se que ninguém sabia o porquê da violenta disputa. A curiosa tribo já não atentava mais nem para a selvageria da luta, nem para o sangue que manchava o chão, nem para os ferimentos dos lutadores. O que todos queriam, o mais importante naquele momento, era saber o motivo da briga.
Alguém então sugeriu:”— Perguntem aos dois!” Foi o que fizeram. Inquiriram ao loiro, que deveras não desmaiara, não obstante ninguém que o visse lhe desse esperança de vida. Ao lhe Perguntarem por que estava brigando, este respondeu num meneio de ombros, imitando a multidão:”— Não sei!”Dito isto, pagou caro a distração, recebendo um murro que o fez inconsciente, pondo termo à luta.                   
Perguntaram, em seguida, ao vencedor da brutal contenda. O grupo de sádicos espremia-se para ouvir a explicação do homem de lábios partidos e olhos fechados pelo inchaço dos supercílios feridos Este, por sua vez, respondeu:
    ”— Não sei!”
                                                                               (Maurício Palmeira)

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