21 junho 2015

DE PAI PARA FILHO


  

    Muitos dizem que cada qual possui uma missão a ser realizada. Isto foi algo em que nunca cri, muito menos naquela tarde. 
   Era inverno, como sempre em São Joaquim. Completava quase um ano que poucas almas eram vistas nas redondezas da Igreja Matriz, já que era ali que o sinistro acontecia. Sete mortes em demasiado curto período de tempo e nem ao menos um suspeito encontrado. Nossa cidade, tão alegre e frequentada, tornou-se sinônimo de desgraça. Nunca temi a morte, pois a tive sempre como consolo; por tal razão continuava circulando sem medo algum. Enquanto caminhava, perdido em meus pensamentos, dei-me conta de onde estava: no local do último crime. O ar rarefeito, costumeiramente frio, tornou-se cortante em minha face e rígido aos meus pulmões. Ao virar-me a fim de partir, minhas trêmulas pernas traíram-me, precipitando-me a queda. No chão, vi uns singelos óculos pretos, que trouxe pela mão para mais perto.       
    Por instinto, ajustei-os próximos aos olhos. Um arrepio agônico trespassou-me a espinha; pude ver os cinco minutos finais da mais recente vítima do assassino. O que me pareceu um pesadelo tornou-se o inferno: pude ver o rosto do atirador, e este era, contra toda e qualquer probabilidade, meu próprio pai.    
    No caminho para casa, refleti sobre o homem que criou-me só - frio e calculista, porém nunca cruel. Já em meu quarto, pensei sobre o que faria. Cogitei chamar a polícia, mas quem acreditaria em um pivete de 16 anos? Escondi minha descoberta por duas semanas, até que aquilo ocorreu novamente. Descobri uma força de revolta descomunal. Busquei, sofregamente, evidências até encontrá-las, óbvias e nítidas, na cômoda de meu pai; nela havia uma lista, na qual o único nome ainda não riscado era o meu. Atônito, virei-me e, perturbadoramente, deparei-me com meu pai, observando-me com sua pistola em mãos. Do porão, todas as manhãs, ouvia as notícias sobre meu "desaparecimento", seguidas da vinda do homem com minha refeição diária. Isto se seguiu até o dia de meu suicídio.

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