23 março 2014

CONTO TRANSCENDENTAL






AMOR ALÉM DA VIDA

            Reza a lenda que de sua primeira encarnação subiu íngremes montanhas de cascalhos mortais, alimentando-se de cascas de jatobá, e mitigando a sede com os escassos Cipós-d’água que encontrava em seu itinerário.
            Em momento algum as mortificações físicas puderam alquebrar-lhe o espírito. Não vertera uma única lágrima.
            Foram quatro dias, quatro noites até chegar ao seu destino de carnificina.     
            O aço de sua espada perdeu o brilho ao assassinar sua primeira presa, que cochilava no posto de vigilância mais avançado: uma das mãos comprimindo a boca e o nariz da vítima; a outra forçando passagem com a lâmina letal, rasgando pele, músculos, entranhas, ossos, músculos, pele, até surgir do outro lado do corpo que voltava a dormir, agora para sempre.   
            Depois desse, foram outros três vigias, cujas mortes similares sugeriam uma encenação macabra. Ao fim da noite, dezoito pessoas jaziam, alguns pelo caminho, outros em seus leitos. Um único homem, sentado em uma enorme cadeira de carvalho negro, ainda retinha o fôlego da vida que lhe escapava da ferida aberta no peito. Os olhos dilatados miravam um menino posto sobre a mesa em decúbito dorsal, seu primogênito. O assassino ergueu a espada em manobras marciais ágeis e sincronizadas. O menino não teve tempo de gritar, quem gritou e chorou antes de morrer foi o homem que já deslizava pelo braço da cadeira, a qual nem por isso perdeu seu equilíbrio imóvel.
             Em momento algum as mortificações físicas puderam alquebrar-lhe o espírito. Não vertera uma única lágrima.
             Pronunciara uma frase apenas, ao nascer do quinto dia:
             ̶ Tal qual me fizeram, vim e lhes fiz o mesmo!
            Já em sua segunda encarnação, montara tocaia sobre um lajedo em um dos flancos de um desfiladeiro. Ficara deitado ali, estático, por mais de trinta horas. À noite, o frio enregelava-lhe todas as articulações do corpo. De dia, com o sol em zênite, sentia o corpo fritar sobre a pedra escaldante. Os lábios partiam-se e sangravam em consequência da desidratação.
            Em momento algum as mortificações físicas puderam alquebrar-lhe o espírito. Não vertera uma única lágrima.
            O rifle Winchester, calibre 44 apontava para baixo. Pela alça de mira, via-se o estreito caminho, distante dali não menos do que trezentos metros. Aos poucos, o bando de aborígenes ocupou todo o espaço do grotão afunilado. O atirador suspendeu a respiração, fechou o olho esquerdo sobre a coronha da arma e disparou dois tiros quase que simultâneos, embora cada qual dirigido a um dos extremos da farândola de indios. Mortos à testa e à retaguarda do pelotão, os selvagens não se decidiam por qual rumo tomar. Os tiros que se sucederam, tinham os mesmos destinos dos anteriores, abatendo um índio à frente, outro atrás do aglomerado em pânico. Em menos de um minuto, todos foram mortalmente alvejados. Não obstante a rapidez com que tudo acontecera, ao descer a encosta arenosa, com a Winchester em bandoleira, contabilizava 34 mortes. Percorreu toda a área da chacina e encontrou um selvagem que agonizava. Pousou o cano quente da arma entre os olhos esbugalhados do moribundo, exatamente onde começava uma listra negra de tinta que ia até a ponta do nariz, cujas ventas dilatavam no estertor de seu martírio.
             ̶  Dooda... dooda!  ̶  , dizia o índio. O justiceiro não conhecia o idioma navajo, mas pôde entender aquela palavra, o que não poderia era atender a ela. O disparo ecoou no desfiladeiro, o índio permaneceu com seus olhos muito abertos. Agora uma listra de sangue escorria por sobre  a pintura negra que lhe adornava o nariz. Preso à tanga do cadáver, ele reconheceu a escalpo da esposa e da filha. Lisos e dourados, os cabelos esvoaçavam ao sabor do vento.
            Em momento algum as mortificações físicas puderam alquebrar-lhe o espírito. Não vertera uma única lágrima.
            Dizem que de sua terceira encarnação, preparara um carneiro guisado para vinte comensais. Todos soldados, tendo entre 25 e 30 anos de idade. Passados quinze ou vinte minutos, espasmos musculares dolorosos e dificuldade em respirar puseram em pânico os convivas que compunham a mesa. Ao guisado, ele acrescentara uma poderosa dosagem de estricnina. Entre gemidos e súplicas, as vítimas do irreversível envenenamento, arrastavam-se pelo chão, ora escumando pela boca, ora regurgitando golfadas hemorrágicas, compondo um genuíno circo dos horrores.
            Em momento algum as mortificações físicas puderam alquebrar-lhe o espírito. Não vertera uma única lágrima.
            Assistira impressionado à resistência do último soldado a morrer: ou porque comera menos do que os outros, e portanto ingerira menos do veneno, ou porque sua constituição física lhe garantia maior tolerância àquela droga. De qualquer forma, sua luta pela vida também chegava ao fim. Provavelmente, pela pouca idade, antes do espasmo derradeiro, clamava o socorro materno. Por três vezes, enquanto a energia vital lhe abandonava o corpo contaminado, balbuciou:
           ̶  Mãe... mãe... mãe...
            O gourmet assassino pôde então reviver na memória o pelotão de fuzilamento atirando contra sua mulher e seu filho, este protegido pelo abraço daquela. Após a saraivada, ouvia-se, extinguindo pouco a pouco, a voz chorosa do menino:
           ̶  Mãe... mãe... mãe...
          Em momento algum, as mortificações físicas puderam alquebrar-lhe o espírito. Não vertera uma única lágrima.
         Muito tempo transcorreu. Porém em sua última encarnação, passou duas horas preso em um trânsito desumano. Por dez horas, sem comer e sem beber, analisando documentos fiscais, planilhas e gráficos, não conseguiu detectar o rombo financeiro sofrido pela empresa em que trabalhava. A demissão era inevitável. Os insultos do patrão, previsíveis.
           Em momento algum as mortificações físicas puderam alquebrar-lhe o espírito. Não vertera uma única lágrima.
          Em casa, mais cedo que o normal, encontrou a mesa posta, a esposa em seu vestido vermelho de renda. O corpo exalando o perfume de um banho recente. Lisos e dourados, os cabelos esvoaçavam ao sabor do vento que entrava pela janela da sala. A filhinha dormia no sofá. Seus cabelos lisos e dourados escondiam um pequeno urso de pelúcia. Foi então, segundo contam, que a esposa sorriu para ele, o semblante ávido de amor. E ele pôde ver a própria imagem nos olhos dela. Estava sério, estranhamente, a fisionomia transmudada.
             Nesse momento as mortificações físicas puderam alquebrar-lhe o espírito, e ele vertera uma infinidade de lágrimas. Chorou por um longo tempo, abraçado à esposa a quem tão bem desejava. Depois, finalmente, desencarnou!







    

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