06 setembro 2012

SÓ DESTINO MESMO


   




    

     João era mais ou menos assim: uma vida sem vida. Seus suspiros cansados desagradavam os poucos lugares que ele frequentava, mais por obrigação do que por gosto. Tinha uma aura cinza, apagada. Seu rosto todo dia e toda noite apresentava o mesmo costumeiro desânimo de asmático, que cada segundo de vida dói mais que parto. Sem cor no rosto, até mesmo a mulher que o gerou no mundo não lhe tinha paciência. Existem pessoas assim que simplesmente não se encaixam no sistema, estão solitárias e dentro de si reside uma felicidade amarga de levar a vida que levam. E só não param para pensar porque se o fizessem seria o seu fim.

    Um dia, aparentemente pacato no seu sempre silêncio, trabalhava colocando ovos, trigos e materiais de limpeza em sacolas plásticas. A próxima mulher da fila recusou as sacolas, falando sobre o aquecimento global e usando expressões complicadas. Ele, que geralmente não fitava os clientes nos olhos, não pôde evitar, pelas palavras incomuns proferidas. Assim que pôde olhar com atenção, sentiu ódio. Porque sua infelicidade lhe obrigava a sentir ódio de pessoas assim como ela: felizes, simpáticas e que, provavelmente, dariam a vida por um desconhecido.

    – A senhorita tem certeza? –, perguntou a voz áspera que deixava claro o desagrado.

    – Tenho sim, mas, se puder me ajudar, ficaria grata –, respondeu gentilmente. O homem assentiu, contudo logo se encheu de arrependimento. A moça irradiava alegria.

    – Você parece triste –, comentou ela.

    – Você parece feliz –, retrucou tentando esconder a surpresa. Ninguém se preocupava. E o fato de alguém afirmar o que há tempo já sabia. O fato de alguém dar importância lhe fez sentir menos rato e mais pessoa. Não sabia se rato era a palavra certa, rato era incômodo e ele era pior que incômodo, simplesmente não fazia diferença alguma para a humanidade.

    Os dois conversaram por horas. Tornaram-se apaixonados e a vizinhança inteira estranhava a união que não podia se dizer que era por interesse, pois o homem não tinha bens nem herança familiar que prezasse. Mas como o destino tem seus preferidos e odiados, foi descoberto que a mulher doce e carinhosa sofria de doença terminal.

    E era bem diferente ser sempre um nada, ser nada virar rotina, e ser nada depois de antes se sentir alguma coisa. A morte foi necessária.
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TEXTO DA ALUNA ALEXIA C. T. MACHADO
( 1° ANO B - COLÉGIO DOS SANTOS ANJOS )


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FONTE: http://www.clicrbs.com.br/anoticia/jsp/default2.jsp?uf=2&local=18&source=a3872898.xml&template=4191.dwt&edition=20326&section=1186





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