19 agosto 2012

Ministros e medalhas ( LYA LUFT )











   Estes são dias de competição, superação, decepções e premiações, na Olimpíada esportiva, mas também no enfrentamento entre justiça e impunidade no triste processo chamado mensalão que nos aflige. Ainda longe do final, quero, aqui do meu ponto de vista, conceder uma medalha de ouro ao procurador-geral da República, Roberto Gurgel, com o respeito, a admiração e o reconhecimento de uma brasileira preocupada. Medalha pela serenidade, compostura, precisão, tecnicidade jurídica, evidências tantas vezes comprovadas, citadas em dia e página. Pela coragem, que não há de ser pouca. Pela possibilidade de que prevaleça a justiça, punindo-se culpados e absolvendo-se inocentes.

   Sou filha de professor de direito e diretor de faculdade de direito até sua prematura morte. A Senhora Justiça era personagem em nosso cotidiano: lá estava na escrivaninha dele uma estatueta de prata da referida dama vendada, em uma das mãos a balança, na outra a espada. Andam meio esquecidas por aqui, ela e suas parceiras Decência, Integridade, Bravura. O resultado da luta aqui travada agora, porém, pode curar feridas, e abrir caminhos para a renovação neste país.

    Agora, à Olimpíada esportiva: admirável a organização britânica. Solenidade e bom humor discreto e elegante. Belíssima a abertura, e motivo de orgulho nosso a ex-ministra Marina Silva ser uma das personalidades mundiais ligadas à paz e à preservação da natureza a segurar a bandeira desse evento. (Infelizes comentários de nossas autoridades nem merecem ser aqui citados: não gasto bom papel com tema ruim.) Esperemos que na Olimpíada esportiva do Brasil, em quatro anos, a organização seja parecida, dispensados os comentários e atitudes desastrosas que nos tornariam pequenos aos olhos do mundo.

      Nosso país não está se saindo muito bem até agora: é de espantar que nossos atletas consigam medalhas de bronze e alguma de ouro. Enquanto escrevo, uma segunda dourada aparece, um atleta não muito badalado, que superou as nossas falhas com suas virtudes: transbordando decência, disciplina, humildade e uma enorme bravura. Agradecendo, pediu ao Brasil mais oportunidades e estímulo, mais cuidado com os jovens atletas, coisas que não recebem nos duros anos de sua preparação: muitos e excelentes centros de treinamento, preparadores bem pagos, ótimo atendimento médico, os melhores psicólogos que os ajudem a enfrentar, além do sobre-humano esforço físico, o forte desgaste emocional. Quase não vi atletas estrangeiros deprimidos ao obter um bronze, conscientes de estarem entre os três melhores do mundo em sua categoria, mas muitos dos nossos ficaram abatidos recebendo a mesma medalha: talvez a gente só os incentive a valorizar o máximo. Como o pai que não admite que seus filhos não sejam em tudo os primeiros.

    O que o Brasil tem conseguido nesta Olimpíada é muito se comparado ao pouco que oferecemos. Nossos adversários vêm de países que, mesmo pobres alguns, os tratam como príncipes. Não vemos atletas estrangeiros procurando oportunidades no Brasil, mas os nossos muitas vezes precisam sair daqui para buscar condições de trabalho, reconhecimento, crescimento e sucesso. Assim, muitos jovens intelectuais, cientistas, universitários, acabam indo embora, pois aqui não encontram estímulo nem trabalho à sua altura. Ou são aplaudidos no momento do sucesso, da descoberta, da medalha, e depois esquecidos. A busca da excelência em todos os campos da atividade humana, desde a dignidade básica até a educação, a saúde, a segurança, oportunidades — hoje incluindo os esportes —, não tem sido prioridade nossa.
    Voltando aos ministros do Supremo: neles está nossa esperança de que esses que por anos a fio “macularam nossa pátria” sejam punidos, se provada a sua culpa. Poderemos então respirar com peito mais desafogado e receber, como povo e como indivíduos, uma verdadeira medalha de ouro. O fardo que carregamos, nós que nos informamos, nos preocupamos, e lutamos pelo bem do Brasil, tem sido pesado demais.

 
REVISTA VEJA ( 15 de agosto de 2012 )


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