05 novembro 2010

UM VESTIDO NOVO




         Juanírio vivia como vivemos nós. Trabalhava, sonhava, sofria. Tinha, na vida, apenas duas alegrias: o dia de pagamento e o matrimônio com Josélia.   Na verdade sua única alegria era a esposa. Quando recebia seu ordenado, chegava a casa sorrindo nos olhos da mulher e dizia mês após mês:                                    
       Vão sentá e vê as conta, dessa vez eu acho que consigo comprá aquele seu vestido! Josélia sentava indiferente, jogava a cara pro lado e a apanhava com a mão espalmada. Ela sabia, como sempre ocorria naquele dia, que separado o dinheiro do aluguel, da água, da luz e do mercado, o marido repulsivamente acanhado resmungaria:
      Não sobrou de novo...                                
      A alegria de Juanírio acabava nesse instante, mas a sua esperança e o amor pela companheira tornava-se ainda maior. Doía de tão intenso. Era forte, nosso homem, o trabalho árduo e pouco rentável dera-lhe essa recompensa que só lhe valia pela admiração de Josélia. Enquanto mexia a argamassa ou carregava tijolos, lembrava a voz sussurrada da amiga: –  Como é forte o meu amorzão! Juanírio pensava e ria orgulhoso, às vezes temia que alguém lesse sua mente, conhecesse sua intimidade.
      Entrou um dia pela porta do escritório, lugar desconhecido, limpo e arejado. Resolveu fazer um empréstimo da firma e dar um basta àquela situação insustentável. Compraria o vestido da esposa. Praguejou apertando os dentes:
     – É hoje ou nunca mais!  Nem em seus mais ditosos sonhos imaginava que fosse tão fácil. Pedira a tarde de folga e zapt! Lá estava nos fundos da casa, com o vestido embrulhado entre os braços e sentindo uma alegria que há muito não experimentava.  Antes de abrir a porta ele teve a nítida certeza de que estava mudando sua vida e segredou de si para si:
     Vou te matá de alegria, mulhé!        
      Assim que se aproximou da porta do quarto notou que Josélia não estava só, e sentiu-se um gigante quando a ouviu suspirar seu nome:
      Juanírio...
       O pior em ser um gigante é o tombo, e este caíra num buraco sem fundo ao ouvir a esposa continuar:
    – Não chega a seus pés!
       Nosso amigo tomara um susto arrasador. Tentara sorrir do absurdo que pensara, mas após alguns minutos de silêncio, um gemido infame revelava o que estava acontecendo. Ele ficara imobilizado, queria fazer algo. Ir até o quarto. Precisava ver com seus olhos aquilo que seus ouvidos mostravam. Era inútil, pois não conseguia se mover. Ouvia, apenas. Reconhecia a voz, mas desconhecia os gritos obscenos, os pedidos vergonhosos que ela espalhava no interior de sua casa.
      Foi então que o gigante recuperara-se da queda. Chutou a porta de papel e repetiu quase a mesma frase: 
     Vou te matá, maldita!
     Juanírio empunhava uma faca que surgira em sua mão como num passe de mágica. Ergueu-a no ar e logo caíra três metros para trás. A princípio não entendia o que se passava. Havia muito sangue, mas vira a mulher vestir-se sem nenhum ferimento. Olhou o outro canto do quarto e viu um sargento de polícia, com um revólver em punho, nu da cintura para baixo.                         
      Achou graça da cena e riu sofrendo, com sangue na boca. Os dois espectadores olhavam-no abraçados e assustados. Ele sentiu que chegara a sua hora de morrer. Riu novamente, deu  meia volta arrastando-se pelo chão, esticou o braço que deslizava na poça de sangue, apanhou o embrulho com o vestido e esfaqueou-o até o seu último suspiro, que ocorreu entre uma facada e um riso.     
 
(Maurício Palmeira)

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