05 novembro 2010

A BARATA E O RATO




    Era uma dessas baratinhas brancas e nojentas, acostumadas à só imundície e ao monturo, comendo calmamente sua refeição composta de um pedaço de barata podre e um pedaço de tomate podre (1). Chegou junto dela um Rato transmissor de peste bubônica e lhe disse: “Comadre, ontem tive uma aventura extraordinária. Estive num lugar realmente impressionante, como você, comadre, certo jamais encontrará em toda a sua vida.” Barata comendo. “o lugar era uma coisa que realmente me deixou de boca aberta” -   prosseguiu o Rato -  “tão espantoso e tão diferente é de tudo que tenho visto em minha vida de roedora” (2). Barata comendo. “Imagina você” - prosseguiu o Rato - “que descobri o lugar por acaso. Vou indo numa das cavidades subterrâneas por onde passeio sempre, entrando aqui e ali numa casa e noutra, quando, de repente, percebo uma galeria que não conheço. Meto-me nela, um pouco amedrontado por não saber onde vai dar e de repente saio numa cozinha inacreditável. O chão limpo, que nem espelho! Os espelhos, com um de brilho de cegar! As panelas, polidas como você não pode imaginar! O fogão, que nem um brinco! As paredes, sem uma mancha! O teto, claro e branco como se tivesse sido acabado de pintar! Os armários, tão arrumados e cuidados que estavam até perfumados! Poeira em nenhuma parte, umidade inexistente, no chão nem um palito de fósforo...”
    E foi aí que a Barata não se conteve. Levou a mão à boca num espasmo e protestou: “Que mania! Que horror! Sempre vem contar essas histórias exatamente no momento em que a gente está comendo!”
   MORAL: PARA O VÍRUS A PENICILINA É UMA DOENÇA.
   SUBMORAL: A ECOLOGIA É MUITO RELATIVA.
   (1) Causando inveja a muita gente
   (2) O rato rói. É sua sina.
  
(Millôr Fernandes)




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