03 fevereiro 2012

O QUE É O SUCESSO NA VIDA?

















Aos 02 anos... sucesso é... conseguir andar.
Aos 04 anos... sucesso é... não fazer xixi nas calças.
Aos 12 anos... sucesso é... ter amigos.
Aos 18 anos... sucesso é... ter carteira de motorista.
Aos 20 anos... sucesso é... fazer sexo.
Aos 35 anos... sucesso é... dinheiro.

Aos 50 anos... sucesso é... dinheiro.
Aos 60 anos... sucesso é... fazer sexo.
Aos 70 anos... sucesso é... ter carteira de motorista.
Aos 75 anos... sucesso é... ter amigos
Aos 80 anos... sucesso é... não fazer xixi nas calças.
Aos 90 anos... sucesso é... conseguir andar.

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29 janeiro 2012

O Operário Em Construção


























E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
- Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
- Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
(Lucas, cap. V, vs. 5-8.)

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.


De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.


Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.


Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.


Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.


E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.


E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:


Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.


E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.


Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
- "Convençam-no" do contrário -
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.


Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!


Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.


Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.


Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!


- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.


E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.


Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.

Vinicius de Moraes

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27 outubro 2011

QUARTETO PARANOMÁSICO




"A DIVA QUE PARTE LINDA EM SEU PORTE.
 A VIDA, QUE TARDE FINDA, É SORTE.
 A IDA  QUE ARDE  AINDA  EM FEL FORTE.  
 A LIDA,  DE  MARTE VINDA, É MORTE."



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O Pagador de Promessas (Dias Gomes)



RESUMO DA OBRA


Trata-se de um texto escrito para teatro, ou seja, para ser levado ao palco, ser encenado. A peça é dividida em três atos, sendo que os dois primeiros ainda são subdivididos em dois quadros cada um. Após a apresentação dos personagens, o primeiro ato mostra a chegada do protagonista Zé do Burro e sua mulher Rosa, vindos do interior, a uma igreja de Salvador e termina com a negativa do padre em permitir o cumprimento da promessa feita. O segundo ato traz o aparecimento de diversos novos personagens, todos envolvidos na questão do cumprimento ou não da promessa e vai até uma nova negativa do padre, o que ocasiona, desta vez, explosão colérica em Zé do Burro. O terceiro ato é onde as ações recrudescem, as incompreensões vão ao limite e se verifica o dramático desfecho.
A ação da peça tem início nas primeiras horas da manhã (4 e meia), numa praça, em frente a uma igreja, em Salvador. O personagem denominado Zé do Burro carrega uma cruz e se aloja na frente da igreja. A seu lado Rosa, sua mulher, apresentada como tendo "sangue quente" e insatisfação sexual.
Zé espera a igreja abrir para cumprir sua promessa, feita a Santa Bárbara. Aparecem no lugar, algum tempo depois, Marli e Bonitão: ela prostituta; ele, gigolô. Há uma clara relação de exploração e dependência entre eles. Encontrando Zé, Bonitão dirige-se a ele e percebe ser alguém ingênuo. Rosa, por sua vez, conversando com o gigolô, queixa-se de Zé, contando que ele, na sua promessa, dividiu suas terras com lavradores pobres. Percebendo a ingenuidade, Bonitão propõe-se a providenciar um local para Rosa descansar. Zé não só aceita, como incentiva. Saem os dois, Bonitão e Rosa, de cena.
Aos poucos, começa o movimento ao redor da praça. Aparecem a Beata, o sacristão e o Padre Olavo, titular da igreja. Zé explica a promessa: Nicolau foi ferido com a queda de uma árvore; estando para morrer, Zé fez a promessa. O burro - Nicolau é um burro! - salva-se. Ingenuamente, Zé revela ter usado as rezas de Preto Zeferino e feito a promessa num terreiro de candomblé, a Iansã, equivalente afro de Santa Bárbara. O padre fica escandalizado. Estabelece-se o conflito. O sincretismo Iansã-Santa Bárbara, natural para Zé do burro, é um grandioso pecado para o padre. A situação agrava-se com a revelação da divisão de terras. Impasse. O padre manda fechar a igreja e proíbe o cumprimento da promessa. Zé do burro fica atônico.
Duas horas mais tarde, já a movimentação no lugar é intensa. O Galego, dono do bar, abriu seu estabelecimento. Surgem Minha Tia, vendedora de acarajés, carurus e outras comidas típicas, Dedé Cospe-Rima, poeta popular, ao estilo repentista e o Guarda. Zé do burro quer cumprir a promessa. O Guarda tenta intervir. Rosa reaparece com "ar culpado".
Chega o Repórter. Seguindo a linha do oportunismo sensacionalista, o repórter quer tirar vantagens da história de Zé do Burro. Quer torná-lo um mártir, para virar notícia. Enquanto isso descobre-se que Rosa trai Zé do Burro com Bonitão. Marli faz um pequeno escândalo, denunciando a história Rosa-Bonitão. Depois disso às três da tarde, Dedé oferece poemas para Zé, a fim de
derrotar o Padre. Aparecem, em momentos subsequentes, o capoeirista Mestre Coca e o policial, o Secreta, chamado por Bonitão, ficando ambos, por enquanto, nas cercanias. Zé começa a perder a paciência e arma uma gritaria. O padre reage. Chega o Monsenhor, autoridade da igreja, propondo a Zé uma solução: ele, Monsenhor, na qualidade de representante da Igreja, pode liberar Zé da promessa, dando-a por cumprida. Zé não aceita, dizendo que promessa foi feita à Santa e só ela poderia liberá-lo. Segue o impasse. Zé explode novamente e avança com a cruz sobre a Igreja. O padre fecha a porta. Zé, já desesperado, bate com a cruz na porta. O drama é total.
Ao entardecer. Muita gente na praça e nos arredores da Igreja. Há uma roda de capoeira. O Galego, oportunista, oferece comida grátis a Zé, pois a história está trazendo movimento ao seu bar. O Secreta, no bar, avisa que a polícia prenderá Zé, ameaçando os capoeiristas, caso eles interfiram. Marli volta. Ofende Rosa, ofende Zé. O protagonista parece mudar de atitude. Resolve ir embora "à noite". Rosa quer ir embora “já”. Conta que Bonitão avisou a polícia. O repórter retorna, tentando montar um verdadeiro circo em torno do Zé, com o objetivo de vender o jornal. Chega Bonitão e convida Rosa para ir com ele. Zé pede a ela para ficar. Rosa hesita, a princípio, mas, em seguida, vai com Bonitão. Mestre Coca avisa Zé sobre a chegada da polícia. Zé está perplexo: "Santa Bárbara me abandonou". Da igreja saem o Sacristão, o Guarda, o Padre e o Delegado. Tensão da cena acentua-se. Zé ainda tenta, ingênua e inutilmente, explicar alguma coisa. Ao ser cercado, puxa uma faca. As autoridades reagem. Os capoeiristas também.
Em meio à briga e confusão, de repente, um tiro espalha gente para todos os lados. Zé é mortalmente ferido. Mestre Coca olha para os companheiros, que entendem a mensagem. Os capoeiristas tomam o corpo do
Zé, colocam-no sobre a cruz e, ignorando padre e polícia, entram na igreja, carregando a cruz.
A peça de Dias Gomes tem nítidos propósitos de evidenciar certas questões socioculturais da vida brasileira. Assim, ganha força no drama a visão crítica quanto:
a) à intolerância da Igreja Católica, personificada no autoritarismo do Padre Olavo, e na insensibilidade do Monsenhor convocado a resolver o problema;
b) à incapacidade das autoridades que representam o Estado - no episódio, a polícia - de lidar com questões multiculturais, transformando um caso de diferença cultural em um caso policial;
c) à imoralidade da imprensa, simbolizada no Repórter, um mau-caráter,
completamente alheio ao drama de Zé do Burro, mas muito interessado na repercussão que a história pode ter;
d) ao grande fosso que separa, ainda, o Brasil urbano do Brasil rural: Zé do Burro não consegue compreender por que lhe tentam impedir de cumprir sua promessa; os padres, a polícia, a imprensa não conseguem compreender quem é Zé do Burro, sua origem ingênua, com outros códigos culturais, outras posturas. Além disso, a peça mostra as variadas facetas populares: o gigolô esperto, a vendedora de quitutes, o poeta improvisador, os capoeiristas.
O final simbólico aponta em duas direções. Em primeiro lugar a morte do Zé do Burro mostra-se com fim inevitável para o choque cultural violento que se opera na peça: ninguém, entre as autoridades da cidade grande, é capaz de assimilar o sincretismo religioso tão característico de grandes camadas sociais no Brasil, especialmente no interior nordestino. Em segundo lugar, a entrada dos capoeiristas na igreja, carregando a cruz com o corpo, sinaliza para rechaçar a inutilidade daquela morte: os populares compreenderam o gesto de Zé do Burro.


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23 outubro 2011

Memórias de um Sargento de Milícias - Manuel Antônio de Almeida
























      Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida, é obra que se destaca do contexto literário romântico brasileiro. Publicado em folhetim de junho de 1852 até julho de 1853, depois em dois volumes, um em dezembro de 1854, outro em janeiro de 1855, esse romance sofre o silêncio da crítica. A primeira justificativa para tal atitude está no fato de sua narrativa não apresentar elementos que atendam ao gosto do público burguês da época, não só no tom, que é escrachado, irônico, mas também na história apresentada e no tipo de personagem que a interpreta.
     O desvio aos padrões românticos já se percebe pela origem do protagonista, filho de uma pisadela e de um beliscão – estranha forma de cortejo entre seu pai (Leonardo Pataca) e sua mãe (Maria Saloia) que garantiu a atribulada união do casal. Nasce daí Leonardinho, que já de bebê mostra-se um tormento, com sua capacidade de chorar uma oitava acima do normal. Na infância, a melhor definição para seu comportamento é “flagelo”, tal o terror que causa aos que o rodeiam.
    Uma importante mudança efetiva-se ainda na meninice. Seu pai flagrou Maria Saloia em flagrante de adultério, o que provoca a separação (espalhafatosa, por sinal) do casal e o abandono da criança nas mãos do padrinho, o Barbeiro.
     Na realidade, deve-se lembrar que Leonardo Pataca é figura pândega que por muito tempo sofrerá nas mãos do Amor. Pouco depois da separação, apaixona-se por uma cigana, que o abandonará. Na esperança de reconquistá-la, chega a participar de um ritual de magia negra, o que o faz ser humilhantemente preso pelo temido chefe da polícia do Rio de Janeiro da época, o Major Vidigal. Ainda assim, ao descobrir que o motivo do desprezo é a presença de um outro homem, um padre (Mestre de Cerimônias), apronta vingança extremamente maquiavélica: com a ajuda de um amigo, Chico-Juca (tremendo arruaceiro), consegue causar imensa confusão na festa de aniversário da cigana, provocando a prisão de vários presentes, inclusive do sacerdote, que estava, em roupa íntima, no quarto da cigana. Por esses elementos percebe-se o tom do romance, em que predomina a  movimentação constante, intensa. Parafraseando um importante crítico, Antônio Cândido, há a impressão de uma intensa sarabanda.
     Complicações também vão existir do lado de Leonardinho. Seu padrinho entrega-se todo ao menino, estragando-o com tanto mimo, tal qual o protagonista de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Seu projeto é transformá-lo em padre, mas o garoto é um completo desastre na escola. Nem mesmo sua atividade como coroinha é perfeita, pois, tão mais preocupado em brincar e aprontar do que em exercer sua função corretamente, acaba sendo expulso.
Assim, de fracasso em fracasso, Leonardo acaba-se tornando um exemplo perfeito da vadiagem. Até que surge uma interessante oportunidade: casar-se com a abastada Luisinha, sobrinha da rica D. Maria. Porém, Leonardo precisa vencer dois obstáculos para conquistar o coração de sua amada: o caráter desligado de Luisinha e a concorrência do esperto José Manuel. A Comadre, sempre protetora do afilhado, consegue eliminar o rival, atribuindo-lhe falsamente a responsabilidade do rapto de uma moça.
     No entanto, o romance passa a impressão de que as personagens das classes baixas não são donas de sua vida, como se estivessem nas mãos do acaso – o que as deixa numa posição extremamente injusta. Dessa forma, a vida de Leonardo sofre um desajuste extremo. Com a morte do Barbeiro, o rapaz volta a ficar sob a guarda do seu pai, num ambiente mergulhado de desentendimentos, o que provoca sua fuga – é o momento em que reencontra o amigo de traquinagens dos tempos de coroinha e, morando agora com este, conhece Vidinha, por quem se apaixona. O projeto de casamento é esquecido, o que é vantagem para José Manuel, que, com a ajuda do Mestre de Rezas, tem seu lugar garantido na casa de D. Maria e, consequentemente, alcança o casamento.
     Ainda assim, a dança da narrativa não para. A situação em que Leonardo está não é estável. Seu enlace amoroso com Vidinha irrita dois primos dela, que já a disputavam. Dessa forma, tramam contra o intruso invocando a autoridade legal: Leonardo quase é preso por crime de vadiagem. Sua sorte é conseguir fugir, num lance que deixa Vidigal extremamente irritado com a afronta. Só escapa da vingança do poderoso porque a Comadre arranja-lhe um emprego na Ucharia (espécie de almoxarifado) Real, o que o afasta do crime de vadiagem.
No entanto, num episódio muito engraçado, Leonardo é flagrado em situação inadequada (“tomando caldinho”) com a esposa de um funcionário da Ucharia, o Toma-Largura. Tal escândalo tem consequências complicadas. A primeira é a perda do emprego. A segunda é a explosão de ciúme de Vidinha que, ao saber do motivo da demissão, vai tomar satisfações na Ucharia. Leonardo segue-a, na tentativa de impedi-la de levantar mais escândalo, mas, antes que entre no antigo local de trabalho, acaba preso por Vidigal.
     O encarceramento provoca a aproximação entre Vidinha e Toma-Largura e a elevação de Leonardo a soldado (granadeiro). Ainda assim, nosso protagonista não se acerta, pois acaba detido quando é flagrado participando de uma brincadeira em que se ironizava o Major (Papai Lelê Seculorum) e novamente quando se descobre que ajudou na fuga de um procurado pela polícia, o Teotônio. Na realidade, essas faltas revelam uma fraqueza de caráter motivada mais pela bondade de Leonardo do que por uma suposta malignidade.
     Por infringir demais a ordem, o castigo de Leonardo pode incluir algo mais grave do que o encarceramento: chibata. A Comadre e D. Maria vão, então, interceder junto a Vidigal e, para tanto, utilizarão uma pessoa bastante influente: Maria Regalada, caso antigo do policial. Com a intervenção delas e principalmente com a promessa de que, em troca, finalmente iria morar com Maria Regalada, Vidigal não só liberta Leonardo, mas também o promove a sargento de milícias.
     A partir de então a narrativa assume estabilidade. Morre José Manuel, Luisinha fica viúva para pouco depois se casar com Leonardo, que, tendo dado baixa de seu cargo, pode garantir uma situação tranquila para sua esposa.
     O enredo acima é elemento suficiente para mostrar o caráter sui generis da obra. Não há aqui a visão idealizada da realidade, mas uma inversão escrachada desses padrões. No lugar de heróis perfeitos, há anti-heróis, como Leonardo, que é vadio, e Luisinha, que é destituída de beleza e força de caráter. Tais elementos fazem com que alguns considerem a obra uma antecipação do Realismo, o que constitui um exagero, pois falta aqui o cientificismo, além da visão pessimista da existência humana.
     Aliás, a classificação desse romance é um tanto problemática. Se ao menos enxergar nela uma antecipação do Realismo é inadequado, é também impróprio considerá-lo um romance de costumes, em especial os do Rio de Janeiro do início do século XIX. Seria argumento favorável a essa classificação o expediente comum de quase todos os capítulos iniciarem-se com a descrição de um costume, como a festa dos ciganos, a procissão dos ourives, o desfile das baianas. Outro argumento seria a pobreza de nomes, o que faria suas personagens tornaram-se tipos, ou seja, representantes das diferentes classes sociais fluminenses da época (o Barbeiro, o Mestre de Cerimônias, o Tenente-Coronel, o Mestre de Rezas). No entanto, há como derrubar tal tese lembrando que esse simples fato pode ser na realidade creditado à fidelidade ao comportamento das classes baixas. Outro contra-argumento é a ausência na obra de muitos costumes da época.
     Pode-se lembrar, também, que Memórias de um Sargento de Milícias seria um romance picaresco. É, porém, outra classificação problemática, pois esse termo refere-se a um tipo de narrativa espanhola que apresentava personagens dos baixos estratos sociais e que praticavam crimes para driblar as dificuldades, principalmente fome. Não se deve esquecer que Leonardo não é um autêntico pícaro, pois está fixo ao Rio de Janeiro, não passa por dificuldades, nem sequer é personagem carregada de malignidade. Aceita-se, no entanto, tal rótulo se se adaptar a ele a ideia de malandragem. Assim, Leonardo seria o representante do malandro carioca. Até essa identificação merece ressalva, pois suas características não se prendem ao Rio de Janeiro, podendo ser encontradas em várias partes do país. Aceitando-se tais restrições, percebe-se que a obra cumpre um postulado romântico ao exibir um tipo brasileiro, apesar de bem diferente do índio, do sertanejo ou do burguês dos outros romances contemporâneos.
     Na realidade, para compreender Memórias de um Sargento de Milícias, deve-se aceitar todos essas classificações com cuidado e buscar outro aspecto marcante: a capacidade de descrever formas de comportamento social que espantosamente ainda são comuns hoje. O primeiro deles está nas constantes relações de apadrinhamento. As leis são sempre rígidas, mas com uma relação subterrânea, com os contatos certos, muito se consegue. Basta lembrar como a Comadre arranja emprego para Leonardinho, a possibilidade de D. Maria também lhe arranjar um emprego de rábula em algum cartório e até a maneira como Leonardo Pataca sai da prisão graças ao Tenente-Coronel. O outro aspecto está na confusão fácil que se faz entre Ordem e Desordem. Basta lembrar em que condições o Mestre de Cerimônias foi preso (de roupa íntima), ou mesmo como Major Vidigal recebeu as três advogadas do protagonista – meio formal (farda), meio informal (camisolão e tamancos). Mas o principal exemplo disso seria Vidigal, representante da ordem, ceder a impulso carnais e (passando para a desordem) soltar Leonardinho, que, representante da desordem, é promovido a sargento de milícias (passando para a ordem).

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Resumo do livro Inocência - Visconde de Taunay


























1 - O REGIONALISMO DE VISCONDE DE TAUNAY
         Foi um dos primeiros prosadores brasileiros a emprestar a linguagem coloquial regional em suas obras.
         Taunay tinha um agudo senso de observação e análise, aliado a uma vivência riquíssima da paisagem e da História do Brasil.
         Foi um ator não denominado pelo sentimentalismo, que soube conjugar as características fundamentais da estética romântica com grande acuidade na construção de tipos e na descrição das paisagens brasileiras. Focalizou os usos e costumes do interior do pais, em narrativas pitorescas.
         É notável como o narrador nos apresenta o choque de duas concepções de mundo extremamente diversas. Pereira, homem do sertão, preso a padrões estritos de comportamento, mantém sua bela filha Inocência reclusa. 

2. EM INOCÊNCIA:

         1. Taunay conta com franqueza seu relacionamento com uma jovem que conheceu no Mato Grosso, a partir dai percebemos a origem mais íntima da personagem-título de lnocência, protótipo da mulher sertaneja imaginada pelo autor.
         2. Taunay foi um autor além da maioria dos romancistas, entre os quais se incluíam alguns que, embora também usassem temas sertanistas, não tinham realmente muita experiência do interior brasileiro. Taunay, ao contrário, escrevia sobre o que conhecera. Aliás o próprio Taunay se manifestou sobre isso, embora não diminuísse de modo algum a importância e o valor dos outros romancistas.
         3. Nesse romance, o rigor do observador militar que percorreu os sertões mistura-se à capacidade imaginativa do ficcionista. O resultado é um belo equilíbrio entre a ficção e a realidade, raramente alcançado na literatura brasileira até então.
         4. Elabora diálogos com a coloquialidade graciosa e natural do novo sertanejo "Nocência", "Por que se tocou assim no quarto", "é bom não se canhar assim", "sestiando", "Nhor-sim", "quer mecê", mas também utiliza a linguagem culta.
         5. Reforça-se uma das principais características do Romantismo europeu: a concepção de um único e idealizado amor, cuja impossibilidade de realização leva os protagonistas à morte. (Inocência, era fiel ao seu princípio amoroso, foi capaz de morrer de tristeza em face da ausência definitiva do amado.
         6. Faz um retrato acurado de usos e hábitos do sertão mato-grossense, que são identificados desde elementos do vocabulário até a indicação dos hábitos que o texto apresenta, na paisagem, nos tipos humanos e na linguagem.
         7. Deixa claro que considera "injuriosa" a opinião que os sertanejos têm sobre as mulheres.
         8. Deixa bem claro que Cirino não era um homem do sertão, o que nos faz perceber a diferença marcante entre o noivo e o homem por quem Inocência morre.
         9. No período da obra, o romantismo brasileiro entrava em declínio e o Realismo se aproximava, portanto, esta obra é de transição para o Naturalismo por causa de uma grande e infalível característica o homem é produto do meio ou seja, as pessoas agem de acordo com o tipo de vida que levam.
         10. Predomina a emoção sobre a razão, além da supervalorização do amor.

3. ANÁLISE PSICOLÓGICA DOS PERSONAGENS

· INOCÊNCIA
         Tem uma grande beleza e delicadeza de traços, nem parece moça do sertão. Isso vai ser fundamental no despertar da paixão entre ela e Cirino e também na compreensão da atitude que ela irá tomar posteriormente, afinal, de alguma forma, ela não era uma típica moça do sertão. Essas características são importantes para a compreensão do desenrolar da história.

· MANECÃO
         Homem rude, mas decente, trabalhador, sério e acumulou fortuna, era dotado também de uma certa macheza.

· PEREIRA
         Condensa em si desconfiança e ingenuidade, além de ser durão e conservador.

· TICO
         Anão que vivia na fazenda, mudo, mas que foi capaz de entregar lnocência ao pai. Ele a vigiava e detinha profundo respeito e admiração pela mesma.

· MEYER
         Um naturalista, que teve a sinceridade de elogiar Inocência, acabou por ser vigiado por Pereira, mas era muito dedicado a profissão que exercia, portanto viajava muito.

· PADRINHO
         Aparece no romance com a desculpa de ajudar, mas não chega a tempo de salvar Cirino, era a única pessoa que poderia ter feito algo para ajudar o casal de apaixonados.

5. RESUMO

         "Pensando por vezes e sempre com saudades daquela época, quer parecer-me que essa ingênua índia foi das mulheres a quem mais amei." Visconde de Taunay
O romance é ambientado na confluência dos Estados de Mato Grosso, Minas Gerais, Goiás e São Paulo. Órfã de mãe desde o nascimento, Inocência é criada pelo pai, Pereira, um mineiro afetuoso, um sujeito conservador, durão, para quem os valores da palavra, da honra estão acima de tudo, até da felicidade da filha que ele ama.
         Pereira decide casar Inocência com Manecão Doca, homem honrado, trabalhador, rude e que acumulou fortuna. A história é sobre Cirino, um prático de enfermagem que se apresentava como médico (curandeiro) que errava pelo sertão e acaba na casa de Pereira. 
         Ele cura Inocência, filha deste, de malária e apaixona-se. Cirino foi o primeiro homem a despertar realmente as emoções do amor, criando nela uma grande perturbação íntima, pois estava prometida a Manecão. Aparece depois Meyer, um naturalista alemão, que viajava em busca de insetos, que após inocentemente elogiar a beleza de Inocência, passa a ser vigiado incessantemente por Pereira, dando oportunidade a Cirino de comunicar-se mais facilmente com a moça.
         Meyer fica por lá por que trazia uma carta de recomendação de Francisco (Chico) irmão de Pereira e sai mais tarde de volta a Saxônia para apresentar uma nova espécie de rara beleza que encontrou, à qual dá o nome de Papilio lnnocentia (uma borboleta).  O anão Tico era uma espécie de cão de guarda de Inocência.
         Com a partida de Meyer, as coisas se complicam, aumentando o medo de Inocência, que teme uma reação violenta do pai caso venha a saber do romance. A jovem instrui Cirino a procurar seu padrinho para que ele convença Pereira a concordar com o rompimento do compromisso com Manecão.
         Inocência herdeira da teimosia do pai, não abre mão de seu amor, então comunica ao pai a intenção de não se casar, inventa que sonhou com a mãe e esta lhe disse que o casamento não deveria se realizar. A jovem quase consegue atingir seus objetivos, quando derruba sua história. Ela, não conheceu a mãe, portanto não sabia que ela tinha um sinal no rosto, então ela pede desculpas ao pai, que declara que prefere vê-la morta a vê-la desonrada.
         Na ausência de Cirino, porém, o romance é descoberto através de Tico.
         Enquanto Cirino está fora Inocência e Manecão, se encontram e ela se recusa a viver com ele. A suposta desonra leva Manecão a perseguir e matar Cirino, que morrendo encontra o padrinho de Inocência que vinha lhe ajudar. Inocência também morre, só que de tristeza em face da ausência definitiva do amado.


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FIM DA JORNADA!!