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04 dezembro 2017
SOBRE A VIDA
Não sei se a vida é curta ou longa
demais pra nós,
mas sei que nada do que vivemos tem
sentido,se não tocamos o coração
das pessoas.
Muitas vezes basta ser: colo que
acolhe, braço que envolve, palavra
que conforta, silêncio que respeita,
alegria que contagia, lágrima
que corre, olhar que acaricia, desejo
que sacia, amor que promove.
E isso não é coisa do outro mundo, é o
que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela não seja nem
curta, nem longa demais, mas
que seja intensa, verdadeira, pura…
enquanto durar.”
(Cora Coralina)
CHORE, GRITE, AME
Chore, grite, ame...
Diga que valeu, que doeu,
Que daqui para a frente
Só vai melhorar...
Perdoe, insista,
Ame novamente...
Não leve a vida tão a sério...
Descomplique...
Quebre regras, perdoe rápido,
Beije lentamente...
Ame de verdade,
Ria descontroladamente
E nunca lamente nada
Que tenha feito você sorrir.
18 junho 2017
PEQUENAS MUDANÇAS
Abriu os olhos de novo,
Jurou já tivesse morrido.
Haviam lhe amarrado pés e mãos,
E ele ficara quase dependurado
No tronco daquela centenária
figueira.
O corpo todo marcado,
Hematomas e cortes.
Dois homens fizeram o “trabalho”.
Muitos o viam espancado
Como se não o vissem mesmo
assim.
Falavam em uma língua estranha
a ele.
A pele era branca, a alma nem
tanto!
Resistiu muitas horas,
Mas algum órgão dentro dele
fora destruído.
Antes de morrer viu um anjo à
imagem do pai.
Pai que morrera da mesma forma:
Assassinado.
O anjo beijou-lhe uma das
orelhas sangrentas,
E ele pôde finalmente entender
o que diziam
Aqueles homens tão brancos,
A alma nem tanto!
E toda sua história fez
sentido...
Apenas aos que liam as
palavras do poema:
̶ Vivemos cá no Brasil, no ano de 1820
De Nosso Senhor Jesus Cristo,
Porém essas criaturas em nada
conseguem evoluir!
Maurício Palmeira
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21 julho 2016
IMAGINO COMO SERIA
"Imagino como seria te amar
teria o gosto estranho das palavras
que brincamos
e a seriedade de quando esquecemos
quais palavras
imagino como seria te amar
desisto da ideia numa verbal volúpia
e recomeço a escrever
poemas.
(Ana Cristina Cesar, Poética. p. 201.)
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18 julho 2016
SOBRE A VIDA
Um dia…Pronto!…Me acabo.
Pois seja o que tem de ser.
Morrer: Que me importa?
O diabo é deixar de viver.
(Mario Quintana)
17 junho 2016
14 junho 2016
12 abril 2016
MANOEL DE BARROS - POESIA II
A poesia está guardada nas palavras — é tudo que
eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as
insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios.
MANOEL DE BARROS - POESIA
Não é por me gavar
mas eu não tenho esplendor.
Sou referente pra ferrugem
mais do que referente pra fulgor.
Trabalho arduamente para fazer o que é desnecessário.
O que presta não tem confirmação,
o que não presta, tem.
Não serei mais um pobre-diabo que sofre de nobrezas.
Só as coisas rasteiras me celestam.
Eu tenho cacoete pra vadio.
As violetas me imensam.
10 janeiro 2016
SEM MARGEM A DÚVIDAS
Se você ainda mantém
A intenção moral-visual
De só encarar homens de bem
Segue este meu conselho:
Sai da rua,
Vai pra casa,
Tranca a porta
E quebra o espelho.
(Millôr Fernandes)
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23 outubro 2015
SONETO DA HORA FINAL
Será assim, amiga: um certo dia
Estando nós a contemplar o poente
Sentiremos no rosto, de repente
O beijo leve de uma aragem fria.
Tu me olharás silenciosamente
E eu te olharei também, com nostalgia
E partiremos, tontos de poesia
Para a porta de treva aberta em frente.
Ao transpor as fronteiras do Segredo
Eu, calmo, te direi: – Não tenhas medo
E tu, tranquila, me dirás: – Sê forte.
E como dois antigos namorados
Noturnamente triste e enlaçados
Nós entraremos nos jardins da morte.
Vinícius de Moraes)
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DUAS ALMAS
Ó tu, que vens de longe, ó tu, que vens cansada,
Entra, e sob este teto encontrarás carinho:
Eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho,
Vives sozinha sempre, e nunca foste amada...
A neve anda a branquear, lividamente, a estrada,
E a minha alcova tem a tepidez de um ninho.
Entra, ao menos até que as curvas do caminho
Se banhem na nascente da alvorada.
E amanhã quando a luz do sol dourar, radiosa,
Essa estrada sem fim, deserta, imensa e nua,
Podes partir de novo, ó nômade formosa!
Já não serei tão só, nem irás tão sozinha:
Há de ficar comigo uma saudade tua,
Hás de levar contigo uma saudade minha.
(Alceu Wamosy)
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SUAVE CAMINHO
Assim... Ambos assim, no mesmo passo,
Iremos percorrendo a mesma estrada;
Tu - no meu braço trêmulo amparada,
Eu - amparado no teu lindo braço.
Ligados neste arrimo, embora escasso,
Venceremos as urzes da jornada.
E tu - te sentirás menos cansada,
E eu - menos sentirei o meu cansaço.
E, assim, ligados pelos bens supremos,
Que para mim o teu carinho trouxe,
Placidamente pela vida iremos,
Calcando mágoas. Afastando espinhos.
Como se a escarpa desta vida fosse
O mais suave de todos os caminho
(Mário Pederneiras)
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18 agosto 2015
TRATADO GERAL DAS GRANDEZAS DO ÍNFIMO
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.
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(Manoel de Barros)
QUADRILHA
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para o Estados Unidos, Teresa para o
convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto
Fernandes
que não tinha entrado na história.
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(Carlos Drummond de Andrade)
CANÇÃO FINAL
Oh! se te amei, e quanto!
Mas não foi tanto assim.
Até os deuses claudicam
em nugas de aritmética.
Meço o passado com régua
de exagerar as distâncias.
Tudo tão triste, e o mais triste
é não ter tristeza alguma.
É não venerar os códigos
de acasalar e sofrer.
É viver tempo de sobra
sem que me sobre miragem.
Agora vou-me. Ou me vão?
Ou é vão ir ou não ir?
Oh! se te amei, e quanto,
quer dizer, nem tanto assim.
(Carlos Drummond de Andrade)
Mas não foi tanto assim.
Até os deuses claudicam
em nugas de aritmética.
Meço o passado com régua
de exagerar as distâncias.
Tudo tão triste, e o mais triste
é não ter tristeza alguma.
É não venerar os códigos
de acasalar e sofrer.
É viver tempo de sobra
sem que me sobre miragem.
Agora vou-me. Ou me vão?
Ou é vão ir ou não ir?
Oh! se te amei, e quanto,
quer dizer, nem tanto assim.
(Carlos Drummond de Andrade)
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AUSÊNCIA
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
(Carlos Drummond de Andrade)
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SONETO DE DEVOÇÃO
Essa mulher que se arremessa, fria
E lúbrica aos meus braços, e nos seios
Me arrebata e me beija e balbucia
Versos, votos de amor e nomes feios.
Essa mulher, flor de melancolia
Que se ri dos meus pálidos receios
A única entre todas a quem dei
Os carinhos que nunca a outra daria.
Essa mulher que a cada amor proclama
A miséria e a grandeza de quem ama
E guarda a marca dos meus dentes nela.
Essa mulher é um mundo! — uma cadela
Talvez... — mas na moldura de uma cama
Nunca mulher nenhuma foi tão bela!
(VINICIUS DE MORAES)
++++++++++++++++++++++++++++++
PRESSÁGIO
O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar pra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente…
Cala: parece esquecer…
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...
(FERNANDO PESSOA)
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(FERNANDO PESSOA)
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