02 julho 2013

TERCETOS




Noite ainda, quando ela me pedia 
Entre dois beijos que me fosse embora, 
Eu, com os olhos em lágrimas, dizia: 

"Espera ao menos que desponte a aurora! 
Tua alcova é cheirosa como um ninho... 
E olha que escuridão há lá por fora! 

Como queres que eu vá, triste e sozinho, 
Casando a treva e o frio de meu peito 
Ao frio e à treva que há pelo caminho?! 

Ouves? é o vento! é um temporal desfeito! 
Não me arrojes à chuva e à tempestade! 
Não me exiles do vale do teu leito! 

Morrerei de aflição e de saudade... 
Espera! até que o dia resplandeça, 
Aquece-me com a tua mocidade! 

Sobre o teu colo deixa-me a cabeça 
Repousar, como há pouco repousava... 
Espera um pouco! deixa que amanheça!" 

E ela abria-me os braços. E eu ficava.
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Olavo Bilac
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UM BILHETE





Antes mesmo que acabasse o baile, Maria Adelaide dizia à mãe que não queria ficar um minuto mais que fosse.
— Que é isso? disse-lhe a mãe. Deu uma hora agora mesmo.
— Não quero saber. Vamo-nos embora.
— Ora, meu Deus!
— Vamos, vamos.

Não havia que dizer, a mãe era governada pela filha, e perderia o lugar no céu, se tanto fosse preciso, para não desgostá-la. Note-se que não cedia pouco desta vez; cedia a ceia, que era excelente, e a boa viúva professava esta filosofia: — que as ceias excelentes são preferíveis às boas, as boas às más e as más às que não têm existência. Sacrificava a melhor parte do baile; mas, enfim, contanto que a filha não padecesse. 

Padecer, padecia. No carro, logo que as duas entraram, Maria Adelaide começou a ralhar com tudo, com o carro, com a capa, com o calor, com o pó, com a mãe e consigo mesma. A mãe entendeu logo: era algum desgosto que o Chico Alves lhe dera. Realmente, lembrou-se que o Chico Alves, indo despedir-se delas, nem alcançou que Maria Adelaide olhasse para ele. A moça deu-lhe os dedos, a pontinha apenas, e falou-lhe de costas; naturalmente estavam brigados. 

A viagem foi atribulada. Nunca o mau humor da moça foi tamanho nem tão explosivo. A mãe pagou pelo namorado, mas como era prudente e estava com fome, preferiu não dizer nada. 

Em casa, continuou o mau humor. A pobre criada da moça padeceu como nunca. Maria Adelaide entrou para os seus aposentos, furiosa, despiu-se ás tontas, dizendo coisas duras, rasgando uma das mangas do vestido, atirando as flores ao chão, raivosa e indignada sem causa aparente. No fim, disse à criada que se fosse embora, e ficando só rebentaram-lhe as lágrimas. Assim mesmo sozinha, ia falando, mordendo os lábios, dando punhadas nos joelhos. Depois arrancou da cadeira, foi à secretária e escreveu este bilhete: 

Nunca pensei que o senhor fosse tão pérfido. Nunca imaginei que pudesse proceder com fez no baile; creia que não manifestei o meu desgosto, por dois motivos: — o primeiro, porque ainda tive força de me dominar; segundo, porque depois do que o senhor me fez, nada pode haver mais entre nós. Case-se com a viúva, se quer. Mande as minhas cartas e adeus. Esta determinação é irrevogável. Qualquer tentativa de reconciliação obrigar-me-á ao que não quero. 

Tinha dado expansão à cólera, deitou-se para dormir. O sono não veio logo; a raiva agitou a pobre moça, e só quando começou a madrugada foi que ela pôde dormir um pouco. No dia seguinte, o Chico Alves recebia este bilhete: 

Desculpa algumas palavras que te disse ontem no baile. Estava muito zangada. Vem hoje tomar chá, e eu te explico tudo. 


                                                         Machado de Assis

13 junho 2013

OS RUBAIYAT DE OMAR KHAYYAM
























Busca a felicidade agora, não sabes de amanhã.

Apanha um grande copo cheio de vinho,

senta-te ao luar, e pensa:

Talvez amanhã a lua me procure em vão.

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Que pobre o coração que não sabe amar

e não conhece o delírio da paixão.

Se não amas, que sol pode te aquecer,

ou que lua te consolar?

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É inútil a tua aflição;

nada podes sobre o teu destino.

Se és prudente, toma o que tens à mão.

Amanhã... que sabes do amanhã?

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Além da Terra, pelo Infinito,

procurei, em vão, o Céu e o Inferno.

Depois uma voz me disse:

Céu e Inferno estão em ti.

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Cansado de perguntar aos sábios, perguntei à taça:

para onde irei depois da morte?

Ela me respondeu baixinho: Bebe em minha boca,

bebe longamente: não voltarás.

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Omar Ibn Ibrahim El Khayyam nasceu em Nichapur, Pérsia, a atual República Islâmica do Irã, em 1040 e morreu nessa mesma cidade em 1120.
Khayyam significa, em persa, fabricante de tendas; ele adotou esse nome em memória do pai que era fabricante de tendas.
Além de poeta Omar Khayyam foi matemático e astrônomo. Dos seus livros de ciência chegaram até nós o Tratado de Algumas Dificuldades das Definições de Euclides e as Demonstrações dos problemas de Álgebra. Em 1074, diretor do Observatório de Merv, fez a reforma do calendário muçulmano.
Rubaiyat é o plural da palavra persa rubai, e quer dizer quadras, quartetos. No rubai, o primeiro, o segundo e o quarto versos são rimados, o terceiro é branco.

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POEMA










gênese II


No princípio era o verbo 

uma vaga voz sem dono 

vagando pela via láctea.


Depois veio o sujeito 

e junto com ele todos 

os erros de concordância.


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[Gregório Duvivier]

10 junho 2013

CONFISSÃO

 

 

Confissão

 

"Fui me confessar ao mar.
  O que ele disse?
  Nada!
"

(

Lygia Fagundes Telles) “

01 maio 2013

O PODER DA VÍRGULA



























 
A Vírgula

     Apesar de parecer simples, o uso da vírgula é um elemento da escrita em que muitos tropeçam. 

O poder de uma vírgula na leitura e na escrita


1.     Uma vírgula pode absolver..., ou não.

- Se os jurados condenam, eu não absolvo.
- Se os jurados condenam eu não, absolvo.

2.     Uma vírgula pode ser audácia..., ou não.

- Beije, não abrace!
  - Beije não, abrace!

3.     Uma vírgula pode ser rotuladora..., ou não.

- Quer café, fresco?
- Quer café fresco?

4.     Uma vírgula pode ser mágoa..., ou não.

- Não, te amo.
- Não te amo.

5. Uma vírgula pode ser uma pausa..., ou não.

- Não, espere.
- Não espere.

6. Uma vírgula pode sumir com seu dinheiro..., ou não.

- 23,4.
- 2,34.

7. Uma vírgula pode ser autoritária..., ou não.

- Aceito, obrigado.
- Aceito obrigado.

8. Uma vírgula pode criar heróis..., ou não.

- Isso só, ele resolve.
- Isso, só ele resolve.

9. Uma vírgula pode criar vilões..., ou não.

- Esse, juiz, é corrupto.
- Esse juiz é corrupto.

10. Uma vírgula pode ser a solução... , ou não.

- Vamos perder, nada foi resolvido.
- Vamos perder nada, foi resolvido.
11. Uma vírgula pode mudar uma opinião..., ou não.

- Não queremos saber.
- Não, queremos saber.

12. Uma vírgula pode decretar um destino cruel..., ou não.

- Perdão impossível, enviar para Sibéria.
- Perdão, impossível enviar para Sibéria.

13. Uma vírgula pode matar alguém..., ou não.

- Matar o homem, não é pecado.
- Matar o homem não, é pecado.

14. Uma vírgula pode ser ameaça..., ou não.

     
- Comigo não, tem problema.
  - Comigo não tem problema.

15. Uma vírgula pode ser uma segunda chance..., ou não.

- Não, tenho outra saída.
- Não tenho outra saída.

16. Uma vírgula pode favorecer..., ou não.

- Deixo a herança para minha esposa, não para minha amante.
- Deixo a herança para minha esposa não, para minha amante.


17. Uma vírgula pode causar confusão..., ou não.

- Enquanto o padre pastava, o burro rezava.
- Enquanto o padre, pastava o burro; rezava.

18. Uma vírgula pode alterar a classe gramatical..., ou não.

- Levar uma pedra de São Paulo ao Rio, uma andorinha só, não faz, verão.
- Levar uma pedra de São Paulo ao Rio, uma andorinha só, não faz verão.

19. Uma vírgula pode esculachar..., ou não.

- Eu quero um pão, cassete!
- Eu quero um pão cassete!

20. Uma vírgula pode complicar..., ou não.
- Pegue o Santo, Antônio.
- Pegue o Santo Antônio.

21. Uma vírgula pode enlouquecer..., ou não.

- Senhor, morto está, tarde chegamos.
- Senhor morto, está tarde chegamos.

22. Uma vírgula pode declarar algo..., ou não.

- Cinema, não. É chato
- Cinema não é chato.


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FIM DA JORNADA!!