21 janeiro 2014

O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO





















O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO
(Rio de Janeiro , 1959)

E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
- Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
- Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
                 (Lucas, cap. V, vs. 5-8.)


Era ele que erguia casas 
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
- "Convençam-no" do contrário -
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas 
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.

(Vinícius de Moraes)


30 outubro 2013

KIKI DO REBOLADO


    


































— Kátia Killer? — perguntou a irmã de caridade entrando no quarto, e Kiki bem percebeu que a freira nunca acreditara ser aquele seu nome verdadeiro.
   — Sou eu — disse em tom angustiante; e aprumou-se na cadeira.
   — Sempre resolvida a entregar o recém-nascido?
   — Sou mãe solteira, irmã — desculpou-se, agora os olhos baixos — há muito saí de casa.
   Na profissão que abracei...
   A freira persignou-se:
   — Em nome de Deus, fiz tudo que pude — olhou o alto, suspirou, olhou a moça.
   — Vou buscar o papel para você assinar; o casal que vai adotar a criança quer o preto no branco.
   Quando a irmã saiu, Kiki deslizou o olhar para as três camas já esticadas — a sua, a duma tal de Cida, que, em situação igual, partira na véspera, e a da moça sendo cesariada naquela hora: "Coita da! saíra há pouco, descorada de dor."
   Kiki levantou-se da cadeira onde estivera esperando; encaminhou-se para a grande janela de vidraças abertas. A luz da manhã favorecia e nelas pôde espelhar-se de corpo inteiro: os seios empinados marcando a malha preta, a minissaia vermelha oferecendo ancas certinhas, aquelas que, reboladas no palco, arrancavam mil exclamações. E assobios! Sorriu, na certeza de que em nada desmerecera.
   De repente, a irmã Dolores invadiu o quarto. Com aquele sorriso claro, entregou-lhe o bebê que carregava:
   — Trouxe o menino para você conhecer; pode contar lá fora do garotão forte que teve!
   Kiki, pega de surpresa, apanhara a criança. Agora estava ali, desajeitada, sem querer olhar:
   — Não adianta, irmã; sou firme nas minhas resoluções.
   Mas, irmã Dolores, como um pé-de-vento, entrara e saíra.     
   Desanimada, Kiki sentou-se, o bebê no colo.
   Na quietude, primeiro sentiu um calor desconhecido, não sabia se vindo da criança para ela ou dela para a criança.        
  Depois, o nenê resmungou, e Kiki baixou os olhos. Então, foi como se dali para trás nada mais importasse:
   — Que coisa mais linda, meu Deus! — exclamou apertando o filho de encontro ao coração, os olhos rasos d’água — Ah! queridinho.
   Ah!... — disse, e as lágrimas rolaram.
   Quando se sentiu lúcida, ergueu-se. Numa bem-aventurança abriu a porta, caminhou pelo corredor, alcançou a saída, fugiu para a rua, para a manhã vazada de sol, o filho aconchegado nos braços.

                                      (Lucília Junqueira de Almeida Prado)

18 setembro 2013

EXERCÍCIOS DE ORAÇÕES COORDENADAS E SUBORDINADAS SUBSTANTIVAS

























01. Na frase: "Maria do Carmo tinha a certeza de que estava para ser mãe", a oração destacada é:

a) subordinada substantiva objetiva indireta

b) subordinada substantiva completiva nominal

c) subordinada substantiva predicativa

d) coordenada sindética conclusiva

e) coordenada sindética explicativa



02. A segunda oração do período? "Não sei no que pensas", é classificada como:

a) substantiva objetiva direta

b) substantiva completiva nominal

c) coordenada sindética adversativa

d) coordenada sindética explicativa

e) substantiva objetiva indireta



03. Lembro-me de que ele só usava camisas brancas." A oração sublinhada é:

a) subordinada substantiva completiva nominal

b) subordinada substantiva objetiva indireta

c) subordinada substantiva predicativa

d) subordinada substantiva subjetiva

e) subordinada substantiva objetiva direta



04. Na frase “As imagens de satélite revelam que quase 40% dessa devastação foi realizada nos últimos vinte anos”, a oração sublinhada pode ser classificada como oração:
(A) subjetiva
(B) completiva nominal
(C) objetiva indireta
(D) predicativa
(E) objetiva direta

05. Em "É possível que comunicassem sobre políticos", a segunda oração é:

a) subordinada substantiva subjetiva

b) subordinada substantiva predicativa

c) subordinada substantiva objetiva indireta

d) subordinada substantiva completiva nominal

e) subordinada substantiva objetiva direta



06. I - Mário estudou muito e foi reprovado!

      II - Mário estudou muito e foi aprovado.

Em I e II, a conjunção e tem, respectivamente, valor:

a) aditivo e conclusivo

b) adversativo e aditivo

c) aditivo e aditivo

d) adversativo e conclusivo

e) aditivo e adversativo



07. A classificação da oração grifada está incorreta em todas as opções, exceto em:

a) Ela sabia que ele estava fazendo o certo - subordinada substantiva objetiva indireta.

b) Era imprevisível que ele ficava assim tão perto de uma mulher - subordinada substantiva predicativa.

c) Mas não estava neles modificar um namoro que nascera difícil, cercado, travado. - subordinada substantiva completiva nominal.

d) O momento foi tão intenso que ele teve medo - subordinada substantiva apositiva.

e) Solta que você está me machucando - coordenada sindética explicativa.



08. "Os homens sempre se esquecem de que somos todos mortais." A oração destacada é:
a) substantiva completiva nominal
 

b) substantiva objetiva indireta
c) substantiva predicativa
d) substantiva objetiva direta
e) substantiva subjetiva



09. Nos trechos:
"... não é possível
que a notícia da morte me deixasse alguma tranquilidade, alívio, e um ou dois minutos de prazer" e "Digo-vos que as lágrimas eram verdadeiras", a palavra "que" está introduzindo, respectivamente, orações: 


a) subordinada substantiva subjetiva - subordinada substantiva objetiva  direta
b) subordinada substantiva objetiva direta - subordinada substantiva objetiva direta
c) subordinada substantiva subjetiva - subordinada substantiva subjetiva
d) subordinada substantiva completiva nominal - subordinada adjetiva explicativa
e) subordinada adjetiva explicativa - subordinada substantiva predicativa.



10. Na frase: “Suponho que nunca teriam visto um homem brancao”, a oração subordinada é:
a) substantiva objetiva direta
b) substantiva completiva nominal
c) substantiva predicativa
d) substantiva apositiva
e) substantiva subjetiva



11. Relacione a segunda coluna de acordo com a primeira e assinale a sequência correta:

(1) oração subordinada objetiva direta
(2) oração subordinada completiva nominal
(3) oração subordinada objetiva indireta
(4) oração subordinada subjetiva
(5) oração subordinada predicativa

(    ) Ninguém desconfiava de que as decisões já estavam tomadas.
(   ) Chegamos à conclusão de que nosso passeio não acontecerá.
(   ) O problema é que não confio em você.
(   ) O barulho constante não permite que os moradores vivam tranquilos.
(   ) Decidiram-se que as novas mercadorias teriam um novo valor.



a) 1-2-3-4-5

b) 5-4-3-2-1

c) 3-2-5-1-4

d) 2-1-5-4-3

e) 4-3-2-5-1



12. Não é dado ao ser humano conhecer toda a extensão da sua ignorância, o que, em tese, lhe poupa o perigo do desânimo.

A oração destacada no período anterior classifica-se como:



a) subordinada substantiva predicativa.

b) subordinada substantiva objetiva indireta.

c) subordinada substantiva subjetiva.

d) subordinada substantiva objetiva direta.

e) subordinada substantiva completiva nominal.



13. Na frase " Argumentei que não é justo que o padeiro ganhe festas" as orações introduzidas pela conjunção QUE são respectivamente :



a) Ambas subordinadas substantivas objetivas diretas

b) Ambas subordinadas subjetivas

c) Subordinada substantiva objetiva direta e subordinada

substantiva subjetiva.

d) Subordinada objetiva direta e coordenada assindética .

e) Subordinada substantiva objetiva e subordinada

substantiva predicativa.



14. Não se classificou adequadamente a oração subordinada substantiva na alternativa:


a) Tinha certeza de que ele me amava. (completiva nominal)
b) Dei-lhe um conselho: que não fosse embora. (apositiva)
c) Lembrei-me de que ele não presta. ( objetiva indireta
d) Ninguém sabe se voltará ao Brasil. ( objetiva direta )
e) O povo estava esperançoso de que a nova medida econômica amenizasse os seus problemas. ( objetiva indireta)


15. “A verdade é que todos estavam extasiados e certos de que não há prazeres no mundo.
As orações destacadas são, respectivamente, subordinadas substantivas:


a) predicativa e completiva nominal.
b) completiva nominal e predicativa.
c) predicativa e objetiva indireta.
d) subjetiva e completiva nominal.
e) predicativa e objetiva indireta.

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GABARITO:

1B - 2A - 3B - 4E - 5A - 6D - 7E - 8B - 
9A - 10A - 11C - 12C - 13C -14E -15A  

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17 setembro 2013

PARÁFRASE

































Foi para vós que ontem colhi, senhora,
Este ramo de flores que ora envio.
Não o houvesse colhido e o vento e o frio
Tê-las-iam crestado antes da aurora.

Meditai nesse exemplo, que se agora
Não sei mais do que o vosso outro macio
Rosto nem boca de melhor feitio,
A tudo a idade enfeia sem demora.

Senhora, o tempo foge... o tempo foge...
Com pouco morreremos e amanhã
Já não seremos o que somos hoje...

Porque é que o vosso coração hesita?
O tempo foge... A vida é breve e é vã...
Por isso, amai-me... enquanto sois bonita.




Pierre de Ronsard (1524-1585)     Tradução: Manuel Bandeira

A CRIANÇA QUE FUI CHORA NA ESTRADA








 

























A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.


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                     (FERNANDO PESSOA)

O CORVO (EDGAR ALLAN POE)




















Numa meia-noite cava, quando, exausto, eu meditava
Nuns estranhos, velhos livros de doutrinas ancestrais
E já quase adormecia, percebi que alguém batia
Num soar que mal se ouvia, leve e lento, em meus portais.
Disse a mim: "É um visitante que ora bate em meus portais´-
É só isto, e nada mais."

 
Ah! tão claro que eu me lembro! Era um frio e atroz dezembro
E as chamas no chão, morrendo, davam sombras fantasmais,
E eu sonhava logo o alvor e pra acabar com a minha dor
Lia em vão, lembrando o amor desta de dons angelicais
A qual chamam Leonora as legiões angelicais,
Mas que aqui não chamam mais.

 
E um sussurro triste e langue nas cortinas cor de sangue
Assustou-me com tremores nunca vistos tão reais,
E ao meu peito que batia eu mesmo em pé me repetia:
"É somente, em noite fria, um visitante aos meus portais
Que, tardio, pede entrada assim batendo aos meus portais.
É só isto, e nada mais.

 
Neste instante a minha alma fez-se forte e ganhou calma
E "Senhor" disse, ou "Senhora, perdoai se me aguardais,
Que eu já ia adormecendo quando viestes cá batendo,
Tão de leve assim fazendo, assim fazendo em meus portais
Que eu pensei que não ouvira" - e abri bem largo os meus portais: -
Treva intensa, e nada mais.

 
Longamente a noite olhei e estarrecido me encontrei,
E assustado, tive sonhos que ninguém sonhou iguais,
Mas total era o deserto e ser nenhum havia perto
Quando um nome, único e certo, sussurrei entre meus ais -
- "Leonora" - esta palavra - e o eco a repôs entre meus ais.
E isto é tudo, e nada mais.


Trecho de “O Corvo”, de Edgar Allan Poe.
Tradução de Alexei Bueno.

FIM DA JORNADA!!