17 setembro 2013

A CRIANÇA QUE FUI CHORA NA ESTRADA








 

























A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.


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                     (FERNANDO PESSOA)

O CORVO (EDGAR ALLAN POE)




















Numa meia-noite cava, quando, exausto, eu meditava
Nuns estranhos, velhos livros de doutrinas ancestrais
E já quase adormecia, percebi que alguém batia
Num soar que mal se ouvia, leve e lento, em meus portais.
Disse a mim: "É um visitante que ora bate em meus portais´-
É só isto, e nada mais."

 
Ah! tão claro que eu me lembro! Era um frio e atroz dezembro
E as chamas no chão, morrendo, davam sombras fantasmais,
E eu sonhava logo o alvor e pra acabar com a minha dor
Lia em vão, lembrando o amor desta de dons angelicais
A qual chamam Leonora as legiões angelicais,
Mas que aqui não chamam mais.

 
E um sussurro triste e langue nas cortinas cor de sangue
Assustou-me com tremores nunca vistos tão reais,
E ao meu peito que batia eu mesmo em pé me repetia:
"É somente, em noite fria, um visitante aos meus portais
Que, tardio, pede entrada assim batendo aos meus portais.
É só isto, e nada mais.

 
Neste instante a minha alma fez-se forte e ganhou calma
E "Senhor" disse, ou "Senhora, perdoai se me aguardais,
Que eu já ia adormecendo quando viestes cá batendo,
Tão de leve assim fazendo, assim fazendo em meus portais
Que eu pensei que não ouvira" - e abri bem largo os meus portais: -
Treva intensa, e nada mais.

 
Longamente a noite olhei e estarrecido me encontrei,
E assustado, tive sonhos que ninguém sonhou iguais,
Mas total era o deserto e ser nenhum havia perto
Quando um nome, único e certo, sussurrei entre meus ais -
- "Leonora" - esta palavra - e o eco a repôs entre meus ais.
E isto é tudo, e nada mais.


Trecho de “O Corvo”, de Edgar Allan Poe.
Tradução de Alexei Bueno.

O PARADOXO DO NOSSO TEMPO



 













Bebemos demais, fumamos demais, gastamos sem critérios, dirigimos rápido demais, ficamos acordados até muito mais tarde, acordamos muito cansados, lemos muito pouco, assistimos TV demais e rezamos raramente.

Multiplicamos nossos bens, mas reduzimos nossos valores.

Falamos demais, amamos raramente, odiamos frequentemente.

Aprendemos a sobreviver, mas não a viver; adicionamos anos à nossa vida e não vida aos nossos anos.

Fomos e voltamos à Lua, mas temos dificuldade em cruzar a rua e encontrar nosso vizinho.

Conquistamos o espaço sideral, mas não o nosso próprio.

Fizemos muitas coisas maiores, mas pouquíssimas melhores. Limpamos o ar, mas poluímos a alma; dominamos o átomo, mas não nosso preconceito; escrevemos mais, mas aprendemos menos; planejamos mais, mas realizamos menos.

Aprendemos a nos apressar e, não, a esperar.

Construímos mais computadores para armazenar mais informação, produzir mais cópias do que nunca, mas nos comunicamos menos.

Estamos na era do fast-food e da digestão lenta; do homem grande, mas de caráter pequeno; lucros acentuados e relações vazias.

Esta é a era de dois empregos, vários divórcios, casas chiques e lares despedaçados. Esta é a era das viagens rápidas, fraldas e moral descartáveis, das rapidinhas, dos cérebros ocos e das pílulas mágicas.

Um momento de muita coisa na vitrine e muito pouco na despensa. Armários cheios e corações vazios.

Lembre-se de passar tempo com as pessoas que ama, pois elas não estarão por aqui para sempre.

Lembre-se dar um abraço carinhoso num amigo, pois não lhe custa um centavo sequer.

Lembre-se de dizer eu te amo à sua esposa e às pessoas que ama, mas, em primeiro lugar, ame... ame muito.

Um beijo e um abraço curam a dor, quando vêm de lá de dentro.

O segredo da vida não é ter tudo que você quer, mas AMAR tudo que você tem!

Por isso, valorize o que você tem e as pessoas que estão ao seu lado.   HOJE!...

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                                                  (George Carlin )

11 setembro 2013

O PORQUÊ DA MALDADE

 

 

"É difícil não fazer o mal porque é muito fácil fazê-lo!"

                                               (Maurício Palmeira)

PATOLOGIA MURINA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



 






 


"PARA O RATO, A PATOLOGIA 

MAIS TERRÍVEL É A CLAUSTROFOBIA."


                     (Maurício Palmeira)

01 setembro 2013

MODULAÇÕES DO TEMPO

                








                 









               Estava eu escrevendo o último artigo para o jornal italiano “Roma Locuta”, com o intuito de, no fim da tarde, enviá-lo para edição. Lembro-me de que estava sozinho e que, em algum instante, ouvi um barulho. O relógio marcava dezessete e vinte e cinco. Conseguia enxergar as horas por minha janela em uma das torres da Basílica de São João de Latrão. A casa de edição e impressão ficava logo ao lado de meu escritório. O artigo que escrevia tratava de avanços tecnológicos no ramo da Física, como o Boson de Higgs, e eu deveria entregá-lo às dezessete e quarenta e cinco. Para concluir meu artigo, sentei-me novamente e dei continuidade ao meu trabalho. Os sinos da Basílica tocaram em horário impróprio, com certeza algum insigne da igreja teria morrido. Foi então que, repentinamente, entraram em minha sala três pessoas com roupas e jalecos brancos, juntamente com três oficiais de justiça.
                - Signore? Dirigiu-se a mulher que liderava o grupo.
                -Sí. Respondi.
                -Siamo qui perché devi venire con Il nostro gruppo.
                Sem chance de resposta, levaram-me, em um carro convencional, para uma usina de testes com partículas atômicas, cujo foco de estudos era o controle do tempo. Explicaram-me que necessitavam de alguém que conhecesse profundamente sobre este assunto. Eu não sabia por que um professor, físico aposentado, iria somar nesta pesquisa.
                -Come si chiama?
                - Io mi chiamo Pietro Giovanni.
                Soube que me encontraram mesmo sem saber meu nome, visto que meus companheiros de faculdade, antes de morrerem, deram a eles o meu endereço.
                Iniciavam no mesmo dia o último teste com o novo aparelho o “Times S3”. Não poderia acontecer nada de errado desta vez, pois, do contrário, colocaríamos em risco nossas vidas, como o fizeram meus infelizes amigos. Poderia até mesmo trazer risco a toda a cidade pois havia a possibilidade de uma explosão nuclear.
                Com uma tarde de estudos, finalmente, terminamos, e , para o teste de controle de tempo, uma pessoa se dispôs a sofrer as consequências do teste: eu.
                Entrei no compartimento para o primeiro teste, após um ano da tentativa funesta em que meus amigos morreram. Com equipamento avançado, tivemos a possibilidade de escolher por quanto tempo e aonde queríamos ir. Decidimos que entraríamos no período onde Galileu praticava seus experimentos e pelos quais sofrera as acusações que quase lhe custaram a vida. Tudo configurado e se deu início ao processo de fragmentação do tempo. Neste instante uma falha acontece e põe todos em grande risco, porque a tal falha iria fazer com que o reator explodisse, pois, para voltar tanto no tempo, foi preciso uma grande fragmentação. Para que eu não viesse a acabar tragicamente, como em um ano antes, tomo a decisão de  retroceder apenas cinco anos no tempo, uma capacidade de fragmentação possível para o reator e crucial para salvar nossas vidas.
               Assim,  quando este dia tornou a chegar, fiz o possível para não causarmos nenhuma catástrofe e, finalmente conseguimos retificar esta proeza. Nossos trabalhos não foram reconhecidos. Ainda dou aulas, e os pesquisadores nem sequer me conhecem. Apenas eu, inexplicavelmente, consigo lembrar o fato ocorrido, ou melhor, não ocorrido.


(Cristiano Gonçalves Alano, 1º ano C -  Colégio dos Santos Anjos)

25 agosto 2013

SOBRE A LEITURA ( PELA ENÉSIMA VEZ! )



Sobre a Leitura ( Pela Enésima Vez )

    "Não Cansemos de Ler! Jamais Desistamos de Falar Sobre a Leitura!"
   A impressão que tenho, a cada livro cuja leitura termino, não é a de que me torno mais intelectualizado, mas sim a de que me torno mais gente. Na verdade não se trata de impressão; sensação é a palavra exata, visto que, quando se tem impressão a respeito de algo, entende-se que algo incerto ou provável pode vir a ocorrer ou não. É assim que se tem a impressão de que vai chover ou de que se conhece alguém com quem se tenha deparado inadvertidamente. Já quando se tem a sensação referente a qualquer situação, não se trata mais de uma questão de dúvida nem de probabilidade. Significa, indubitavelmente, uma certeza, uma comprovação porque não se pode negar quando se sente algo, e o sentir algo nada mais é do que "a sensação de". Então, burilando a frase inicial, posso dizer que, a cada livro cuja leitura termino, tenho a sensação de que me torno mais gente. Sinto que, de alguma forma, algo que estava contido no livro, agora, faz parte de mim. Posso evocar algumas partes do que li; posso esquecer tantas outras, porém tudo o que eu vier a pensar, refletir, divagar, sonhar daí por diante, estará imbricado a esse fato ( ou ato?) recente: a mais um livro lido. 
   Quanto ao sentido da expressão "tornar-se mais gente" quem leu até aqui já obteve resposta a ela, posto que o único caminho que se pode palmilhar quando o objetivo é o de "se tornar mais gente" é precisamente o da abstração. Todo ser humano carece, e deve sentir que carece, de maiores estímulos a seus pensamentos, a suas reflexões, a suas divagações, a suas descargas oníricas. Carece de ser ̶  a cada livro lido  ̶  mais gente!

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(Maurício Palmeira)

FIM DA JORNADA!!