17 setembro 2013

O PARADOXO DO NOSSO TEMPO



 













Bebemos demais, fumamos demais, gastamos sem critérios, dirigimos rápido demais, ficamos acordados até muito mais tarde, acordamos muito cansados, lemos muito pouco, assistimos TV demais e rezamos raramente.

Multiplicamos nossos bens, mas reduzimos nossos valores.

Falamos demais, amamos raramente, odiamos frequentemente.

Aprendemos a sobreviver, mas não a viver; adicionamos anos à nossa vida e não vida aos nossos anos.

Fomos e voltamos à Lua, mas temos dificuldade em cruzar a rua e encontrar nosso vizinho.

Conquistamos o espaço sideral, mas não o nosso próprio.

Fizemos muitas coisas maiores, mas pouquíssimas melhores. Limpamos o ar, mas poluímos a alma; dominamos o átomo, mas não nosso preconceito; escrevemos mais, mas aprendemos menos; planejamos mais, mas realizamos menos.

Aprendemos a nos apressar e, não, a esperar.

Construímos mais computadores para armazenar mais informação, produzir mais cópias do que nunca, mas nos comunicamos menos.

Estamos na era do fast-food e da digestão lenta; do homem grande, mas de caráter pequeno; lucros acentuados e relações vazias.

Esta é a era de dois empregos, vários divórcios, casas chiques e lares despedaçados. Esta é a era das viagens rápidas, fraldas e moral descartáveis, das rapidinhas, dos cérebros ocos e das pílulas mágicas.

Um momento de muita coisa na vitrine e muito pouco na despensa. Armários cheios e corações vazios.

Lembre-se de passar tempo com as pessoas que ama, pois elas não estarão por aqui para sempre.

Lembre-se dar um abraço carinhoso num amigo, pois não lhe custa um centavo sequer.

Lembre-se de dizer eu te amo à sua esposa e às pessoas que ama, mas, em primeiro lugar, ame... ame muito.

Um beijo e um abraço curam a dor, quando vêm de lá de dentro.

O segredo da vida não é ter tudo que você quer, mas AMAR tudo que você tem!

Por isso, valorize o que você tem e as pessoas que estão ao seu lado.   HOJE!...

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                                                  (George Carlin )

11 setembro 2013

O PORQUÊ DA MALDADE

 

 

"É difícil não fazer o mal porque é muito fácil fazê-lo!"

                                               (Maurício Palmeira)

PATOLOGIA MURINA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



 






 


"PARA O RATO, A PATOLOGIA 

MAIS TERRÍVEL É A CLAUSTROFOBIA."


                     (Maurício Palmeira)

01 setembro 2013

MODULAÇÕES DO TEMPO

                








                 









               Estava eu escrevendo o último artigo para o jornal italiano “Roma Locuta”, com o intuito de, no fim da tarde, enviá-lo para edição. Lembro-me de que estava sozinho e que, em algum instante, ouvi um barulho. O relógio marcava dezessete e vinte e cinco. Conseguia enxergar as horas por minha janela em uma das torres da Basílica de São João de Latrão. A casa de edição e impressão ficava logo ao lado de meu escritório. O artigo que escrevia tratava de avanços tecnológicos no ramo da Física, como o Boson de Higgs, e eu deveria entregá-lo às dezessete e quarenta e cinco. Para concluir meu artigo, sentei-me novamente e dei continuidade ao meu trabalho. Os sinos da Basílica tocaram em horário impróprio, com certeza algum insigne da igreja teria morrido. Foi então que, repentinamente, entraram em minha sala três pessoas com roupas e jalecos brancos, juntamente com três oficiais de justiça.
                - Signore? Dirigiu-se a mulher que liderava o grupo.
                -Sí. Respondi.
                -Siamo qui perché devi venire con Il nostro gruppo.
                Sem chance de resposta, levaram-me, em um carro convencional, para uma usina de testes com partículas atômicas, cujo foco de estudos era o controle do tempo. Explicaram-me que necessitavam de alguém que conhecesse profundamente sobre este assunto. Eu não sabia por que um professor, físico aposentado, iria somar nesta pesquisa.
                -Come si chiama?
                - Io mi chiamo Pietro Giovanni.
                Soube que me encontraram mesmo sem saber meu nome, visto que meus companheiros de faculdade, antes de morrerem, deram a eles o meu endereço.
                Iniciavam no mesmo dia o último teste com o novo aparelho o “Times S3”. Não poderia acontecer nada de errado desta vez, pois, do contrário, colocaríamos em risco nossas vidas, como o fizeram meus infelizes amigos. Poderia até mesmo trazer risco a toda a cidade pois havia a possibilidade de uma explosão nuclear.
                Com uma tarde de estudos, finalmente, terminamos, e , para o teste de controle de tempo, uma pessoa se dispôs a sofrer as consequências do teste: eu.
                Entrei no compartimento para o primeiro teste, após um ano da tentativa funesta em que meus amigos morreram. Com equipamento avançado, tivemos a possibilidade de escolher por quanto tempo e aonde queríamos ir. Decidimos que entraríamos no período onde Galileu praticava seus experimentos e pelos quais sofrera as acusações que quase lhe custaram a vida. Tudo configurado e se deu início ao processo de fragmentação do tempo. Neste instante uma falha acontece e põe todos em grande risco, porque a tal falha iria fazer com que o reator explodisse, pois, para voltar tanto no tempo, foi preciso uma grande fragmentação. Para que eu não viesse a acabar tragicamente, como em um ano antes, tomo a decisão de  retroceder apenas cinco anos no tempo, uma capacidade de fragmentação possível para o reator e crucial para salvar nossas vidas.
               Assim,  quando este dia tornou a chegar, fiz o possível para não causarmos nenhuma catástrofe e, finalmente conseguimos retificar esta proeza. Nossos trabalhos não foram reconhecidos. Ainda dou aulas, e os pesquisadores nem sequer me conhecem. Apenas eu, inexplicavelmente, consigo lembrar o fato ocorrido, ou melhor, não ocorrido.


(Cristiano Gonçalves Alano, 1º ano C -  Colégio dos Santos Anjos)

25 agosto 2013

SOBRE A LEITURA ( PELA ENÉSIMA VEZ! )



Sobre a Leitura ( Pela Enésima Vez )

    "Não Cansemos de Ler! Jamais Desistamos de Falar Sobre a Leitura!"
   A impressão que tenho, a cada livro cuja leitura termino, não é a de que me torno mais intelectualizado, mas sim a de que me torno mais gente. Na verdade não se trata de impressão; sensação é a palavra exata, visto que, quando se tem impressão a respeito de algo, entende-se que algo incerto ou provável pode vir a ocorrer ou não. É assim que se tem a impressão de que vai chover ou de que se conhece alguém com quem se tenha deparado inadvertidamente. Já quando se tem a sensação referente a qualquer situação, não se trata mais de uma questão de dúvida nem de probabilidade. Significa, indubitavelmente, uma certeza, uma comprovação porque não se pode negar quando se sente algo, e o sentir algo nada mais é do que "a sensação de". Então, burilando a frase inicial, posso dizer que, a cada livro cuja leitura termino, tenho a sensação de que me torno mais gente. Sinto que, de alguma forma, algo que estava contido no livro, agora, faz parte de mim. Posso evocar algumas partes do que li; posso esquecer tantas outras, porém tudo o que eu vier a pensar, refletir, divagar, sonhar daí por diante, estará imbricado a esse fato ( ou ato?) recente: a mais um livro lido. 
   Quanto ao sentido da expressão "tornar-se mais gente" quem leu até aqui já obteve resposta a ela, posto que o único caminho que se pode palmilhar quando o objetivo é o de "se tornar mais gente" é precisamente o da abstração. Todo ser humano carece, e deve sentir que carece, de maiores estímulos a seus pensamentos, a suas reflexões, a suas divagações, a suas descargas oníricas. Carece de ser ̶  a cada livro lido  ̶  mais gente!

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(Maurício Palmeira)

CALCULADORA DO TEMPO

                     




                         Calculadora Do Tempo

    Rio de Janeiro, 02 de Janeiro de 2010. Nesse, que parecia ser mais um dia como outro qualquer, eu caminhava pela praia, quando, de repente, avisto um objeto parcialmente enterrado na areia. Parecia uma calculadora. Era uma calculadora! Peguei o artefato e o levei para casa a fim de analisá-lo melhor. Ao chegar a minha residência, resolvi algumas pendências, e só então fui verificar o que tinha achado. Após dias estudando-o, vi que não era uma calculadora normal mas sim uma calculadora que poderia transportar-me ao passado. No começo, pensei em não fazer nada que pudesse alterar o curso dos acontecimentos pretéritos, mas depois resolvi arrumar alguns erros por mim cometidos.
    São Paulo, 13 de Dezembro de 1995. O dia em que recebi a notícia de que tinha reprovado no primeiro ano escolar. Nesta ocasião, entrei em desespero. Mandei a professora às favas, agredi o coordenador e tentei o suicídio, no que fracassei, como já se supõe . Agora estava eu, mais uma vez, frente a frente com a situação, dessa vez peguei o boletim e fui diretamente para casa. Sem o consequente escândalo  seguido pelos dois anos de serviço comunitário como pena a mim imputada.
     Fortaleza, 31 de Dezembro de 2000. Era virada de ano, dia para esquecer os problemas de um ano inteiro, e pensar no próximo. Contudo, ninguém gosta de começar um ano com problemas, ainda mais financeiros. Naquele Réveillon gastei o que tinha e o que não tinha. As bebidas mais caras, o quarto mais caro do hotel mais caro e as mais caras e encantadoras mulheres. Tudo isso resultou em um ano de empréstimos no banco. Agora era hora de reverter isso. Calculadora programada e peguei o quarto mais barato do hotel, assisti aos fogos e fui dormir.
     Rio de Janeiro, 02 de Junho de 2002. Havia acabado de chegar à Cidade Maravilhosa. Foi aí que conheci uma jovem atraente, dona de magníficos olhos azuis. Passamos a noite juntos, e dois meses depois ela me apareceu grávida. Casei com alguém que mal conhecia, tive um filho no auge dos meus 20 anos, e nem sequer  havia terminado a faculdade. Calculadora programada e mais uma noite que passei na maior calma e na mais completa solidão.
     Rio de Janeiro, 02 de Janeiro de 2010. Nesse dia, vejo um objeto enterrado na areia, um objeto que resultou no maior erro da minha vida. Pois com ele poderia voltar ao passado. Porém, o que seríamos sem as besteiras cometidas, os erros dramáticos e as lições tiradas disso tudo. Calculadora programada. Caminhava na praia, vejo um objeto enterrado na areia. Passo reto. Era mais um dia normal e monótono em minha vida, do jeito que sempre deveria ter sido!



      (Gustavo Schil -  Aluno do primeiro Ano B,  Ensino Médio do Colégio dos Santos Anjos). 

15 agosto 2013

O HIPOCONDRÍACO



Em tempo de remédios falsificados e laboratórios incompetentes, vale lembrar deste consumidor compulsivo que faz da bula Bíblia: o hipocondríaco. Ele padece do mal de ter mania de doenças e adora tomar remédios. Ao passar à porta da farmácia não resiste e pergunta: "O que tem de novidade?"

Nada mais ofensivo ao hipocondríaco do que erguer um brinde e desejar-lhe "saúde!". Ele só frequenta coquetel de vitaminas. Encara sempre o interlocutor com aquele olhar de quem diz: "ando sentindo coisas que você nem imagina". No telefone, faz voz de vítima. Cara a cara, suplica, silente, a compaixão alheia.

Está sempre entrando ou saindo de uma gripe; já tomou todas as vacinas; sofre da coluna; padece de insônia; e trata médico como faz com motorista de táxi: "Tá livre?"

O hipocondríaco entra na Justiça exigindo mandado de prisão contra os radicais livres e duvida que alguém possa imaginar o tamanho da enxaqueca que teve ontem. Enquanto outros fazem shopping, o prazer do hipocondríaco é visitar drogarias de vitaminas importadas. Ingere pela manhã o abecedário em drágeas e nunca se deita sem antes tomar um chá de ervas.

Hipocondríaco não tem plano de saúde; prefere cota de cemitério. Gosta de se separar da família para morrer de saudades. E fica doente de raiva quando alguém diz que ele aparenta boa saúde.

O autêntico hipocondríaco carrega sempre uma dorzinha de lado, uma unha encravada, uma afta na boca, uma irritação na garganta, uma dor na coluna e umas tonturas estranhas.

Para o hipocondríaco, esposa ideal é a que banca a enfermeira; cadeira confortável é a de rodas; e cama macia, a de hospital.

O hipocondríaco é a única pessoa que, pelo som, distingue sirene de ambulância da de viatura de polícia e de bombeiro.

O guru do hipocondríaco é Hipócrates, e sua filosofia se resume nesta questão metafísica: "Se a gente nasce deitado e morre deitado, por que não viver deitado?"

O hipocondríaco morre de medo da vida saudável. Está convencido de que a diferença entre o médico e ele é que o primeiro conhece a teoria e, o segundo, a prática. Nunca pergunte a ele: "Vai bem?" É preferível: "Melhorou?"

O hipocondríaco só assina revistas médicas e, nos jornais, lê primeiro o obituário. Mas, ao contrário do que se pensa, o hipocondríaco não quer morrer — isto o curaria de sua loucura.

Nunca convide um hipocondríaco a matricular-se numa academia de ginástica. Ofereça-lhe um check-up. Os únicos exames que ele aceita fazer são os clínicos e adora ser reprovado. Se faz cooper, a perna dói; se pratica natação, fica resfriado; se flexiona o abdome, sente dor nas cadeiras.

O hipocondríaco escuta o médico com a mesma atenção que o bêbado ouve os conselhos do abstêmio. A turma do hipocondríaco se reúne em porta de farmácia e tira férias em clínicas de repouso.

O hipocondríaco é o único paciente que consegue decifrar letra de médico. Ele não se recolhe para dormir, e sim para repousar. Nunca deseje "bom-dia" a um hipocondríaco; pergunte: "Levantou melhor?" Aliás, ele não se levanta; tem alta. No aniversário, dê a ele um vidro de remédios. Todo hipocondríaco é viciado em aspirina, vitamina C e melatonina.

O hipocondríaco sabe dar nó nas tripas e acredita que o melhor lazer é curtir uma diverticulite. Considera incompetente todo médico que diz que ele não tem nada.

O hipocondríaco acredita em tudo que a mídia fala sobre cuidados com a saúde.

Quando viaja, não se hospeda; se interna. No bolso de dentro do paletó ele não carrega caneta, mas termômetro. E é a única pessoa capaz de enxergar vírus e bactérias em talheres de restaurantes.

Sonho de hipocondríaco é ser socorrido por um daqueles helicópteros UTI que aparecem na TV. E sempre reclama de que já existem telessexo, telepiada, telepizza, telessorteio, só falta o teledoença: você liga, descreve os sintomas e, do outro lado da linha, uma voz de médico prescreve a medicação.

Deve ter sido um hipocondríaco quem deu ao remédio que combate infecções o nome de antibiótico — que significa "contra a vida".

O hipocondríaco não tem remédio. Ele só se cura quando morre e, paradoxalmente, a morte é o sintoma mais óbvio de que ele tinha razão. Pena que não possa levantar-se do caixão e enfiar o dedo na cara de quem o tratava pejorativamente como hipocondríaco. De qualquer modo, repare como ele, defunto, traz um sorrisinho de vitória nos lábios.

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Frei Betto (Carlos Alberto Libânio Christo),(1945) quando jovem frade dominicano esteve envolvido com as lutas revolucionárias de seu tempo, com a política e a arte. Militante de esquerda, simpatizante da luta armada, se dividia entre os estudos de filosofia, o jornalismo e a assistência de direção de José Celso Martinez Corrêa na histórica montagem de "O rei da vela", pelos idos de 1967. É escritor consagrado, com inúmeros livros de sucesso, dentre eles "Fidel e a Religião", coletânea de entrevistas com o líder cubano. O texto acima foi publicado no jornal "O Globo", em 08/98.

FIM DA JORNADA!!