25 agosto 2013

CALCULADORA DO TEMPO

                     




                         Calculadora Do Tempo

    Rio de Janeiro, 02 de Janeiro de 2010. Nesse, que parecia ser mais um dia como outro qualquer, eu caminhava pela praia, quando, de repente, avisto um objeto parcialmente enterrado na areia. Parecia uma calculadora. Era uma calculadora! Peguei o artefato e o levei para casa a fim de analisá-lo melhor. Ao chegar a minha residência, resolvi algumas pendências, e só então fui verificar o que tinha achado. Após dias estudando-o, vi que não era uma calculadora normal mas sim uma calculadora que poderia transportar-me ao passado. No começo, pensei em não fazer nada que pudesse alterar o curso dos acontecimentos pretéritos, mas depois resolvi arrumar alguns erros por mim cometidos.
    São Paulo, 13 de Dezembro de 1995. O dia em que recebi a notícia de que tinha reprovado no primeiro ano escolar. Nesta ocasião, entrei em desespero. Mandei a professora às favas, agredi o coordenador e tentei o suicídio, no que fracassei, como já se supõe . Agora estava eu, mais uma vez, frente a frente com a situação, dessa vez peguei o boletim e fui diretamente para casa. Sem o consequente escândalo  seguido pelos dois anos de serviço comunitário como pena a mim imputada.
     Fortaleza, 31 de Dezembro de 2000. Era virada de ano, dia para esquecer os problemas de um ano inteiro, e pensar no próximo. Contudo, ninguém gosta de começar um ano com problemas, ainda mais financeiros. Naquele Réveillon gastei o que tinha e o que não tinha. As bebidas mais caras, o quarto mais caro do hotel mais caro e as mais caras e encantadoras mulheres. Tudo isso resultou em um ano de empréstimos no banco. Agora era hora de reverter isso. Calculadora programada e peguei o quarto mais barato do hotel, assisti aos fogos e fui dormir.
     Rio de Janeiro, 02 de Junho de 2002. Havia acabado de chegar à Cidade Maravilhosa. Foi aí que conheci uma jovem atraente, dona de magníficos olhos azuis. Passamos a noite juntos, e dois meses depois ela me apareceu grávida. Casei com alguém que mal conhecia, tive um filho no auge dos meus 20 anos, e nem sequer  havia terminado a faculdade. Calculadora programada e mais uma noite que passei na maior calma e na mais completa solidão.
     Rio de Janeiro, 02 de Janeiro de 2010. Nesse dia, vejo um objeto enterrado na areia, um objeto que resultou no maior erro da minha vida. Pois com ele poderia voltar ao passado. Porém, o que seríamos sem as besteiras cometidas, os erros dramáticos e as lições tiradas disso tudo. Calculadora programada. Caminhava na praia, vejo um objeto enterrado na areia. Passo reto. Era mais um dia normal e monótono em minha vida, do jeito que sempre deveria ter sido!



      (Gustavo Schil -  Aluno do primeiro Ano B,  Ensino Médio do Colégio dos Santos Anjos). 

15 agosto 2013

O HIPOCONDRÍACO



Em tempo de remédios falsificados e laboratórios incompetentes, vale lembrar deste consumidor compulsivo que faz da bula Bíblia: o hipocondríaco. Ele padece do mal de ter mania de doenças e adora tomar remédios. Ao passar à porta da farmácia não resiste e pergunta: "O que tem de novidade?"

Nada mais ofensivo ao hipocondríaco do que erguer um brinde e desejar-lhe "saúde!". Ele só frequenta coquetel de vitaminas. Encara sempre o interlocutor com aquele olhar de quem diz: "ando sentindo coisas que você nem imagina". No telefone, faz voz de vítima. Cara a cara, suplica, silente, a compaixão alheia.

Está sempre entrando ou saindo de uma gripe; já tomou todas as vacinas; sofre da coluna; padece de insônia; e trata médico como faz com motorista de táxi: "Tá livre?"

O hipocondríaco entra na Justiça exigindo mandado de prisão contra os radicais livres e duvida que alguém possa imaginar o tamanho da enxaqueca que teve ontem. Enquanto outros fazem shopping, o prazer do hipocondríaco é visitar drogarias de vitaminas importadas. Ingere pela manhã o abecedário em drágeas e nunca se deita sem antes tomar um chá de ervas.

Hipocondríaco não tem plano de saúde; prefere cota de cemitério. Gosta de se separar da família para morrer de saudades. E fica doente de raiva quando alguém diz que ele aparenta boa saúde.

O autêntico hipocondríaco carrega sempre uma dorzinha de lado, uma unha encravada, uma afta na boca, uma irritação na garganta, uma dor na coluna e umas tonturas estranhas.

Para o hipocondríaco, esposa ideal é a que banca a enfermeira; cadeira confortável é a de rodas; e cama macia, a de hospital.

O hipocondríaco é a única pessoa que, pelo som, distingue sirene de ambulância da de viatura de polícia e de bombeiro.

O guru do hipocondríaco é Hipócrates, e sua filosofia se resume nesta questão metafísica: "Se a gente nasce deitado e morre deitado, por que não viver deitado?"

O hipocondríaco morre de medo da vida saudável. Está convencido de que a diferença entre o médico e ele é que o primeiro conhece a teoria e, o segundo, a prática. Nunca pergunte a ele: "Vai bem?" É preferível: "Melhorou?"

O hipocondríaco só assina revistas médicas e, nos jornais, lê primeiro o obituário. Mas, ao contrário do que se pensa, o hipocondríaco não quer morrer — isto o curaria de sua loucura.

Nunca convide um hipocondríaco a matricular-se numa academia de ginástica. Ofereça-lhe um check-up. Os únicos exames que ele aceita fazer são os clínicos e adora ser reprovado. Se faz cooper, a perna dói; se pratica natação, fica resfriado; se flexiona o abdome, sente dor nas cadeiras.

O hipocondríaco escuta o médico com a mesma atenção que o bêbado ouve os conselhos do abstêmio. A turma do hipocondríaco se reúne em porta de farmácia e tira férias em clínicas de repouso.

O hipocondríaco é o único paciente que consegue decifrar letra de médico. Ele não se recolhe para dormir, e sim para repousar. Nunca deseje "bom-dia" a um hipocondríaco; pergunte: "Levantou melhor?" Aliás, ele não se levanta; tem alta. No aniversário, dê a ele um vidro de remédios. Todo hipocondríaco é viciado em aspirina, vitamina C e melatonina.

O hipocondríaco sabe dar nó nas tripas e acredita que o melhor lazer é curtir uma diverticulite. Considera incompetente todo médico que diz que ele não tem nada.

O hipocondríaco acredita em tudo que a mídia fala sobre cuidados com a saúde.

Quando viaja, não se hospeda; se interna. No bolso de dentro do paletó ele não carrega caneta, mas termômetro. E é a única pessoa capaz de enxergar vírus e bactérias em talheres de restaurantes.

Sonho de hipocondríaco é ser socorrido por um daqueles helicópteros UTI que aparecem na TV. E sempre reclama de que já existem telessexo, telepiada, telepizza, telessorteio, só falta o teledoença: você liga, descreve os sintomas e, do outro lado da linha, uma voz de médico prescreve a medicação.

Deve ter sido um hipocondríaco quem deu ao remédio que combate infecções o nome de antibiótico — que significa "contra a vida".

O hipocondríaco não tem remédio. Ele só se cura quando morre e, paradoxalmente, a morte é o sintoma mais óbvio de que ele tinha razão. Pena que não possa levantar-se do caixão e enfiar o dedo na cara de quem o tratava pejorativamente como hipocondríaco. De qualquer modo, repare como ele, defunto, traz um sorrisinho de vitória nos lábios.

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Frei Betto (Carlos Alberto Libânio Christo),(1945) quando jovem frade dominicano esteve envolvido com as lutas revolucionárias de seu tempo, com a política e a arte. Militante de esquerda, simpatizante da luta armada, se dividia entre os estudos de filosofia, o jornalismo e a assistência de direção de José Celso Martinez Corrêa na histórica montagem de "O rei da vela", pelos idos de 1967. É escritor consagrado, com inúmeros livros de sucesso, dentre eles "Fidel e a Religião", coletânea de entrevistas com o líder cubano. O texto acima foi publicado no jornal "O Globo", em 08/98.

02 julho 2013

TERCETOS




Noite ainda, quando ela me pedia 
Entre dois beijos que me fosse embora, 
Eu, com os olhos em lágrimas, dizia: 

"Espera ao menos que desponte a aurora! 
Tua alcova é cheirosa como um ninho... 
E olha que escuridão há lá por fora! 

Como queres que eu vá, triste e sozinho, 
Casando a treva e o frio de meu peito 
Ao frio e à treva que há pelo caminho?! 

Ouves? é o vento! é um temporal desfeito! 
Não me arrojes à chuva e à tempestade! 
Não me exiles do vale do teu leito! 

Morrerei de aflição e de saudade... 
Espera! até que o dia resplandeça, 
Aquece-me com a tua mocidade! 

Sobre o teu colo deixa-me a cabeça 
Repousar, como há pouco repousava... 
Espera um pouco! deixa que amanheça!" 

E ela abria-me os braços. E eu ficava.
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Olavo Bilac
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UM BILHETE





Antes mesmo que acabasse o baile, Maria Adelaide dizia à mãe que não queria ficar um minuto mais que fosse.
— Que é isso? disse-lhe a mãe. Deu uma hora agora mesmo.
— Não quero saber. Vamo-nos embora.
— Ora, meu Deus!
— Vamos, vamos.

Não havia que dizer, a mãe era governada pela filha, e perderia o lugar no céu, se tanto fosse preciso, para não desgostá-la. Note-se que não cedia pouco desta vez; cedia a ceia, que era excelente, e a boa viúva professava esta filosofia: — que as ceias excelentes são preferíveis às boas, as boas às más e as más às que não têm existência. Sacrificava a melhor parte do baile; mas, enfim, contanto que a filha não padecesse. 

Padecer, padecia. No carro, logo que as duas entraram, Maria Adelaide começou a ralhar com tudo, com o carro, com a capa, com o calor, com o pó, com a mãe e consigo mesma. A mãe entendeu logo: era algum desgosto que o Chico Alves lhe dera. Realmente, lembrou-se que o Chico Alves, indo despedir-se delas, nem alcançou que Maria Adelaide olhasse para ele. A moça deu-lhe os dedos, a pontinha apenas, e falou-lhe de costas; naturalmente estavam brigados. 

A viagem foi atribulada. Nunca o mau humor da moça foi tamanho nem tão explosivo. A mãe pagou pelo namorado, mas como era prudente e estava com fome, preferiu não dizer nada. 

Em casa, continuou o mau humor. A pobre criada da moça padeceu como nunca. Maria Adelaide entrou para os seus aposentos, furiosa, despiu-se ás tontas, dizendo coisas duras, rasgando uma das mangas do vestido, atirando as flores ao chão, raivosa e indignada sem causa aparente. No fim, disse à criada que se fosse embora, e ficando só rebentaram-lhe as lágrimas. Assim mesmo sozinha, ia falando, mordendo os lábios, dando punhadas nos joelhos. Depois arrancou da cadeira, foi à secretária e escreveu este bilhete: 

Nunca pensei que o senhor fosse tão pérfido. Nunca imaginei que pudesse proceder com fez no baile; creia que não manifestei o meu desgosto, por dois motivos: — o primeiro, porque ainda tive força de me dominar; segundo, porque depois do que o senhor me fez, nada pode haver mais entre nós. Case-se com a viúva, se quer. Mande as minhas cartas e adeus. Esta determinação é irrevogável. Qualquer tentativa de reconciliação obrigar-me-á ao que não quero. 

Tinha dado expansão à cólera, deitou-se para dormir. O sono não veio logo; a raiva agitou a pobre moça, e só quando começou a madrugada foi que ela pôde dormir um pouco. No dia seguinte, o Chico Alves recebia este bilhete: 

Desculpa algumas palavras que te disse ontem no baile. Estava muito zangada. Vem hoje tomar chá, e eu te explico tudo. 


                                                         Machado de Assis

13 junho 2013

OS RUBAIYAT DE OMAR KHAYYAM
























Busca a felicidade agora, não sabes de amanhã.

Apanha um grande copo cheio de vinho,

senta-te ao luar, e pensa:

Talvez amanhã a lua me procure em vão.

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Que pobre o coração que não sabe amar

e não conhece o delírio da paixão.

Se não amas, que sol pode te aquecer,

ou que lua te consolar?

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É inútil a tua aflição;

nada podes sobre o teu destino.

Se és prudente, toma o que tens à mão.

Amanhã... que sabes do amanhã?

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Além da Terra, pelo Infinito,

procurei, em vão, o Céu e o Inferno.

Depois uma voz me disse:

Céu e Inferno estão em ti.

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Cansado de perguntar aos sábios, perguntei à taça:

para onde irei depois da morte?

Ela me respondeu baixinho: Bebe em minha boca,

bebe longamente: não voltarás.

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Omar Ibn Ibrahim El Khayyam nasceu em Nichapur, Pérsia, a atual República Islâmica do Irã, em 1040 e morreu nessa mesma cidade em 1120.
Khayyam significa, em persa, fabricante de tendas; ele adotou esse nome em memória do pai que era fabricante de tendas.
Além de poeta Omar Khayyam foi matemático e astrônomo. Dos seus livros de ciência chegaram até nós o Tratado de Algumas Dificuldades das Definições de Euclides e as Demonstrações dos problemas de Álgebra. Em 1074, diretor do Observatório de Merv, fez a reforma do calendário muçulmano.
Rubaiyat é o plural da palavra persa rubai, e quer dizer quadras, quartetos. No rubai, o primeiro, o segundo e o quarto versos são rimados, o terceiro é branco.

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POEMA










gênese II


No princípio era o verbo 

uma vaga voz sem dono 

vagando pela via láctea.


Depois veio o sujeito 

e junto com ele todos 

os erros de concordância.


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[Gregório Duvivier]

10 junho 2013

CONFISSÃO

 

 

Confissão

 

"Fui me confessar ao mar.
  O que ele disse?
  Nada!
"

(

Lygia Fagundes Telles) “

FIM DA JORNADA!!