17 abril 2015

IMAGO CAPÍTULO lll

O ÚLTIMO EMBATE


 Eram sete horas da manhã de sábado, Leandro vira, sobre o cesto de roupas, a camisa de Guilherme, rasgada, manchada de sangue e sem dois dos sete botões com os quais saíra na noite anterior. Há apenas três semanas, ele fora chamado ao Grupo Educacional Magister por conta de um envolvimento do filho em uma briga em sala de aula. Segundo a direção do colégio, vários alunos viram Guilherme derrubar um colega de sala, sentado duas carteiras atrás da sua, sem motivo aparente, e bater-lhe, repetidamente, a cabeça contra o piso. O rapaz agredido tentando se defender, agitando os braços, instintivamente, feriu o lábio superior de Guilherme que, só então o largou. Quando o professor de literatura conseguiu furar a barreira de alunos que se formara no fundo da sala, encontrou seu filho sobre o outro estudante que parecia estar desmaiado, mas que, felizmente, logo voltara a si. Tanto Leandro quanto o filho firmaram, perante o diretor Marcondes, o compromisso de não mais meter-se em confusões, sob pena de exclusão em caso de reincidência. Na volta para casa, o pai ouvia uma versão bem diferente, contada entre lágrimas de raiva, de frustração e de mágoa. Atravessados, assim, esses sentimentos não só provocam o choro mas também embargam a voz, congestionam as faces, dilatam as pupilas e apertam as têmporas dos que deles padecem. O pai ouvia o filho e lembrava um de seus professores, quando era ainda um educando em psicologia. O mestre dizia sempre a seus alunos:
            – A verdade é o pico de uma montanha. Alguém se encontra de um lado, no sopé desse obelisco rochoso criado pelas forças telúricas; um outro alguém se põe do lado oposto. Ambos miram o pináculo do agigantado relevo e, para os dois, aquele é o cume da montanha, mas não é o mesmo cume que veem. Cada qual o vê conforme a circunscrição de sua óptica. O cume não os vê nem a um nem a outro. Dirão vocês, então, que não os vê por se tratar de um ser inanimado. Não, meus caros! Não os vê porque está acima deles; eis a verdade!
            Na versão de Guilherme, Alécio, o rapaz supostamente espancado, puxou-lhe pelos cabelos e o arrastou de costas até quase ao fundo da sala, aplicando-lhe, em seguida, uma bofetada no rosto, após o que, agarrou-o pela cintura, levando-o ao chão, simulando o que o professor Renaldo julgou ter visto, sugestionado, ainda pelos simpatizantes de Alécio.
            O pai, pela primeira vez, admitiu a hipótese de que o filho estivesse sofrendo de algum distúrbio de personalidade, pois percebera que ele estava sendo honesto consigo mesmo, não havia embuste nem falsidade em seu depoimento. Guilherme criara sua própria verdade, ignorando todas as evidências e testemunhos reais apontados contra ele. Eis aí a gravidade de seu estado psíquico: não só negava a verdade, mas renegava a realidade dos fatos.
            Agora, Leandro segurava com as duas mãos a camisa do filho, notara, surpreso, que algumas lágrimas vinham misturar-se às manchas de sangue espargidas no tecido. Desde a morte da esposa, há quatro anos, que ele não derramava uma lágrima sequer, não que tivesse feito promessa ou algo semelhante. Simplesmente, não conseguia mais chorar, embora nenhuma passagem anterior de sua vida fora tão sofrida e vazia quanto nesses últimos anos que lhe marcavam a amarga viuvez. Arrebentara-se nele, com a perda de Beatriz, toda a carne e toda a estrutura óssea do peito. O coração estava exposto, mas lhe batia ainda. O coração era Guilherme, e agora gravemente afetado, provavelmente, pela falta da figura materna e pela sua inépcia de pai viúvo, era normal que lhe reclamasse de novo as lágrimas do passado.
            Deixara no cesto de roupas a camisa e as lágrimas. Entrara, silenciosamente, no quarto do filho, quebrando o protocolo por eles estabelecido. Não lembrava, até então, a última vez que visitara os domínios particulares do filho. e assim, clandestinamente, sentia-se um intruso. Guilherme ressonava como sempre, como se nada estivesse errado, como se nada de grave tivesse acontecido na noite anterior. Mas havia a camisa manchada de sangue. Examinara o filho, deitado de bruços, os braços esgarçados, e tranquilizara-se ao ver que não apresentava nenhum ferimento. Subitamente, seu temor tornou-se ainda maior por vê-lo incólume sobre os lençóis de sua cama. A quem pertencia aquele sangue? O que fizera seu filho de errado?  Como protegê-lo? E, involuntariamente, disse, num sussurro:
            – Meu Deus!  – A frase era mais uma interjeição do que um apelo à fé em um Criador e Redentor. Se a Ciência lhe enfraquecera a fé e o nascimento de Guilherme a realimentara em seu espírito, a morte da esposa a extirpara de forma irreversível. Dois menores bateram à janela do carro da esposa, por volta das quatro horas da tarde e, sob um semáforo, deram dois tiros à queima-roupa em sua fé. A fé de Leandro foi morta com dois tiros, foram as mãos levantadas rápidas demais para o céu que a mataram. Do encontro dialético entre o susto dos favelados e sua fé de mãos erguidas para o firmamento, resultou o vazio solitário da viuvez e, para ele, angustiado, próximo ao leito do filho, Meu Deus significava apenas uma interjeição.
            – Pai? – Guilherme observava há quase dois minutos a figura de Leandro ao pé de sua cama, os olhos muito abertos do pai viam através dele, mas não o enxergaram, por exemplo, despertar, movimentando os braços para cima e estirando-os, num espreguiçar moroso e sincrônico com os membros inferiores. Seus pés tocaram, involuntariamente, um pouco abaixo dos joelhos paternos, que só então se dera conta de que o filho estava acordado.
            – Qual o problema? – continuou Guilherme, percebendo que o pai voltara à Terra. – Tudo bem com o senhor?
            A contribuição genética que coube à mãe acabara de acordar com Guilherme. Assim como Beatriz, o filho não só despertava de bom humor como também revelava uma inclinação benévola e pacífica. Seu estado de aflição abrandou-se um pouco ao ouvir a voz do filho. Servia-lhe de refrigério o tratamento formal com que o filho habitualmente se dirigia a ele: “Tudo bem com o senhor?” Urgia responder algo, mas precisava ser sensato e cauteloso.
            – Bom-dia, filho! Estava esperando você acordar para lhe fazer um pedido muito especial.
            – De que se trata? – Guilherme puxara o corpo mais para cima e apoiara as costas na cabeceira da cama que rangeu à  pressão de seu peso, as pernas dobradas e presas pelos braços cruzados.
            – Bem, hoje é sábado e eu queria muito encontrar você em casa para o almoço. Chegarei antes do meio-dia. Posso contar com a sua presença?
             – Pai, aos sábados é o senhor que nunca está presente para o almoço. – Guilherme esboçara um riso maroto e um tanto debochado, porém sem hostilidade ou amargura. Leandro, entretanto, rira por assentimento de culpa, era réu confesso.
            – Então, estamos combinados! – Fechou a mão em punho e bateu de cima para baixo sobre a mão do filho, também cerrada, que, depois de receber o leve golpe, repetiu o mesmo gesto. Riram-se de novo, ambos acanhados, e separaram-se. O pai tinha o consultório; o filho, a cama.
            Se da primeira vez, naquela manhã, o silêncio do pai o acordara, agora tinha sido literalmente arrancado de seu sono por um relinchar de pneus queimando asfalto, seguido por buzinas e insultos de baixo calão. Erguera-se, ainda entorpecido. O sono tem essa característica rigorosa; faz mal a quem dele se abstém, mas também a quem dele abusa. Passava das onze. O pai logo estaria em casa. Tomou um banho rápido, e, enquanto abria seus e-mails, ouviu a porta se abrindo e tornando a se fechar suavemente. Só o pai tinha a delicadeza e técnica necessárias para fazer isso. Aquela porta tinha um defeito irritante, mas que para o pai vinha a calhar. Havia um problema de engenharia nela que lhe conferia um peso e velocidade, em quando se queria fechá-la, que tornava impossível a qualquer um, à exceção de seu pai, realizar essa tarefa sem produzir um estrondo flagrante. Detalhe por que o pai sempre ficava sabendo de seu horário de chegada quando saía à noite. “À Noite”, só então Guilherme parava para pensar no que lhe havia ocorrido como, também, no que lhe poderia ter ocorrido. O pai chamava lá da cozinha:
            – Guilherme? Guilherme?
            Deixou o computador e foi atender o pai. Encontrou-o já preparando a macarronada e expondo sobre a mesa redonda, em que costumavam almoçar nos dias em que a harmonia familiar resistia às intempéries que obscuramente se formavam, um frango assado, quase torrado, comprado às pressas no shopping próximo de onde moravam.
            – Com fome? Vamos ao que interessa! – Novamente Fechou a mão em punho e bateu de cima para baixo sobre a mão também fechada de Guilherme que, mecanicamente, repetiu o movimento do pai, batendo, por sua vez sobre a mão fechada de Leandro.
            – Vamos comer e beber! Vinho do papai, refrigerante do filhão! – Ria enquanto servia os copos. Guilherme sabia que Leandro não estava sendo natural, mas reconhecia seu esforço e apreciava sua iniciativa. Cortando o pequeno frango assado, Guilherme mirava o pai para concluir em segredo:”O senhor é um bom pai!”
            Como é de regra na adolescência, o filho transgrediu toda norma de etiqueta à mesa: a coxa de frango entre os dedos em alicate, algo como um picolé de carne a se derreter em contato com a boca, deformada nas bochechas dilatadas, a refeição engolida em um só movimento de sucção, dispensando a mastigação, cinco ou seis garfadas e era uma vez a macarronada.
            A verdade é que Leandro tentava adiar a hora fatídica. Conhecia muito bem a fragilidade daqueles momentos de paz e harmonia familiar. Dispensara, mesmo, sua profunda perícia psicanalítica ao protelar a conversa para depois do lauto almoço; o produto de toda situação conflitante é mitigado por um estômago bem forrado. Essa particularidade científica aprendera com a mãe que sempre repetia a mesma frase em outras palavras. Por mais que se adie o que de odioso há, chegara o momento.
            – Filho, lembra da nossa conversa de ontem à noite? Eu lhe propus uma consulta com um psicanalista, minha sugestão foi o doutor Leocádio Lavorini...
              – E eu lhe perguntei se não estava em meu estado psíquico normal?! Lembro, sim! – Guilherme lhe respondeu com enfado.
            – Você deve se recordar dele! Apesar do afastamento após a – ia dizer após a morte da esposa, mas trocou rápido as palavras  – mudança de cidade que achamos por bem fazer, ele continua sendo um grande amigo nosso.
            – Pai, por favor! Mudança de cidade que o senhor achou melhor fazer, ele continua sendo um grande amigo seu. – Guilherme já estava visivelmente alterado, contrariando os conhecimentos consuetudinários da avó.
            – Ele chega de São Paulo daqui a alguns dias. Vem decidido a fixar morada e é provável que atendamos como sócios na minha clínica.
            – Pai, eu estou bem! Mentalmente bem! Não se preocupe!
            – Que droga, Guilherme! Eu não posso ser seu psicanalista porque sou seu pai!
            – E também não consegue ser meu pai porque é psicanalista!
            – Tudo bem, filho! – Leandro levantou-se, bruscamente, indo, a passos largos,  em direção à área de serviço, voltando em seguida, estacou de pé e encostado à mesa – Então, você pode me explicar o que significa isto? – nas mãos a camisa rasgada e manchada de sangue.
            Guilherme olhou da camisa para o pai e de novo para a peça de roupa em frangalhos. Reconheceu que foi imprudente em deixar a camisa à vista do pai. Agora, só lhe restava relatar a ele o episódio da noite passada.
            – Posso, sim! – começou em tom desafiador – Lembra do Alécio, aquele psicopata? Ele me perseguiu, ontem, quando fui assistir à apresentação de dança na praça. Corri o quanto pude, mas fui encurralado por ele e mais dois de seus amigos. Achei que eles iriam me matar. Um cara que eu nunca vi na vida apareceu do nada e deu uma surra nos três miseráveis, e adivinha... usou apenas dois pedaços de pau, pouco mais que duas réguas escolares de madeira para nocautear os doentes mentais. – Guilherme ria satisfeito e, novamente, revivendo a admiração pelo desconhecido.
            – Filho, pensa no absurdo que você está me falando! Você, realmente, crê nessa história fabulosa? É isso que você, de fato, acha que aconteceu com você ontem à noite?
            – Por que você sempre acha que eu estou mentindo? – Guilherme tinha já a voz ferida, os olhos faiscavam de raiva.
            – Eu acredito em você, mas não posso alimentar sua fantasia, filho!
            Guilherme, ainda sentado, pôs ambas as mãos sobre a mesa, os cotovelos levantados.
            – Já disse, pai, o senhor não consegue ser meu pai porque é psicanalista! O senhor é incapaz de deixar essa droga de psicanálise de lado, nem que seja por um minuto. – Guilherme se erguera enquanto as lágrimas rolavam de seu rosto, indo parar no vazio do prato, o peito também vazio. Empurrou a mesa e a cadeira em sentidos opostos. Buscava de novo, na rua, o alívio de toda a frustração causada pelo julgamento do pai psicanalista. Ouvia Leandro ainda lhe falando da porta.
            – Não fuja, Guilherme! Eu quero ajudá-lo, meu filho!
            Leandro voltara à mesa. Recolhera os pratos. O dele ainda cheio, o peito também cheio: de angústia, de impotência, de revolta. Suspirou, mentalmente: “Beatriz!”.




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