17 abril 2015

IMAGO - CAPÍTULO ll



O NOVO ENCONTRO





 Agora Alécio e seus dois amigos, já que o terceiro se contundira com a violenta queda e abandonara o campo de batalha, estavam a menos de dois metros de Guilherme. A tríade diabólica esboçava um sorriso ou esgar repugnante. Certamente iriam se divertir primeiro com a presa. Saborear os instantes que precedem o golpe de misericórdia. Ele, resignado, prostrou-se de joelhos por terra, ipsis litteris. Provavelmente, o mesmo sistema de defesa voltara à ativa, pois observara que no chão onde se curvara faltavam três ou quatro metros do concreto da calçada. Quem sabe a porção de cimento e ferro faltante, e de direito dos pedestres, fora abduzida por alienígenas cleptomaníacos.
            – Um raro momento da mais viva prova de valentia, hein, rapazes! – Era a mesma voz que ouvira há pouco, mas desta vez acompanhada de seu dono.
            – O que você tem a ver com isso, seu escroto?! – Alécio atirou o acinte, nada intimidado com a interrupção inesperada, afinal tratava-se de um rapaz entre 16 e 18 anos, se tanto, de um porte nada atlético ou corpulento. Enquanto alisava a arma branca, ajustada nos dedos da mão direita fechada em punho, Alécio não só observava isso como, também, a pouca estatura do jovem inoportuno, não o classificando de anão apenas porque, possivelmente, se equiparavam nesse quesito, e que deveria ter não mais do que setenta quilos de imprudência.
            – Sinceramente, não sei lhe responder com precisão o que “tenho a ver com isso” – ergueu ambos os braços e expondo os dedos médio e indicador em gancho, num movimento repetitivo, assinalava as aspas em uma mímica que demonstrava completa descontração e tranquilidade, embora despropositais. – mas é melhor vocês deixarem o garoto em paz!
             – Vá pro inferno, seu anormal! Ou melhor, dê o fora antes que eu lhe mostre o caminho até ele. – Alécio achara o dito espirituoso, soltara, em uma autoanálise isenta de modéstia, uma gargalhada desarmônica e seca, exibindo ao desconhecido o soco inglês à altura do próprio rosto.
            Guilherme permanecia de joelhos. Alécio e seus dois fantoches, Bruno e Thomas, formavam um triângulo ameaçador sobre ele. Ao ver a figura excêntrica que desafiava a tríade de desajustados, ele também fez uma rápida e pouco auspiciosa avaliação do rapaz que retardava o massacre. Desta vez não pensara em nenhuma frase de Murphy, mas balbuciara inconsolado:   
            – Só me faltava essa!
            O jovem vestia-se de forma elegante, mas pecava pela formalidade extrema da calça cinza de poliéster, sapatos pretos sumamente engraxados e camisa branca de algodão, rigorosa e zelosamente posta para dentro da calça, presa por um cinto de couro, também preto e de fivela dourada. Desde que chegara, encostara o ombro direito em uma armação de madeira que servia de proteção a uma pequena árvore que tentava crescer em ambiente tão hostil a qualquer vegetação. Com o corpo ligeiramente inclinado, apoiado apenas na perna direita, a esquerda cruzada por trás desta, batendo distraidamente com o bico do sapato no chão.
              Alécio girou nos calcanhares, voltou novamente sua atenção para Guilherme, caminhou decisivo em sua direção com a mão armada na mesma posição, Bruno e Thomas, num entendimento tácito, para não se dizer telepático, seguraram-no entre os braços e os ombros. “ Enfim o desfecho”, concluía, em pânico, o desamparado aluno do Grupo Educacional Magister, “GEMA”; a memória tornou a torturá-lo. “GEMER”. Alécio agarrou brutalmente a gola de sua camisa com a mão esquerda. Guilherme olhou em seus olhos, depois viu, por detrás de sua cabeça, as pontas metálicas e escuras do soco inglês, uma autêntica manopla medieval. “Este doente vai arrancar minha cabeça.” Sentiu nitidamente que iria desmaiar de pavor. Ouviu-se um estalar de algo se quebrando ou sendo arrancado. Todos se voltaram na direção do desconhecido que, agora, investia contra o grupo, cada uma das mãos armada com um sarrafo de quarenta ou cinquenta centímetros que foi tirado, num único puxão, da armação de madeira que até então lhe servira de espaldar.
            – Eu os avisei! – E sem mais dizer, cruzou os braços à frente do corpo, desferindo em seguida, com o braço esquerdo, um golpe horizontal certeiro que atingiu a garganta de Alécio, e, quase simultaneamente, o outro braço descrevia o mesmo movimento, produzindo um estampido breve e assustador que marcava de sangue sua têmpora esquerda. Fosse um quadro bíblico, qualquer um veria, encarnada ali, uma alusão a Davi e Golias.  E, tal qual, o gigante caíra. Para a sorte de Alécio, ainda que imerecida, não se tratava do duelo entre o israelita e o filisteu das Sagradas Escrituras, pois embora caísse nocauteado, dava sinais de vida, estremunhando e agitando as pernas desordenadamente. Dada a rapidez do inesperado ataque, os outros dois permaneciam na mesma posição, aparvalhados, segurando, um de cada lado, os braços de Guilherme.
             Infelizmente para ambos, o combate teve sequência igualmente instantânea e marcial. Novamente, o jovem recolhera os dois sarrafos, a princípio tão inofensivos, à frente do peito, formando um xis, e num repelão convulsivo, tornou a esticá-los horizontal e lateralmente, ferindo, ao mesmo tempo, o nariz de Bruno e o supercílio direito de Thomas, levando-os, também, a buscar o conforto e a segurança do chão, onde sempre se geme com maior comodidade.
            Em seguida, estendeu os braços à frente e para baixo, ainda com os dois pedaços de madeira na extremidade das mãos, nos quais Guilherme se segurou e foi, firmemente, içado, pondo-se de pé, mas sem condições de se recompor prontamente. Houve, então, um intervalo constrangedor. Guilherme continuava a segurar os pedaços de madeira, bem próximo das mãos de seu salvador misterioso. Se lhe surgisse, para resgatá-lo do perigo, um homem de músculos de aço, com uma cueca vermelha por cima de uma calça azul de lycra, envolto em uma capa vermelha, não lhe causaria o mesmo espanto e completa suspensão que experimentava agora. 
            – Você está bem? – A voz lhe parecera suave e terna, talvez já efeito da gratidão patente que Guilherme sentia pelo outro que lhe falava, olhando-o obsequioso, provavelmente, na esperança de ouvir qualquer frase que lhe confirmasse a integridade física e mental ou, quem sabe, desejando que ele, finalmente, largasse os dois sarrafos pelos quais os dois jovens estavam indissoluvelmente unidos.
            – E-e-e-eu, é...é.... – Não se pode exigir eloquência a alguém que passou por tão maus bocados. No entanto, o mais curioso de tudo é constatar que nada torna a criatura humana mais incapacitada, pondo-a mesmo em um estado de catalepsia, do que a salvação em uma situação em que ela própria já se considerava irremediavelmente perdida, quando ela já se julgava na mais completa danação. Era este o estado emocional de Guilherme que, petrificado, mantinha os olhos fixos nas esverdeadas íris de seu paladino noctívago.
            – Guile! Guile! – Guilherme se virara, bruscamente, despertado do transe. Só ela poderia fazê-lo voltar à realidade.
              Nádia! – na pressa com que caminhara até a jovem, nem percebera que levava, nas mãos firmemente fechadas, os bastões ensaguentados de madeira.
            – O que aconteceu, Guile? – Ela encontrou os três rapazes feridos. Alécio, no meio, estirado ao chão. Ao lado, seus amigos dos bons e maus momentos, sentados e sangrando muito, o trio compunha, entre ais e uis, uma fúnebre canção.
            – O que você fez? – reformulou a pergunta, incrédula.
            – Eu não fiz nada! Quem fez foi... e-le... – seu estranho salvador, também, salvador estranho, havia sumido. Guilherme ainda tentou procurá-lo, não poderia ter ido muito longe, mas  Nádia tomou-lhe pelos braços, tirou, com dificuldades, os pedaços de madeira de suas mãos, lançando-os fora, e correu dali em disparada, rebocando Guilherme, que insistia em olhar para trás, perturbado, ainda, com tudo que lhe ocorrera.  A última coisa que viu, claramente, foi Alécio se levantando com a ajuda dos outros rapazes, a imagem sumindo aos poucos,  pelo caminho da  esquerda, na escuridão  da rua.











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