12 agosto 2012

DO LIVRO IMAGO - CAPÍTULO l




O ENCONTRO




Lá  está ele no meio da multidão. O riso sardônico,  quase imperceptível, foi resultado do pensamento que lhe acabara de ocorrer após lançar um rápido olhar a sua volta: ”Sou uma ilha rodeada de pessoas por todos os lados”. O clichê se ajustava a Guilherme como uma luva, sem folgas, sem apertos.
            Já eram nove horas da noite. Discutira, invariavelmente, com o pai. Às sextas-feiras, nada era mais presumível que aquele esgrimir de palavras pontiagudas.
            – Então eu não estou em meu estado psíquico normal?! Ah, claro! Preciso de um psicanalista! Talvez você, pai, esteja buscando uma compensação por suas falhas paternas, sendo psicanalista o que não consegue ser como pai: eficiente, competente, responsável! É, parece que a análise está em meu sangue. Deve ser mal de família!
            Leandro o observava de alto a baixo, certamente, também já o estava analisando, e antes que lhe dissesse “Sente-se, filho! Vamos conversar civilizadamente.” Guilherme abriu a porta lateral da sala de estar que dava para a garagem e saiu, batendo-a violentamente. Nada lhe fazia ferver mais a bílis do que a frase imperativa, porém pacífica do pai – era , na verdade, o psicanalista quem falava.
            Se o conflito com o pai era rotina, o fato de estar ele em uma apresentação de dança aberta ao público era algo inusitado. Inexplicável? Jamais! O enigma tinha resolução certa e infalível – Nádia!
            Da primeira vez que a viu, Guilherme ouviu claramente uma voz gutural que se evolava do alto teto da sala de aula e parecia bater no piso azulado e tornar a subir num movimento sonoro de mola:
             – Façamo-la a Nossa imagem e semelhança!
E assim foi feita. Nádia era uma jovem encantadora, de olhos verdes, de pele muito clara e macia, cabelos loiros, por hábito reunidos num coque fixado por dois espetos de madeira vernizados, expondo a nuca bem talhada e fina. Comumente, quase um vício, punha ambas as mãos por trás da cabeça, lembrando prisioneiros de guerra, e retificava o penteado arrojado. Nesta posição, seus seios firmes de uma adolescente de dezesseis anos se ajustavam ainda mais à camisa branca do uniforme, provocando em Guilherme sensações, até então, desconhecidas.
            De duas coisas orgulhava-se o jovem enamorado: Tinha três meses de vida a sua frente; portanto, podia se considerar mais velho do que ela. Também era cerca de dez centímetros mais alto – o que não o espantava, pois há quase um ano já media um metro e oitenta. Provavelmente, era também dez centímetros mais alto do que Leandro.
            E qual a relação entre Nádia  e o motivo de estar ele ali, espremido em meio àquela massa humana que mais e mais se condensava? Eis que surge um grupo de dançarinas no palco montado, especialmente, para a apreciação popular de mais um Festival de Dança, e quando se desfaz o girassol de corpos artísticos,  desponta, na ponta dos pés bailarinos, Nádia , o centro das atenções de todos os presentes, o centro do palpitante coração de Guilherme, que suspira, transpassado por algo arrebatador. Em seu traje justo, a minissaia meramente decorativa (cumprindo fielmente sua função), os braços erguidos e alongados, apontando as estrelas, os seios tão firmes quanto sempre por ele vistos, as pernas roliças e atléticas.
            Num salto ágil e acrobático, ela rompe o círculo de dançarinos e leva consigo todos os olhares; a Guilherme quase leva seus olhos e córneas. É quando ele vê que Alécio também o observa. Há, também, estampado em seu rosto uma cobiça e um desejo voluptuoso, mas Guilherme bem sabe que Alécio não nutre por ele as mesmas fantasias que o jovem apaixonado, agora em perigo, alenta por Nádia . Sabe que o brutamontes, de apenas um metro e setenta e cinco, com noventa quilos de puro músculo – construído com muito treino e muito mais esteroides – é um sádico por excelência.
            O transe durou menos de vinte eternos segundos, nos quais lhe vieram à mente uma das leis de Murphy: “Está feliz? Já vai passar!” e uma das célebres frases de seu pai, quando algo lhe saía errado “Da bossa à fossa!” Ao mesmo tempo em que lia os lábios grandes e grossos de Alécio, que se moviam lenta e mecanicamente:
            – É ho-je que eu te ar-re-ben-to, Gri-lo! É ho-je que eu te ar-re-ben-to, Gri-lo!
            Guilherme olhou, pela última vez, Nádia levitando no palco. Na verdade achou que seria a última vez que veria a ela ou a qualquer outra pessoa. Voltou a procurar por Alécio, agora bem mais perto dele, abrindo caminho na multidão, dividindo-a como fez Moisés ao Mar Vermelho. Notara ainda que o bárbaro trazia enfiado nos dedos um soco inglês e que três outros rapazes compunham uma formação estratégica para encurralá-lo. É impressionante o quanto se aguçam os sentidos de um ser humano quando este se percebe em uma situação de risco real e imediato. Por um instante, Guilherme fraquejou e pensou em deixar-se ficar. Sentiu-se mesmo um veado das savanas africanas perseguido por um bando de leões famintos. A analogia trouxe-lhe à memória as troças e provocações de Alécio em sala de aula, sentado sempre duas carteiras atrás da sua.
            – Veadinho, oh, veadinho! Grilo veadinho!
            A lembrança produziu adrenalina. De novo fervia-lhe a  bílis. Notou, já um tanto desnorteado, que Nádia também movia, nervosamente, seus lábios carnudos e sensuais enquanto executava os movimentos suaves e majestosos de braços e pernas:
            – Corre, Guile! Corre!                                       
            Igualmente impressionante é a reação instintiva de um ser humano quando este se percebe em uma situação de risco real e imediato. Como se o cérebro não dispusesse de tempo para pensar em uma solução ou saída frente ao perigo com que se defronta. O raciocínio, a consciência se anulam e, no mais intrínseco do DNA humano, ressurge o animal bruto e selvagem, sufocado por milênios de evolução. Este pensamento teria Guilherme, dias depois, em uma situação mais favorável a lucubrações e reflexões cuja profundidade pedia calma, inércia e silêncio.
            O certo é que, seja como for, ele corria desesperada e inconscientemente. Não saberia dizer que disparo pôs suas pernas a galope de ginete, nem mesmo lembrava o perfeito passe de mágica com que se esquivou do abraço fatal de um jovem entre robusto e obeso, ameaçador, de qualquer forma, e, subsequentemente, escapou de um pontapé verdadeiramente marcial do próprio Alécio.
            Guilherme, não precisava olhar por cima do ombro para medir a distância que o separava de seus predadores em potencial, podia calculá-la pelo tropel dos passos que arremedavam os seus, tamanha era a afloração de seus órgãos sensitivos naquela hora.
            A façanha do blecaute cerebral é um artifício anódino, e paulatinamente todas as funções intelectivas reassumem seus postos. Guilherme já está ciente, por exemplo, de que em poucos minutos será alcançado e sumamente espancado por seu arqui-    -inimigo e colega de classe do 2º ano matutino do ensino médio do GEMA – ele próprio nunca gostou do nome abreviado do colégio em que estudava já há quase dois anos, menos ainda agora em que o nome GEMA num exercício mnemônico involuntário o levava a pensar no verbo “gemer”. Na verdade ouviam-se mesmo gemidos e estertores do quase maratonista que começava a sentir fortes pontadas no lado esquerdo do tronco. Não sabia se doía-lhe o rim ou o baço, posto estrategicamente daquele lado do corpo para mortificá-lo, a própria respiração era um suplício. Entre este sofrimento e o que prometiam os punhos de Alécio, Guilherme continuava correndo, rompendo as barreiras das probabilidades. Ouviu, a poucos metros, um estrondo abafado e brusco, um dos sequazes de Alécio se estatelara na calçada irregular e arruinada que se estendia por toda a Cidade dos Príncipes. Reflexivamente, agradeceu a calçada destruída e deixada ao abandono dos chamados órgãos municipais competentes. Lembrava, enquanto trocava, sofregamente, as pernas, o quanto, por vezes, zombara da cidade que Leandro escolhera para viver, longe da lembrança da esposa, morta em um assalto relâmpago, num semáforo da rua Paraíba, no centro de São Paulo, em plena luz do dia. Falava, também, com a intenção de atingir o pai. Cidade dos Príncipes sem príncipe algum. Em lugar de tapetes vermelhos, calçadas em estado deplorável. Cidade das Bicicletas sem ciclovias, raras as bicicletas e montados nelas verdadeiros camicases. Cidade das Flores sem jardins ou campos floridos. E concluía sempre com a frase nominal e exclamativa – Bela cidade!
            Todas essas divagações em momento tão crucial parecem um tanto sem fundamento, mas deve ser um outro sistema de defesa ou instinto de sobrevivência. Fosse como fosse, era um impulso incontrolável, porém também se esgotara. O inevitável se aproximava.
            – Pa-ai! pa-ai! Guilherme não saberia dizer se clamava pela proteção paterna, se pedia perdão pelas duras palavras ditas a ele há poucas horas, se tentava dizer que o amava ou se queria reviver o Calvário “Eli, Eli, lamá sabactâni.” Por último, reparou no trocadilho de seu vocativo, resultado de sua extenuação e total desespero. “Pa-ai” primeiro a lambada “Pa”, seguida de seu efeito "ai”.
            De fato, parece inverossímil a cena. Ninguém, porém, seria mais incrédulo do que o próprio Guilherme agora que a mão esquerda de Alécio já vem com os dedos em garra para reter a gola de sua camisa, enquanto a direita, com o soco inglês ajustado, já está posta em guarda atrás do corpulento tronco, formando um ângulo de noventa graus, prestes a desferir o golpe mortal.
            – Você pode mais do que isso! Corre!
            Guilherme ouvira nitidamente a seu lado aquela frase, mas não havia ninguém. Tivera, assim mesmo, algum novo vigor, até então adormecido e, por meros centímetros, o golpe passou no vazio, bafejando em seus cabelos, cujo desalinho poderia ser efeito do frenesi da contenda ou da estática produzida pelo pânico indescritível.
            – Vou te pegar, Guile! – esbravejou Alécio, após o murro fracassado.
            – À esquerda, entre nesta rua após a agência bancária. – De novo, a mesma voz, e na falta de uma tábua de salvação, tudo é permissivo. Guilherme tomou a direção sugerida, embora sua casa distasse, apenas, duas ruas dali.            
            Logo que adentrou à rua, viu que alguém o esperava na extremidade oposta. Ao parar e voltar-se na direção por onde veio, deparou-se com Alécio, sorridente e vitorioso, embora arfando e transpirando profusamente. Ao ver chegar pela esquerda dessa mesma rua o terceiro dos ávidos delinquentes, ele não pôde deixar de citar Murphy novamente: “nada é tão ruim que não possa piorar!” Pela direita a rua não oferecia saída. Finalmente acuado!


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2 comentários:

  1. VITÓRIA PALMEIRA5:04 PM

    Seu livro é fantástico.PARABÉNS!!!!!!!!!!!!!

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  2. Vini_aranha11:20 AM

    Ótimo trabalho professor

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